Breves observações sobre o pontapé inicial do Campeonato Brasileiro

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Primeira rodada cheia de gols, times jogando abertos, etc… Sinal de mudança no Brasileirão? Por si só, não. Talvez para as pessoas que dizem acompanhar o futebol há décadas, mas falam e postam como se o fizessem há duas semanas. Nos dois últimos anos, as rodadas de estreia foram supostamente animadoras. Depois veio a triste normalidade. Não é difícil de explicar, muito menos de entender. Com a sensação de terem um campeonato todo pela frente, com todo mundo empatado na tabela inicial, os jogadores ao menos mostram o destemor que falta em qualquer jogo eliminatório com time brasileiro. Na medida em que o campeonato e as cobranças se desenham, voltamos ao pavor de perder tirando a vontade de competir.

Isso não quer dizer que não haja novidades positivas. A principal delas foi o Santos. Foi quem melhor aproveitou os estaduais, ao não abrir mão de sua proposta. Não foi campeão, mas desenvolveu alternativas de seu treinador. Uma das maiores perdas de tempo dos estaduais é justamente esquecer como deveriam ser encarados – preparação para o resto do ano. Sampaoli não caiu nessa e nem pode. Há um longo trabalho pela frente. Seu time é capaz de bater o Grêmio em Porto Alegre e tomar sufoco do Vasco da Gama. Normal. As grandes alterações costumam ser bipolares em suas primeiras temporadas. Especialmente quando o material humano tem carências técnicas e de entendimento tático. O clube da Vila tem tudo para ser sensação e decepção no decorrer das 38 rodadas. Detalhe: não estou considerando a situação financeira, que pode – ou deve – pender a balança para baixo.

Paradoxalmente, o campeão Corinthians tem o mesmo problema do rival que venceu há uma semana. Carille e Cuca possuem boas opções para alterar a equipe. O problema é a escalação inicial. Dizia Danilo Mironga que, para suprir todas as funções, os técnicos brasileiros teriam que começar com quinze jogadores. No caso corintiano, a situação pode ser quase sintetizada assim: quem tem técnica não aguenta correr; quem tem fôlego não aguenta jogar. Os bons de bola ou estão na turma sub-40 ou ainda penam para amadurecer fisicamente. A exceção tem sido Clayson, que vem unindo as duas coisas. Fagner e Cássio também se salvam. É pouco. Na partida de ontem, a alteração que vem funcionando (Love como ponta-de-lança) não teve tempo de produzir. Os espaços e falhas foram bem aproveitados pelos refugos do Bahia – com direito a golaço do “Neymar do Nordeste”.

Como o tema da coluna envolve novidades, não tem como deixar o VAR de fora. Tanto a parte boa (erros foram evitados) quanto a ruim, com o elemento humano mostrando sua capacidade de comprometer iniciativas corretas. Há pouco mais de uma semana, Jordi Alba fez um gol parecido com o do Fluminense. Há um jogador impedido, mas que o vídeo permite concluir que não atrapalhou o movimento do goleiro. Valeu lá. Não valeu aqui. No decorrer da temporada espanhola, os árbitros fizeram muita besteira – inclusive porque são tão ruins ou piores que os do Brasil. Espera-se que a prática e as críticas façam evoluir. Mas não sem muita histeria e desonestidade intelectual no trajeto. O público nos estádios também vai precisar de um tempo para digerir as marcações desfavoráveis. Ainda teremos muitos Arnaldos chorando as pitangas – mesmo na melhor das hipóteses.

Falando da dupla abastada, Flamengo e Palmeiras tiveram ótimos resultados, que talvez fossem diversos em outra rodada. O então invicto Cruzeiro não fez o que Mano costuma executar em momentos mais tensos. O Fortaleza parece ter entrado disposto a ver como as ideias ofensivas de Rogério Ceni, que deram certo em nível mais baixo, funcionariam contra o campeão da divisão acima, na casa deste. Nada como uma oportunidade destas pra cair na real. O que também vale para quem já dava o treinador como pronto. Melhor esperar, sem exageros otimistas ou pessimistas. Assim como é melhor esperar para ver quem terá estômago para assumir o Atlético Mineiro, que Rogério corretamente evitou. Mesmo em termos de treinadores brasileiros, poucas situações têm cara de “emprego temporário” como trabalhar no Galo. Seis meses e olhe lá. Se não for de MG, melhor nem se mudar.

Claro que tem muito mais a falar, mas vou fechar mostrando o que é o jornalismo descompromissado com os fatos. Uma matéria sobre o Fluminense citou que sentiram a falta de criatividade sem a presença de Ganso. Como se este, após um previsível início animado no Campeonato Carioca, viesse rendendo alguma coisa nos últimos meses. Uma hora não vai mais haver como tergiversar. Os autores do “será uma ótima para qualquer time brasileiro” terão que dar explicações aos leitores. Isso se ambos já não tiverem esquecido o que disseram. Afinal, foi há mais de duas semanas…

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