Flamengo: o novo time do governo. Pra quê?

Créditos da imagem: Carolina Antunes/PR

Maior clube do mundo, o Real Madrid é frequentemente destratado por suas ligações com o franquismo – segundo algumas obras sobre sua trajetória. Mesmo com o ditador tendo batido as botas há décadas, sendo que diversos outros clubes têm o “real” em seu nome, ainda há quem chame os merengues de “time do governo”. No reino republicano das loucuras brasileiras, o século atual trouxe dois correspondentes madridistas neste quesito. Para um, a utilidade (com a conta chegando depois) é testemunhada por quem passa em Itaquera. Para outro, só a Lei de Gerson (o da Copa de 1970, também meia e também canhoto) explica. Levar vantagem sem precisar. Possivelmente, só pra jogar na cara.

Nunca foi segredo que o Corinthians era o time do então presidente Lula e, registre-se, isso não impediu seu rebaixamento em 2007. Foi no processo de retorno que algumas benesses ficaram sugestivas. Primeiro, de forma bem discreta. Não fosse a língua solta de Ronaldo Fenômeno, não se saberia que Lula estava dando uma força pra construção de um CT do clube. Provavelmente, na base da cordialidade com empreiteiras amigas. Depois se viu que não era “apenas” (pois nem isso deveria haver no serviço público) contato cordial, mas também com efeitos econômicos. Foi assim que, também contando com a conivência de governo estadual e prefeitura (ocupados por supostos oposicionistas), apareceu um estádio no caminho. Não de graça, mas a conta ficou para depois. Talvez mais depois ainda, não fossem a derrubada do partido por impeachment e a eleição perdida em 2018.

Com o Corinthians literalmente “desgovernado”, alguém poderia imaginar que o rival Palmeiras botaria as asas pra fora. Afinal, o então presidente eleito participou de entrega de taça e é torcedor declarado. Tem também o apoio do amado e odiado Felipe Melo. Mas, como no campo, o Flamengo resolveu passar os paulistas e foi correspondido. A virada de casaca dupla (Bolsonaro também se diz vascaíno) começou com sua presença nos jogos em Brasília. Os laços aumentaram com a pandemia de Covid-19. O presidente do clube vestiu a camisa da abertura e vai botar os onze apóstolos de Jesus (doze é fria) no Maracanã. Sem público e TV. Os rivais cariocas são contra. Inclusive porque, numa interpretação muito livre das normas sanitárias, o Flamengo retornou aos treinos antes de todos. Já dizia o craque na propaganda: “Tem que levar vantagem em tudo, cerrrto?”. Precisa mesmo?

Não se pode dizer que é o primeiro flerte estatal do Flamengo, como não deixava mentir o patrocínio da Petrobras. Mas o fato é que o clube carioca entrou nos eixos sem mãozinha alheia. Fez o que tinha que fazer, penou e recuperou-se financeiramente. Explorando sua marca, enfim ajustou time e técnico para uma temporada vitoriosa. A rigor, o presidente da República precisa muito mais de apoio do mandatário da Gávea que o contrário. O efeito colateral é óbvio: não é porque Bolsonaro adula o Flamengo que seus eleitores mais ardorosos mudarão de time; mas muitos não-eleitores (incluindo quem votou e não pretende mais votar nele) torcerão o nariz para um time que vinha virando atração geral nos gramados. Não são poucos os que preferem ver jogo do Flamengo a uma partida de seu próprio clube. Não serão poucos os que vão querer ver o mesmo Flamengo se explodindo.

Mesmo entre os próprios torcedores, há uma sensação de vergonha no ar. Algo que senti, como são-paulino, quando Juvenal passou anos bajulando governos e CBF para garantir o Morumbi na Copa. O mais patético (e já era patético) foi ter quebrado a cara. Não que justificasse, mas o tricolor tinha algum interesse a buscar. Que interesse tem o Flamengo? Se for o de se tornar o mais antipatizado do país, também conheço a história “soberana”. Não é por menos que amigos rubro-negros temem o mesmo desfecho. Quem procura problemas, em vez de soluções, geralmente acha.

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