Eu, dirigente do São Paulo

Mais um ano em que os trabalhos da diretoria do SPFC e seu técnico estão sob fartas críticas. Nessas horas, até por uma certa mania de esperança, há quem comece a culpar os próprios críticos. “Vocês apontam o que tá errado, mas na hora de falar o que acham certo enrolam!”. Como diria Rômulo Mendonça, aqui não, queridinha! Se o leitor realmente acompanha meus textos, sabe que procuro opinar ao menos sobre o caminho menos desastroso. De todo modo, para quem chega agora ou não tem tempo de rever mais de cinquenta colunas, resumo aqui o que teria feito para esta temporada. Não tem nada de invencionice. São preceitos até simples, passíveis de serem feitos por qualquer pessoa que acompanhe atentamente futebol – e a sina tricolor. Vamos a eles:

1 – apresentar uma meta realista – nos últimos anos, o SPFC vem tentando fazer o que comentaristas de basquete chamariam de “cesta de 10 pontos”. Em vez de reconhecer a baixíssima probabilidade de suprir tantas lacunas (incluindo elenco e parte financeira) de uma vez, a diretoria busca soluções mais imediatistas que imediatas. A cada temporada, tenta o arremesso de mais longe – o que não adianta nada, pois será de 3 do mesmo jeito. Ante tal obviedade, já teria encerrado 2017 deixando claro que, por mais desagradável que seja outro ano sem conquistas, o objetivo de 2018 seria preparar um time competitivo para 2019. Assim haveria como fazer ajustes progressivos sem tombos por ansiedade. Se etapas fossem queimadas, seria algo natural, sem forçadas de barra sob desculpas falaciosas como “ambição”.

2 – falar a verdade – isso inclui não esconder informações essenciais. Muitos são-paulinos terminaram 2017 otimistas. Acharam que seria possível aproveitar Hernanes como base de uma equipe vencedora. Foram iludidos pela mentira dos dirigentes, que asseguravam a permanência do Profeta até, no mínimo, julho de 2018. Só revelaram a cláusula de retorno imediato depois que os chineses exerceram. Ainda assim, valeram-se da tropa chapa-branca para fazer crer que, com o suposto bom relacionamento de Ricardo Rocha com o técnico do Hebei Fortune, poderia haver uma reviravolta. Outra mentira. Isso gerou revolta dos torcedores e levou o clube a apostas de alto risco (como um meia de 36 anos) para devolver a vil esperança aos tricolores. Se não tivessem ocultado informações, um erro não puxaria o outro.

3 – definir um estilo para escolher o técnico adequado – por estilo, penso em coisas objetivas dentro do que se vê no futebol de hoje. Primeira: “quero um time que tome a iniciativa do jogo ou espere o adversário?” Segunda: “quero dois volantes, como no já manjado 4-2-3-1, ou vou atrás de um 4-3-3 ou um 4-1-4-1?” Minhas respostas seriam um time ofensivo com um volante. A segunda escolha significaria, ainda em dezembro, demitir Dorival Jr, que não trabalha sem dois volantes. Mesmo quando tenta algo diferente, logo um dos armadores acaba se posicionando próximo ao volante, por conta de um buraco que o treinamento não evitou. Não é questão de ser bom ou ruim. Ele simplesmente não fornece o que quero. Profissionalismo é isso. Um panetone gigante como agradecimento pelos esforços contra a série B, multa paga e seguia o jogo.

4 – montar a equipe com base nas escolhas acima – não basta ter um técnico que prefira minha opção. Tenho que montar um elenco para que consiga executar a escolha. Mais que isso: não posso cobrar resultados dele enquanto não lhe der o que precisa. Como a meta seria uma equipe para 2019, ambos saberíamos de antemão que nem todas as peças estariam disponíveis em janeiro. Contratações, ainda que com aval do treinador, podem demorar para dar certo ou nem isso. Jovens da base requerem paciência para lapidação, sendo que parte deles vai mesmo ficar pelo caminho. Claro que haveria chiadeiras imediatistas (mesmo porque, comigo, chapa-branca e mãe de hienas seriam ignorados). Mas, com base nas premissas honestas e realistas, até a torcida comum (não os aproveitadores) seria mais paciente com as idas e vindas. Não ser enganado traz efeitos psicológicos benéficos.

E o que se viu na prática? Nada. Critério zero. Raí até falou em filosofia de jogo para ser implantada em todas as categorias. Mas isso se chama mirar o infinito para não sair do lugar. O São Paulo pagou dez milhões de reais por um goleiro reserva. Seis milhões por um centroavante que marca poucos gols – e, ao contrário do inesquecível Aloísio, não compensa isso com assistências. Se não era fácil lidar com um medalhão como Cueva, trouxe outro (Diego Souza) sem sequer combinar com o técnico em que posição jogaria. Para aproveitar a “oportunidade”, trouxe um veterano que, a despeito de talentoso, pouco conseguiu jogar em 2017. Como na coluna em que fiz metáforas gastronômicas, os donos do restaurante mandaram o chef montar um prato com feijão, goiabada e homus. E o pior: em vez de jogar as panelas para o alto, o chef tenta fazer a gororoba funcionar.

Agora o que fazer? Antes mudar tarde do que não mudar nunca. A diretoria ainda pode fazer todo o sugerido acima. Com uma diferença: a meta passa a ser 2020. Quem sabe a Copa do Brasil em 2019. Mas também pode continuar do jeito que está. Neste caso, teremos o que já preconizo desde a eleição de Leco. São-paulinos (como eu), preparem-se para completar dez anos sem título. E olha que o último nem foi aqueeeele título…

3 comentários em: “Eu, dirigente do São Paulo

  1. O São Paulo nunca aceita ficar por baixo!!!!! Sempre cria um factoide pra fazer a torcida lotar o Morumbi e ter esperanças, nem que seja colocar o Raí de dirigente!!!!

    Eu aposto que neste ano vai mesmo cair!!!!!!!!!

  2. Gustavo Fernandes em outra coluna perfeita. Avaliação fria e absolutamente correta da situação do SPFC, que muitos preferem não ver, e outros tantos nem são capazes de compreender.

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