Eleições no Vasco: ria enquanto não chega a eleição no seu clube

Créditos da imagem: Bruno Marinho

Eleições em clubes de futebol são sempre momentos de diversão garantida, especialmente para os adversários. O problema é que em algum momento elas acontecerão no seu clube, e daí acaba a graça.

O maior problema de modelos de associações sem fins lucrativos controlando um clube de futebol é a forma política como as definições de comando são dadas, e como este processo amador se relaciona com uma atividade profissional que movimenta milhões de reais por ano.

Processos políticos não são ruins por essência, vide os processos democráticos que permitem às pessoas escolherem seus governantes e representantes, ao mesmo tempo que garantem a possibilidade de troca de direção ao longo do tempo. Mas um clube de futebol não é um país, é uma empresa que tem donos. Justamente por ter muitos donos – os sócios – é que demandam processos políticos para definição sobre quem será o administrador do momento (que é outro problema). Isso faz com que haja a necessidade de eleições, o que naturalmente cria grupos de afinidade, que viram partidos. Muito comum ainda é a criação de estruturas de perpetuação de poder através de conselhos vitalícios. Tudo para culminar na horrorosa figura do “mandato”.

Eleição, grupos de afinidade, partidos, políticos, centralização de poder nos conselheiros vitalícios, tempo curto de mandato que dificulta um planejamento de longo prazo. Sem planejamento e com pouco tempo de mandato o dirigente da vez quer ser campeão e ficar na história. Porque são poucos os que querem passar seu mandato arrumando a casa para que o próximo conquiste algo.

Roger Ramjet e sua pílula

Este é o cerne do problema do modelo associativo, e que remete justamente ao modelo político eleitoral de um país. Todo mundo começa cortando gastos, falando em austeridade, mas à medida em que as eleições se aproximam o que importa é aplicar “all in” em busca da reeleição. Isso quando o favorito da vez já não chega como Roger Ramjet, herói dos cartoons nos anos 80, que usava uma pílula energética para combater todos os males. O problema era que ela perdia efeito em algum momento, e daí alguém precisa vir para ajudar. No desenho funciona, mas em algum momento a ajuda não vem, e daí já estamos vendo os resultados por aí.

Poder! Poder! Ninguém está preocupado com o clube, pois são donos sem responsabilidade, e que dependem do modelo político para ir e voltar ao…poder!

Neste modorrento 2020 – afinal, nada de relevante vem acontecendo neste ano – o Vasco é o primeiro de 11 clubes que terão eleições até Dezembro. Talvez para um ou dois não haja grandes disputas, porque o sistema já definiu o sucessor, mas para a grande maioria teremos repetições do que vimos neste final de semana no Vasco. Cada um a seu modo, mas muita confusão à vista, e a certeza de um processo que tem contribuído para que os clubes estejam cada vez piores.

Mesmo para os clubes que hoje estão pacificados não há garantia de que assim permanecerão. É sempre um ESTAR, muito mais que um SER. Talvez o tempo mude os verbos, mas o modelo político associativo costuma nos pregar peças. Mas torço para que os bons exemplos atuais se perpetuem.

Agora, não significa que os modelos associativos não possam ser melhorados. Por exemplo, podem criar conselhos de administração formados por conselheiros externos ao clube, indicados e votados pelos sócios, com poder de vetos e garantia de execução das políticas de conduta do clube. Podem desenvolver planos estratégicos com regras de direcionamento de gestão, de forma que não haja espaço para dirigentes adotarem posturas personalistas. É possível definir regras de contratação, de endividamento, de gastos, com comitês de aprovação, parecer do conselho independente. E devem acabar com os conselhos vitalícios, que enferrujam as ideias, travam o desenvolvimento e a oxigenação dos quadros de gestão dos clubes.

Ah! Precisam contratar profissionais do futebol que entendam do futebol, do jogo, e não gestores de viagens ou especialistas em contratação. Não custa dar um pulo na Europa e ver como os clubes fazem. Aprender é bom.

Se tudo isso vir associado a uma regra na qual o grupo dirigente tem que apresentar garantias bancárias para cobrir eventuais perdas, muito melhor. Porque um dos grandes problemas da associação é viver de mandato em mandato, sem que haja responsabilizações sobre os danos causados.

Ao torcedor que hoje se diverte com a eleição do Vasco, aproveite. Mas um aviso: cuidado, porque o Vasco pode ser seu clube amanhã.

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