It’s a Small World After All – o mundo pequeno do Mundial

Créditos da imagem: GETTY

Os dois jogos mais esperados deste semestre da temporada vermelha acontecem em dezembro. O primeiro ocorre nesta terça. Eventual derrota para o RB Salzburg eliminará o atual campeão da Champions League. O segundo ocorre em 26 de dezembro. Na rodada do Boxing Day, o líder disparado da Premier League enfrentará o Leicester, atual segundo colocado e com futebol muito mais empolgante que o do título de anos atrás. Aliás, esta partida só não é a mais aguardada do fim do ano, pelos fãs de futebol do mundo, por uma razão óbvia: Barcelona e Real Madrid se enfrentam no clássico adiado. “Ah, você não se refere a Liverpool x Flamengo porque ainda tem a semifinal, né?. Não.

Com exceção natural do público dos times de outros países participantes, o Mundial de Clubes da FIFA pode ser resumido numa palavra: desnecessário. Sim, haverá milhões de pessoas vendo a partida pela TV ou via internet. Mas simplesmente porque o melhor time estará nela. Isso mesmo. Nem há a curiosidade de saber quem é melhor. A resposta já é sabida. Para fazer uma comparação precisa, pego o tênis como exemplo. Quando Rafael Nadal disputa um torneio no Catar e enfrenta um jogador de ranking bem abaixo na final, o público sabe que uma zebra não tornará seu algoz melhor que ele. Mesmo que o torneio seja chamado de Mundial. Será motivo de orgulho eterno do autor da façanha, mas não o tornará o número 1 do planeta*. Por outro lado, dando Rafa, será apenas um título de menor importância. Se perder Roland Garros, nem servirá de consolo.

Houve tempos em que a resposta não era automática. Por décadas, decretar o campeão europeu como melhor equipe mundial seria mais que arrogância. Seria ignorância. Os centros se equivaliam, pois os melhores atletas atuavam pelos respectivos continentes de origem. Mesmo nos anos 1980 e 1990, quando os mercados europeus começaram a se abrir, as vagas ainda eram reduzidas – uma ou duas para qualquer estrangeiro. Assim, boa parte dos sul-americanos de qualidade seguia por aqui. O reflexo eram os verdadeiros choques de força, em que um Vasco da Gama era vice-campeão, só que com mais gols perdidos que o Real Madrid. Até este ponto, não soava irreal um vencedor sul-americano da Copa Toyota se sentir o melhor time do mundo. A não ser, caso bem sucedido, o time de mercenários do Cruzeiro em 1997. Mas essa é outra história.

Na década passada, o cenário já era bem diferente. Os efeitos da sentença Bosman, que incluíram dar como locais atletas de qualquer país da União Europeia, permitiram que clubes europeus virassem seleções internacionais. Por conta do desnível técnico, os confrontos do Mundial assumiram o perfil de ataque x defesa. A proporção de vitórias da América do Sul ainda era razoável, mas já não era realista proclamar o vencedor sul-americano o melhor time do mundo. Com certeza nem o São Paulo, muito menos o Internacional (desfigurado em relação à Libertadores) podiam se atribuir este adjetivo. Ainda assim, a disputa tinha seu charme na possibilidade relevante de Davi vencer Golias. Mesmo na decisão que fechou a década, o Estudiantes vencia o Barcelona de Guardiola e Messi até os 88 do segundo tempo. Por pouco o clube catalão não repetiu o fiasco de 2006.

Nesta década prestes a acabar, clubes como aquele mesmo Barcelona consolidaram padrões táticos que afetaram todos os concorrentes – ou para seguir seus conceitos, ou para enfrentar tais conceitos. Os times se compactaram e passaram a atuar mais adiantados. Estas ideias e execuções potencializaram ainda mais as individualidades dos times europeus. Além de poderem contratar os melhores sul-americanos, os clubes da Europa puderam usar um número maior de atletas técnicos (daqui e de lá), prescindindo da quantidade de jogadores “cintura dura” de outros períodos. Alguns treinadores da América do Sul (não confundir com técnicos sul-americanos trabalhando na Europa) até foram campeões com propostas mais modernas, porém incompletas. Tanto que, no próprio Mundial, começaram a perder para times africanos e asiáticos – 2010, 2013, 2016 e 2018.

Portanto, probabilidade atual de um sul-americano vencer o Mundial é menor que a de ficar de fora da decisão**. Por mais que se espere que este Flamengo chegue à final sem transpirar e jogue futebol contra Mané & CIA, não há como exigir que o resto do mundo não veja o torneio como uma espécie de “aguente três assaltos contra o campeão e ganhe almoço grátis”. No lugar de um duelo de titãs, uma batalha exótica. Talvez os torcedores do Liverpool não vejam assim, pela lembrança recente do “roubo” (na cabeça deles) de 2005. Mas nada que tire o sono ou que provoque euforia maior que uma Copa da Inglaterra. Conquistar o mundo é a obsessão de Pink e Cérebro, não dos “reds”. Nem de sua plateia mundial.

*não encham, fãs de Federer e Djokovic. Estou me baseando no ranking atual. Eu mesmo sou federista…

** neste contexto, chega a ser tragicômico que comentaristas e até torcedores defendam a volta do formato da Copa Toyota

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