De Pepe a Kid Pachequinho – Viva a informação precisa!

Créditos da imagem: Fernando Dantas/Gazeta Press

Não, você não leu o título errado não. Pepe, o ídolo do Santos, não morreu! Que bom, viva seo José Macia, inteirão lá pelos lados da Vila, na flor dos seus 86 anos. Quem de fato morreu foi o empresário argentino Pepe Altstut, residente em Santos e, por acaso, amigo pessoal do Canhão da Vila.

Reprodução da errata do Globo Esporte

Na hora de botar a notícia no ar, no entanto, alguém pisou na bola. O site do Globoesporte.com, do G1, até tentou fazer um malabarismo verbal para reduzir o impacto de ter que admitir um erro assim, primário no jornalismo, típico deslize provocado pelo não cumprimento da regra número um dos melhores manuais da profissão: toda e qualquer notícia deve ser checada com pelo menos duas fontes antes de ser publicada – em caso de morte, é bom checar com três!!! Isso é coisa que a gente aprende no primeiro semestre das escolas de jornalismo – ou aprendia, sabe-se lá a quantas anda a formação técnico-profissional dos nobres colegas em questão. Constrangedora, a errata é por si só uma pérola para os anais do jornalismo, na medida em que repara um erro de informação que não poderia ter acontecido, sobretudo num dos dois maiores e principais portais de notícias da internet. Pior: num momento em que todos os que produzem jornalismo com seriedade e respeito aos pilares da boa informação lutam contra a disseminação cada vez mais desenfreada das fake news, produzidas nos gabinetes de ódio e nos porões da desinformação a serviço de interesses escusos.

Longe de mim querer condenar os responsáveis pela autoria do erro – que, tecnicamente, chamamos de barriga. Barrigada. Bola Fora. Cagamos…sim, no velho Diário Popular, usávamos, internamente, a expressão em referência ao consagrado Erramos, da Folha de S.Paulo, sempre que nos víamos diante de um erro imperdoável, mas que nos impunha a obrigação de fazer um reparo na edição do dia seguinte, em respeito à verdade e, sobretudo, ao leitor. Hoje já vai longe o tempo do jornal de papel, em que o processo de produção era mais lento, passava por mais etapas e, como tal, permitia mais filtros. Da revisão à secretária gráfica havia uma extensa rede de proteção aos jornalistas para evitar os erros, e mesmo assim, lógico, eles aconteciam. Talvez tenham eles sido traídos por essa louca lógica da internet, que busca o clique a qualquer preço e sob qualquer risco. Na ânsia de furar a concorrência, cair na perigosa sedução da armadilha que se esconde atrás do que a plataforma digital chama de instantaneidade é um pulo. Publicou, já era. Como rastilho, as notícias se espalham e é difícil evitar os estragos.

Não é incomum, pois, que jornalistas e veículos de comunicação sérios, responsáveis, comprometidos com a verdade e a ética, erram. Ninguém está livre de uma barrigada. Aqui mesmo contei dia desses a história da publicação de um resultado errado do jogo do bicho, no velho Diário, que custou à redação o ônus de uma vaquinha em dinheiro para pagar o prêmio reclamado por um leitor. Eram os tempos em que o jornal estava sob o comando de Jorge Miranda Jordão, que tinha tolerância zero com o erro. Ele era implacável. E não tolerava transgressões que comprometessem o valor da marca e a tal missão e valores do que ele pregava no projeto de recuperação do velho jornal da Major Quedinho. Em relação às notícias de mortes, ele tinha um manual próprio de checagem que o livrava de escorregões. Nas matérias de polícia, por exemplo, ele exigia que os repórteres voltassem do front com a apuração absolutamente fechada, muitas das vezes exigindo que o jornalista trouxesse foto da carteira de identidade do falecido e imagem do morto que, uma vez confrontada, pudesse identificar que o finado era mesmo o morto em questão. “Trouxe o boneco da vítima”, costumava perguntar ele para os repórteres da editoria de polícia.

