Análise: o pleito do Grêmio para eliminar o River Plate no tapetão é justo

Créditos da imagem: ESPN

Trapaça sincera não é menos trapaça – River Plate tem que ser eliminado

Ao mesmo tempo em que os colunistas do site discutiam se a conduta de Gallardo justificaria a perda dos pontos pelo River Plate, o Grêmio anunciava a decisão de pedir a punição do clube argentino por desobediência à decisão disciplinar da Conmebol. Segundo o artigo 7.2.f do Regulamento Disciplinar, descumprir decisão de órgão judicial está entre as modalidades de quebra de princípios de conduta, tornando o ato sancionável. Trata-se, em tese, de atitude tão grave quando a do Santos ao escalar Carlos Sanchez em jogo que lhe custou a eliminação na mesma Libertadores. Na verdade, pode ser interpretado como algo ainda pior, pelas seguintes razões:

1 – a escalação do volante uruguaio se deu por conduta negligente do Santos ao verificar suas condições de jogo. A desobediência de Gallardo, amparada pelo River Plate, foi intencional, deliberada e ainda por cima confessa.

2 – Se a simples relação de Sanchez para o jogo já configuraria causa de perda de pontos, mesmo que este não entrasse em campo, o técnico do River Plate foi não apenas atuante, como teve participação decisiva no resultado. Suas instruções e alterações foram, pois sim, importantes para a virada argentina. Inclusive, o autor do gol decisivo – Martinez – entrou no segundo tempo, por decisão do treinador. Isso também configura, portanto, violação ao artigo 7.2.k. Agrava de forma contundente o que poderia ser considerado desobediência sem efeito prático.

3 – o artigo 19.1 do mesmo regulamento esclarece, sem dubiedades, que “qualquer equipe por cuja responsabilidade se determine o resultado de uma partida, será considerada como perdedora desse jogo por 3-0″. Como demonstrado acima, a participação irregular do técnico Gallardo teve efeitos determinantes no resultado, tornando obrigatoriamente aplicável o dispositivo.

4 – enquanto o inciso 3 do mesmo artigo 19 fala em prazo para questionar condições de jogo de um atleta, o inciso 1 (descrito acima) não traz nem mesmo prazo fatal, deixando claro que considera mais grave o ato que efetivamente influi no placar.

5 – o artigo 56.1.c permite reclamar contra resultado da partida em caso de “incidente grave, estabelecido pelo presente Regulamento, que tenha tido influência no resultado da partida”. Precisamente, como já dito, o que aconteceu. O Grêmio, destarte, está em seu direito processual inequívoco.

6 – o artigo 76.1 deixa claro que o técnico suspenso “não poderá acessar o vestiário, túnel, banco de reservas ou área técnica antes nem durante a partida, nem poderá por nenhum meio comunicar-se com sua equipe”. Gallardo usou comunicador e desceu ao vestiário para dar instruções, como admitiu depois do jogo.

Neste contexto, o clube brasileiro tem fundamentos suficientes para configurar a gravidade do que se viu na Arena Grêmio. É inaceitável que o River Plate dispute a final da Libertadores, ante a interpretação justa – e óbvia – do Regulamento Disciplinar. Em agosto, nos incidentes envolvendo Santos e o próprio River Plate, a Conmebol decidiu sob críticas, mas considerei acertadas ambas as decisões (LEIA AQUI). A conduta santista era inescusável. A do River não poderia sequer ser culposa. Diferente de ontem, pois o dolo de trapacear foi evidente. Sim, trapacear. Não há outro verbo para definir o caso. Resta saber se a Conmebol tomará novamente a decisão certa, ou concluiremos que os acertos anteriores foram acidentais – para não dizer outra coisa.

E os demais clubes brasileiros? Vão ficar inertes? Seguirão esperando que outros façam o que cabe a eles? Terão receio dos contratos envolvidos? Não concordo com a conversa de “força de bastidores”, como os leitores sabem. Trata-se de uma forma de trazer a vantagem indevida para si, em vez de eliminá-la. A questão agora é outra. Se uma entidade demonstrar que usa mesmo dois pesos e duas medidas com seus associados, os prejudicados devem unir esforços pela igualdade. Inclusive, se acharem o caso, buscando o apoio de clubes de outros países. O certo é que, se o tricolor gaúcho não for declarado vencedor por 3-0, como determina a norma, teremos milhões de trouxas – e não somente gremistas.

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