Nada a perder – contra o Flamengo, a chance de Sampaoli retomar a sua essência

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Sábado, no Maracanã, o favoritismo e a responsabilidade são do Flamengo, de Jorge Jesus. Chance para Sampaoli tentar se reencontrar?

No início do ano, o Santos vendeu Bruno Henrique e perdeu Gabigol, ambos para o Flamengo (justamente os dois melhores jogadores do clube carioca em 2019), o que só evidencia o abismo que hoje separa a condição econômica e modelo de gestão dos clubes.

Enquanto o Santos não quis apostar que aquele brilhante atacante de 2017 voltaria a dar as caras (Bruno Henrique chegou a ficar no banco de reservas de Derlis González em 2018, tamanha a sua insegurança pós-cirurgia no olho), o Flamengo topou arriscar e gastar alguns milhões naquele então potencial jogador de Seleção Brasileira (indicado por Abel Braga, é bom que se diga).

Mais do que “querer” ou “topar”, o Flamengo “pôde” (e pode) apostar. O Santos, não.

Vitinho não deu certo?! E daí? Pará e Uribe não estão mais acrescentando?! Fora! Detalhe: ambos desembarcaram na Vila Belmiro, o que novamente escancara a disparidade econômica entre os clubes. Enquanto o Flamengo contrata o crème de la crème santista, o Peixe contrata as sobras do Rubro-Negro.

Já o Santos, mesmo em grave crise financeira, ainda assim acabou apostando (bendito seja Rodrygo!) e trouxe Sampaoli e inúmeros jogadores caros como Bryan Ruiz, Cueva, o já mencionado Uribe, Aguilar, Jorge e Soteldo.

A aposta de maior sucesso, o tiro mais certeiro da atual diretoria, atende por Jorge Sampaoli. Entre os jogadores, Jorge e Soteldo se destacam e outros, como Bryan Ruiz e Cueva (possivelmente os dois maiores salários do elenco), nem parecem ser do clube, de tão alheios e “fora de órbita” que estão.

Mas é principalmente graças ao seu treinador (“um inconformado com o erro”, utilizando-me de suas próprias palavras) que o Santos brilhou e já fez mais do que dele se poderia imaginar nesta temporada, o que fez de seu comandante ser considerado por mim, em julho passado, como o grande nome do futebol brasileiro em 2019 até aquele momento.

Vá lá que de lá pra cá, Jorge Jesus apareceu, Tiago Nunes cresceu e Renato Gaúcho, novamente, compareceu. Aguardemos, portanto, o final da temporada para a simbólica “coroação”.

Mas voltemos a tratar do técnico santista. Há quem defenda a tese de que o “Roteiro Sampaoli” era previsível: começo animador, que perde força e termina em atrito. Assim foi no Sevilla: o início de temporada forte, com o futebol ofensivo e muito intenso que caracteriza o trabalho do discípulo assumido de “El Loco” Bielsa. Até boa parte do segundo turno, o clube disputou o título de LaLiga cabeça a cabeça com os gigantes Real Madrid e Barcelona. Na Liga dos Campeões, o desempenho também foi positivo, com a classificação para as oitavas de final com uma segunda colocação no grupo que tinha Juventus, Lyon e Dínamo de Zagreb. Com o tempo, porém, o Sevilla foi perdendo punch. O elenco, convenhamos, não tinha nomes para competir com a dupla mais poderosa do futebol espanhol. O título do campeonato nacional ficou distante e o desempenho intenso se transformou em atuações abaixo da média. Na competição continental, a má fase pesou e os comandados de Jorge Sampaoli foram eliminados pelo azarão Leicester. E a relação terminaria com o treinador forçando a barra para sair e comandar a seleção de seu país. Particularmente, considero a tese equivocada, pois o Santos tem atuado pouco no ano graças à pausa da Copa América, às eliminações precoces nas competições de formato mata-mata e, também, pelo incessante rodízio de atleta entre os titulares (dificilmente o treinador repete uma escalação) e até mesmo pelas “rodadas espaçadas” (folgas semanais) -pelo menos até aqui- do Brasileirão. De modo que não há que se falar em desgaste físico decorrente do estilo de jogo de abafa e pressão na saída de bola adversária. 

No entanto, há outro momento em que a semelhança com os atuais dias vividos na Baixada Santista (refiro-me aos atrasos nos vencimentos e crise política instaurada) é mais pertinente. Em 2002, Sampaoli treinava o Juan Aurich, do Peru, que passava por problemas financeiros e precisou da ajuda de um brasileiro para não passar por apuros. “Quando o clube trocou de presidente eles pararam de pagar o hotel onde ele se hospedava. E não tendo para onde ir, ofereci minha casa pra ele ficar, visto que tínhamos dois quartos a mais. Ele ficou por lá comigo alguns dias”, contou o Rafael Bondi, ex-meia do time peruano. “Infelizmente ele foi mandado embora na metade da temporada porque o presidente que chegou trouxe o treinador dele. Mas o time terminou em quarto lugar. Era um time pequeno, e para a cidade foi um grande resultado”. Para seu lugar foi trazido o experiente Vito Andrés Bártoli, argentino que tinha 73 anos à época. Depois de ser sair da equipe, Sampaoli foi contratado na mesma temporada para o Sport Boys Callao, que também estava na elite do Campeonato Peruano. Depois disso, ele passou por Bolognesi-PER, Sporting Cristal-PER, O´Higgins – CHI, Emelec-QUE, Universidad-CHI, seleção do Chile, Sevilla e seleção da Argentina, antes de desembarcar na “Vila mais famosa do mundo”.

De qualquer maneira, tivesse eu que apontar o porquê de o Santos ter caído de produção e a combinação de alguns motivos distintos seriam apontados, tendo como destaque, talvez, a insistência em atuar num esquema que não tem dado boas respostas, numa linha com 3 zagueiros (principalmente quando um deles, Aguilar, vem comprometendo partida sim e partida sim novamente).

Contra o aparente “Super Flamengo” (e escrevo isso sem um pingo de ironia), que parece ter dado liga depois da chegada de Jorge Jesus e das fantásticas contratações de Rafinha, Filipe Luís e Gerson, além da, verdade seja dita, contusão de Diego, o Santos entrará em campo sem peso algum, mas com uma grande oportunidade de fazer história.

Que os treinadores gringos, muitíssimo bem-vindos ao nosso futebol, entendam a responsabilidade que carregam especificamente nessa partida.

Que Jesus faça valer o comentário de que o seu Flamengo estaria no G6 da Premier League e que Sampaoli coloque em prática -pra valer- a história do amor pelo balón, o que não quer dizer praticar um futebol suicida e irresponsável, é bom que se diga, mas que ao menos relembre os bons momentos vividos pelo Santos em 2019.

E segue o jogo.

Fontes bibliográficas: ESPN.com

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