A falsa morte de seo Pepe também não seria perdoada por Carlos Brickmann, temido responsável pelo que ficou conhecido no prédio de pastilhas da Folha como “Vermelhódromo da FT (Folha da Tarde)”. Brickmann certamente foi o pioneiro no que mais tarde viria a ser cultuada, com mais charme e glamour, como a figura do ombudsman nas grandes redações. O tal vermelhódromo era a representação gráfica desse seu trabalho, que consistia em ler a edição do dia, linha por linha, e apontar os erros de informação, de grafia, de português, de sintaxe, de lógica… Brickmann era fissurado na busca pelos erros, um perfeccionista. O problema é que ele não tinha lá muita diplomacia na exposição das mancadas do dia. Com uma caneta futura vermelha, ele pontuava os erros nas páginas no jornal logo cedo. Quando a tropa chegava para o trabalho já podia ver as páginas rabiscadas afixadas no aquário onde ele ficava junto com os outros secretários de redação. Não havia um que não passasse por lá e se procurasse nas anotações do chefe, tremendo de medo de ter sido pilhado em flagrante delito gramatical. Talvez Brickmann, a par da competência e validade do seu trabalho, se divertia com seu tribunal de inquisição. Hoje, talvez, seus métodos de exposição dos erros individuais e coletivos da redação seria reprovado pelos especialistas em gestão de pessoas. Isso porque, em algumas vezes, ele chegava a imprimir tom agressivo aos seus comentários. Ai de quem, por exemplo, recorresse à expressão via de regra para “enobrecer” seu texto. No dia seguinte, com certeza, estaria ali o texto grifado em vermelho com a singela observação: “Via de regra é buceta!”.

Eu, felizmente, “não matei” ninguém em 40 anos de redação. Mas, por óbvio, também me vi diante de algumas barrigadas. Numa noite de quarta-feira, no auge daquele desespero do fechamento, em que os minutos passam assustadoramente velozes, o telefone toca e eu atendo. Eu era o editor do caderno de Esportes do Diário Popular e, normalmente, era o esporte que segurava o deadline. Havia todo um plano de metas e relatórios diários que mapeavam a eficiência do horário do fechamento. Qualquer atraso era reportado no dia seguinte para a direção do jornal, porque impactava seriamente na distribuição. É de se imaginar o quão importante era que a engrenagem funcionasse conforme o planejado para atender à cadeia de produção e de logística de um jornal que imprimia 200 mil cópias (à razão de 45 mil exemplares/hora) e que era levado de carro ou ônibus para todos os municípios do Estado, alguns a 500 km da Capital.

Imagem meramente ilustrativa de Kid Pachequinho

Voltemos ao aquário onde o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma fonte que eu julgava absolutamente confiável, me relatava uma confusão ocorrida após um jogo da Portuguesa, no estádio do Canindé. O informante conta a história em detalhes, com nome e sobrenome dos personagens, e garante que o presidente do clube na época, Manuel Gonçalves Pacheco sacou uma arma no meio da confusão e disparou um tiro contra um grupo de torcedores que protestavam contra o resultado adverso e a má fase do clube. Evidentemente, achei a informação relevante e, mesmo sob o ônus de atrasar o fechamento, decidi inclui-la naquela edição. Enquanto um repórter redigia a nota eu batucava um título, sempre oprimido pela necessidade, na época, de botar a informações resumida no número de toques pedidos pelo diagramador. Batuca daqui, batuca de lá, o nome do homem não cabia e eu criei um KID PACHEQUINHO DÁ TIRO NO CANINDÉ, que cabia certinho em duas linhas de 18 toques.

No dia seguinte, logo cedo, a telefonista avisa que o “Doutor Pacheco” – assim mesmo, reforçando a entonação de doutor para lhe dar gravidade – está na linha e quer falar comigo. Ele começa a conversa em tom gentil e me pergunta como eu soube daquela confusão de ontem à noite. Eu contei o milagre para ele, mas, obviamente, não dei o nome do santo. Já enfurecido, ele me surpreendeu ao dizer que ele não era o autor do disparo. Gentilmente, recomendou que eu mandasse minha fonte “para a puta que o pariu”. Medindo as palavras eu ainda tentei consertar a situação e disse a ele que a gente poderia fazer uma reparação na edição seguinte, com a versão dele para os fatos ocorridos no Canindé. Mas não era bem isso o que ele queria e não foi com a pretensão de pedir direito de resposta que ele me ligou. Puto mesmo ele estava com o apelido.

– “Desde que eu cheguei no clube hoje todo mundo só me chama de Kid Pachequinho. É seo Kid pra cá, é kid pra lá. Vão tomar no cú!!! Eu tenho um nome a zelar. Vocês acabaram com a minha imagem”, fuzilou ele, atirando pra todo lado…

Naquela manhã, sem saber se ria ou se chorava com o rumo daquela conversa, eu, do outro lado da linha, me senti abatido. E morri de vergonha.

Kid Pachequinho enfim fez mais uma vítima.

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