Crise Financeira nos Clubes, uma velha conhecida

Créditos da imagem: Impacto

Temos acompanhado as movimentações dos clubes brasileiros em busca de reformulação de elenco. O que tem chamado atenção é que a movimentação tem sido baixa, muito baseada nas propostas de trocas e as aquisições costumam vir associadas à pergunta “Mas este clube não está atrasando salários”? É, não tem jeito, a crise financeira chegou aos clubes. Mas isto só é novidade para quem não tem acompanhado as discussões sobre o tema. Nesta coluna trarei a introdução e a conclusão preparada para o último relatório sobre finanças de clubes brasileiros de futebol, preparado anualmente em nome do Itaú BBA.

Lá em Maio de 2017 o que eu trouxe como introdução, após analisar os dados de 2016 dos clubes brasileiros foi o seguinte:

Vamos relembrar de 2015: encerramos o ano acreditando que a gestão financeira dos Clubes Brasileiros nos trazia Uma Nova Esperança, uma vez que havia sinais de que estavam trabalhando para organizar as casas, reduzir dívidas, controlar Custos e se tornarem sustentáveis.

Corta para 2016. E vamos filosofar sobre o Futebol, e trazer Milan Kundera:

‘Aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado mérito ou fracasso’.

Como parte da vida, o Futebol também depende de decisões, e não falamos apenas das que ocorrem dentro de campo. Toma-se risco ao contratar, ao dispensar, ao aumentar salários, ao atrasar pagamentos. São escolhas, e a partir delas se mede mérito ou fracasso. Não há nada por acaso na gestão do Futebol.

Um dos grandes problemas do Futebol é, no dilema entre Leveza e Peso trazido por Kundera em sua obra clássica, o descompromisso dos Dirigentes com o longo prazo. É um problema existencial que contrapõe a Leveza (o descompromisso com o longo prazo) e o Peso (cuidar da sustentabilidade do Clube), onde ao final, e naturalmente, opta-se pela Leveza. Afinal, a Liberdade é sempre melhor.

Nos deparamos com a dificuldade dos Dirigentes em superar o desafio de se importar com o longo prazo, com o futuro. Organizar as Finanças, controlar os gastos hoje, não trará resultados esportivos e glórias agora, mas sim no futuro. E outro Dirigente será o beneficiário das conquistas. E desta forma, assume-se então o comportamento do ‘convite à vida’, de viver cada momento – ou cada campeonato – como se fosse o último. Afinal, o que importa é o hoje.

E assim, o Futebol Brasileiro segue sua sina. Mesmo depois de receber um montante de dinheiro extraordinário de Luvas pelo novo acordo de direitos de jogos para TV Fechada para o período 2019-2022, e contar com aumento significativo das Cotas de TV, além de continuar vendendo atletas, tudo se volta para a conquista hoje. E assim como em outros anos onde ocorreram situações similares, o ajuste é uma mera teoria. E temos novamente Milan Kundera:

‘Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado’.

É assim que os Dirigentes agem. Como se presos a um Feitiço do Tempo*, em que se repete infinitamente o Dia da Marmota.

A realidade, entretanto, é menos filosófica e mais grave do que imaginamos. O cenário da Indústria do Futebol poderia ser completamente diferente se, ao se deparar com o aumento de Receitas e a entrada das Luvas pela renovação do contrato de TV Fechada, os Clubes tivessem optado por reduzir Dívidas, cortar Custos, segurar Investimentos, focando mais em Estrutura e Base que em Profissional.

O que nós veremos nas próximas páginas é uma sucessão de decisões que objetivam resultado de curto prazo, e não pensando que em breve as Dívidas do Profut começam a vencer, que há Dívidas Bancárias, que as Receitas num País como o nosso são erráticas, que nem sempre será possível vender Atletas para fechar as contas. Mas que os Custos permanecerão ali, consumindo caixa, por algum tempo.

