Na prática, a teoria pode ser outra

Créditos da imagem: Reprodução / Fanáticos Por Futebol

Por que, nas seleções, todos juntos NEM SEMPRE somos fortes

Na coluna passada, falei sobre as razões pelas quais as melhores seleções perderiam para os melhores clubes. Hoje gostaria de pegar gancho no texto e focar num falso enigma. Falso, porque as explicações chegam a ser flagrantes. Não é incomum contar com um material humano incrível para sua seleção, sem que joguem bem juntos – ao menos com o nível sonhado. Como se fosse só colocar todos em campo para que se arrumem sozinhos. Pode até acontecer, mas está muito longe de ser a regra. Vejamos os motivos:

1 – de novo, o tempo – por vezes sou repetitivo, mas não há como excluir um dado só porque apareceu no texto anterior. Quanto menos dias se tem para treinar, mais se depende de ajustes naturais – que, nada raro, não acontecem sequer quando boa parte dos convocados é do mesmo time. Lembrando que, na incrível seleção brasileira de 1970, Zagallo teve muito mais que três semanas para adaptar três pontas-de-lança (Pelé, Tostão e Rivellino) na equipe. Fosse nos dias atuais, fatalmente os três bateriam cabeça.

2 – conflito de território – dois (ou mais) jogadores podem ser ótimos, porém no mesmo setor do campo, movendo-se para os mesmos lugares. Para que atuem juntos, um precisará mudar de ares e, assim, não terá necessariamente o mesmo desempenho. Isso pode afetar desde a zaga até o ataque. Quanto mais “trombadas”, mais improvável é o sucesso com todos no mesmo barco. Detalhe: até num clube, com todas as semanas para ajustes, chegamos a ver Griezmann penando para se entrosar com Messi, que já ocupava (melhor) as faixas em que o francês costuma atuar. Quem contrata – ou convoca – precisa pensar nisso.

3 – estilos pouco compatíveis – uma seleção é composta por atletas de clubes diferentes. Uns tomam a iniciativa, outros se defendem. Uns praticam o jogo mais rodado, outros preferem ser verticais. Uns se posicionam adiantados, outros nem tanto. Uns têm jogadores rápidos e leves, outros cadenciados e pesados. Na hora de colocar todos na mesma panela, com cada um acostumado a temperos próprios, o gosto pode ser indigesto. Entre todas as incompatibilidades, a mais difícil é a de estilos muito ofensivos e muito defensivos. Quem costuma se dar mal nessa é o zagueiro ou o centroavante – ou ambos.

4 – padrões e níveis pouco compatíveis – não é apenas o estilo que você pratica, mas onde você o pratica. Cada local tem um determinado padrão de espaçamento e ritmo, em que os estilos se desenvolvem. Fora as gritantes diferenças de nível técnico entre um campeonato local e outro. Isso não se resume ao óbvio abismo entre o futebol praticado na Europa e o de outros continentes. Mesmo atuando no Velho Mundo, é tarefa inglória entrosar jogadores que atuam na Inglaterra, na Itália, na Alemanha, na Espanha, na França, etc… Em alguns casos, nem parecem praticar o mesmo esporte.

5 – excesso de protagonistas – quando um jogador é o “protagonista” de sua equipe, acontecem duas peculiaridades básicas. Primeiro, o jogo passa a ser moldado em sua função. Segundo, será dispensado de quase todas as tarefas defensivas. Por exemplo: se for um atacante de lado, um companheiro passará a formar a linha de marcação pela lateral. Não dá para dar a todos os protagonistas de clubes o protagonismo da seleção. Será um protagonista (no máximo, dois) e o resto tendo que aceitar não ser o centro do jogo e até correr atrás do lateral adversário. Sem dar o popular “migué”. Nem todos aguentam o pique.

Portanto, a não ser que você curta muito ver as mesas redondas falando abobrinhas (“falta de amor à camisa”, “fulano nunca foi tudo isso”, “a culpa é toda do técnico”…), ou ver vídeos de meia hora em que o youtuber esquece o assunto no terceiro minuto, pode ficar com os cinco pontos acima e fazer outra coisa com seu tempo. Além, é claro, de pensar duas vezes antes de sair decretando que tal seleção, com tanto craque junto, já ganhou a Copa de véspera. O queixo não vai cair se esta mesma seleção não passar das oitavas.

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