Medalha só quando ganha?

Créditos da imagem: Cris Dissat

Que equipe econômica seria capaz de destrinchar e analisar com clareza, sem remendos, a contabilidade e os balanços dos clubes de futebol, especialmente os chamados grandes do Brasil – para não correr o risco de abrir a discussão para o que aconteceu anos atrás com o Olympique de Marselha (perdeu o direito de disputar o Campeonato Mundial Interclubes de 1993 devido à comprovação de que fora beneficiado num esquema de manipulação de resultados) e há menos tempo com o grande Barcelona, cujo presidente de então, famoso por aqui, chegado ao ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, está no xilindró, salvo melhores informações? Talvez nem a do Fundo Monetário Internacional.

Como explicar prêmio pago em grana viva, no vestiário, ainda no calor de uma decisão, sem recibo e sem mais nada? E os milhares de vales dizendo apenas “compra de flores”? E o custo dos ingressos doados aos amiguinhos das torcidas uniformizadas, por estes passados, pelo menos em parte, a cambistas que com eles – e será só com eles? – dividirem os lucros? Isso, para ficar no barato.

Todos sabem que contabilidade de clube de futebol é caixa preta que não se deve abrir, sob pena de voltarmos aos anos 1930/32, do (quase) puro amadorismo. Nessa longa caminhada da vida, cansei de ouvir diretoria que assume prometer auditoria para botar tudo em pratos limpos. Salvo quando é aliada da que sai, o que também acontece muito. “Esqueça o que eu fiz que não cobrarei de você lá na frente” – parece dizer em código.

Dessas já falei muito e vi CPI dar atestado de pureza aos indiciados. E Conselhos Deliberativos canonizarem os distribuidores de carteirinhas, ingressos, viagens curtas, por aqui, e internacionais. Europa, China, Japão. Tudo pago.

Quero falar agora é do direito de imagem pago aos jogadores, separados dos salários e das luvas. Todos sabem que ele foi criado para que o jogador, como pessoa jurídica, pague imposto de renda menor que o faria como pessoa física. Mas não deveria ser assim.

O certo seria o clube pagar para usar a imagem do jogador – muito além da presença dele nos jogos. Jogar e treinar nada mais é que o cumprimento da obrigação assumida na assinatura do contrato. Seria usar sua imagem além disso, do relacionado diretamente com a profissão. Usar a imagem dele em publicidade, por exemplo. O departamento de marketing do clube arranjaria parceiros, empresas interessadas em usar a imagem do jogador em seus produtos, pagariam ao clube o preço devido e este repassaria ao jogador uma porcentagem previamente acertada. Se não me engano, Raí fez assim quando voltou do PSG. Ronaldo fez assim com o Corinthians…

Jogador se destaca, sua imagem é positiva, dentro e fora do campo, o clube a vende e ele lucra. Se não está nem aí com a carreira, a profissão, adorando um bermudão e chinelinhos, depois de assinar contratos que lhe garante por dois e até quatro anos, nada tem a receber, porque sua imagem em nada ajuda o clube, muitas vezes, ao contrário, prejudica.

Exemplo bem manjado? Esconder o rosto quando comemora um gol, escondendo, automaticamente, a marca do patrocinador do clube. Quando não vai além e tira o “manto sagrado” – escondendo as marcas e ainda ganhando cartões. Até na forma de reagir aos aplausos ou vaias da torcida, diante das câmeras de televisão, deve valer – e até establecer multas nos contratos – a postura do jogador, que representa sua imagem, por consequência a do clube.

Já vi antes, na Olimpíada de Atlanta, por exemplo. Naquela ocasião, a Seleção Brasileira de futebol não foi receber a medalha de prata – viajando antes de volta ao Rio. A desculpa foi que não dava tempo, perderiam o voo. E se tivessem conquistado a medalha de ouro? Deixariam por lá também?

O exemplo mais recente da falta de compromisso com a imagem do clube, o desprezo com os torcedores, no estádio e em suas casas, foi dado nesta quarta-feira por boa parte dos jogadores do Flamengo, ao serem “obrigados” a receber a medalha de vices da Copa Sul-americana, após derrota para o Independiente, da Argentina. Alguns mal permitiram que os dirigentes colocassem a medalha em seus pescoços. Outra apenas a pegaram com as mãos, a passos acelerados. Não duvido que os cuidadores do estádio tenham encontrado algumas medalhas jogadas em algum cando do gramado ou do vestiário.

Jogadores que recebem polpudos direitos de imagens, passaram péssima imagem na triste noite de quarta-feira.

7 comentários em: “Medalha só quando ganha?

  1. Muito bom! Sem querer ser politicamente correto, mas é um absurdo que os jogadores se portem desse jeito, espírito esportivo zero! E o mais triste é que ninguém quer dar exemplo positivo em um país tão carente de referências como o nosso.

    Aliás, não duvido que tivesse patrulha de torcida falando que “quem gosta de vice não serve pra jogar aqui”…

    Nisso a cultura dos “esportes olímpicos” é outra coisa!

  2. Como sempre, perfeito! Hoje cedo o clube divulgou uma nota e o Bandeira soltou a pérola: “O Flamengo está acima do bem e do mal. Aqueles torcedores não eram do Flamengo”. Que prepotência! Será que aprendeu com o Euvírus?

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