Esta é uma distorção do nosso modelo de controle dos Clubes. Ao serem entidades políticas, que dependem de eleição e mudam sua gestão de tempos em tempos, não há incentivo a pensar em longo prazo, se as conquistas estão a um passo de distância. O problema, é que todos os anos todos os clubes começam do zero, e estão a um passo de distância da glória. Só um será Campeão. E poucos se sustentam nessa condição por muito tempo, justamente porque só pensam na próxima conquista.

Acreditamos que gestões que coloquem ordem na casa e tornem os Clubes sustentáveis, terão a chance de se perpetuarem na ponta dos campeonatos. Mas isto ainda é um desejo, apenas, pois são raros os clubes que buscaram este caminho, sacrificando o Hoje e mirando no Sempre.

Bola para frente, que o jogo está só começando”.

Ou seja, apesar de alguns analistas apontarem a melhora do cenário, eu já vislumbrava que a realidade era passageira e ilusória, e fechei a análise assim:

Não resta dúvida que estamos diante de uma nova bolha no Futebol Brasileiro. Aumento das Receitas com TV, mas especialmente o volume significativo pago como Luvas em 2016 mudaram novamente o patamar de Receitas, mas também de Custos, Despesas e Investimentos.

E como essas Receitas não se repetem infinitamente, 2016 foi um ano que mostrou certo equilíbrio, mas atitude populista dos Dirigentes. Desta forma, já miramos 2017 como um ano de muita dificuldade para os Clubes que deixaram de fazer a lição de casa no ano passado.

Lembramos do icônico personagem “Chaves” e seu conhecido poema, que representa nossa expectativa para o Futebol Brasileiro:

‘Volta o cão arrependido
Com suas orelhas tão fartas
Com seu osso roído
E com o rabo entre as patas’
Se 2016 foi uma ilusão, 2017 promete fortes emoções”.

E as emoções realmente tem sido fortes, e não ficaram apenas em 2017. Elas permearão 2018, 2019 e enquanto os dirigentes não entenderem que apenas a gestão profissionalizada, com visão de negócio, que saiba unir esportivo e financeiro, é a solução.

8 comentários em: “Crise Financeira nos Clubes, uma velha conhecida

  1. O odeal seria que todos os clubes fossem obrigados a jogar com três jogadores de até 18 anos . Promoveriam atletas jovens obrigaria a cuidar melhor das categorias de base e daria um alívio aos caixas dos clubes .

    1. Desculpe, mas discordo bastante. Normalmente imposições do tipo só geram novos desequilíbrios, não é na base da canetada ou de uma espécie de “controle estatal” que se corrige tudo.

      Por exemplo, se todos fossem obrigados a escalar três jogadores com menos de 18 anos, além da evidente queda técnica e desvantagem em relação aos adversários estrangeiros (que não precisariam passar por isso, ou seja, uma Libertadores ficaria muito mais difícil), o que aconteceria é que os melhores jogadores abaixo de 18 anos passariam a valer muito mais, haveria uma busca ferrenha por eles.

    2. Meu querido ja estamos.atrás. de times internacionais rs. Nossa.bolinha é curtinha qual o ultimo campeão mumdial de clubes da Amarica do Sul rs. Quem disputou as.funais antes.do Gremio. E vc vem.me falar de.diferenças técnica. a timea europeus rs. O.oriente disputou contra o.Real.Madri deu.mais trabalho que o time brasileiro rs

    3. O problema em questão é a desoneração do futebol brasileiro. Vc citou que ficaríamos em desvantagem ao futebol internacional
      Ja estamos qual foi o último campeão mundial de clubes da América do Sul. Times orientais apresentam melhor futebol que o nosso . O time japonês deu .mais trabalho ao Real Madri que o Gremio
      Vamos perder o que , se não temos nada. Aceito sua opinião mas discordo.

  2. Que perfeição de texto, Cesar Grafietti! E que melancolia que me deu, ao mesmo tempo…

    Há alguma exceção positiva ou nem isso? Porque muito vinha se falando de Flamengo e Palmeiras, mas eles andam cada vez mais gastões, não?

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