Barbárie exportação

Créditos da imagem: Clarín

Você gostaria que sua cidade corresse o risco de virar palco de batalha de duas gangues estrangeiras? É o que a população de Santiago deve estar pensando, depois de ver a palhaçada desse sábado. Uma cidade em que bandido não é vítima da sociedade e policial dá tiro quando folgado se recusa a parar o carro em blitz. Mais: o policial é apoiado pela mídia, no lugar de horrores ideológicos. Não há simpatia por criminosos travestidos de torcedores. Eles também existem por lá, mas tomam o rumo da penitenciária. Porque país civilizado é assim. O que esvazia as prisões é a certeza de que vão parar nelas, em vez de surfarem na impunidade. Melhor não arriscar.

Bem diferente do que se vê nos dois maiores países da América do Sul, cada vez mais perdidos em esquizofrenias políticas. Embora com fama de povo educado, a Argentina se encontra em penúria mental mais avançada. São décadas e mais décadas acreditando em mitos populistas. Até uma esdrúxula sessão de transferência espiritual teria sido feita para transformar Isabelita em Evita Perón. Não demorou para isso se refletir no futebol. Como quando o Judiciário reconheceu a falência das autoridades, há mais de dez anos, para decretar os clássicos de uma torcida só. Medida, pasmem, defendida por dois primeiros colocados em concursos para o Ministério Público paulista, sendo um deles atual membro do STF. Sim, estes são os inteligentes. Imaginem as toupeiras. Claro que não funcionou nem aqui, muito menos no berço da solução segregadora. Apenas mudou o lugar das confusões.

Na psicose de hermanos e brasucas, promover o bom comportamento pela aplicação da Lei está fora de cogitação. Prefere-se o caminho clássico da inutilidade. Comissões e mais comissões são montadas para mostrar aos truculentos que “não é bem por aí”. Antes da proibição de torcida visitante, potenciais bandidos eram escoltados pela polícia ao estádio, enquanto o resto tinha que se virar pelas ruas sem contingente. Agora os arruaceiros deixaram de ser escoltados porque não há lugar no estádio. Em compensação, estão livres para circular por aí, esbarrando com torcedores rivais – “organizados” ou não. Os incidentes continuam. Algumas vítimas são inocentes. Outras, nem tanto. E ainda aparece comparsa bradando “descanse em paz, guerreiro” perante o caixão. Logo vem o juramento de vingança e as autoridades agem. Como? Outra comissão…

“Ah, mas na Europa isso acontece!”. E o que acontece com quem faz isso? Leia o parágrafo inicial: é preso, babaca! Não tem baluarte da imprensa e do Facebook falando que “mais um pobre vai pra cadeia” ou que “estão expulsando o verdadeiro torcedor de futebol”. A comissão não termina criando um camelo*, e sim medidas que punem os bandidos e favorecem as famílias que “ousam” gostar do esporte. Porque papel de governantes, legisladores, promotores e juízes é esse. Está com medo de não receber curtidas nas redes sociais? Não se candidate e não preste concurso público. Não estou defendendo autoritarismos e “justiçamentos”. Quero que cada um assuma o papel que se propôs a preencher. Especialmente após anos de uma postura que não trouxe resultado algum, salvo maquiagens em planilhas. Incompetentes e covardes são unidos numa característica – a convicção.

Como se não fosse deprimente o triunfo em solo próprio, a Conmebol quer que o fracasso desfile em países vizinhos. Economicamente, o sucesso da final única já é uma incógnita. Não se sabe se os locais terão interesse em ir ao estádio, ou se os torcedores comuns dos finalistas conseguirão se deslocar. O certo é que, de algum jeito (não raro financiados pelos clubes), os “guerreiros” estarão lá. A cidade não sabe se ganhará divisas. Já os aborrecimentos virão de graça. Se a polícia e a Justiça fizerem seu papel, não será surpresa se surgirem defensores dos novos “heróis de Oruro” em Santiago, Bogotá ou onde for. Menor assumindo o crime, embaixada envolvida, etc… Mais um “charme” que só a Libertadores tem.

*máxima norte-americana conceitua camelo como “o cavalo projetado por uma comissão”.

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