Neymar é o reflexo rejeitado de um povo que passou a odiar o que vê no espelho

Créditos da imagem: Lucas Figueiredo/CBF

“Ousadia e alegria”. Este é o lema que passou a ser identificado a Neymar, carregado pelo craque não apenas em tatuagens no corpo ou inscrições nas chuteiras, mas principalmente no comportamento. Sempre com cabelos e vestimentas chamativas e diferentes, introduzindo expressões como “parças” ou “tois”, praticando um futebol exuberante com direito a carretilhas, chapéus e toda sorte de dribles desconcertantes, também é capaz de tomar decisões polêmicas como sair da zona de conforto do poderoso Barcelona para aceitar o desafio de ser o principal condutor do emergente PSG em seu projeto de conquistar o mundo, na maior transação da história do futebol.

A imagem positiva do povo brasileiro sempre foi ligada à alegria, jovialidade, leveza e criatividade. Todas características representadas por Neymar, um “moleque de 26 anos” que, também dentro de campo, encarna perfeitamente o chamado “futebol moleque”.

Entretanto, nos últimos tempos, “nosso menino prodígio” de outrora passou a ser alvo de uma rejeição praticamente generalizada. Tratado como um câncer, quase como se fosse um mau elemento, vive dias de “Geni” da música de Chico Buarque. Se estivéssemos próximos do Sábado de Aleluia, não duvidaria que aparecessem bonecos seus entre políticos e ministros do STF na tradicional “Malhação de Judas”.

É evidente que ele tem defeitos. Vendo à distância, parece fútil e teimoso, e, dentro de campo, nervosinho, reclamão, provocador, simulador, malcriado e, às vezes, individualista. Normal, todos temos características negativas que afloram de acordo com nossa personalidade. Para ilustrar: se Messi nunca levaria os comuns cartões recebidos pelo “pilhado” Neymar, o brasileiro tampouco seria tão apático quanto o argentino foi na derrota da Argentina para a Croácia, por exemplo.

Mas o rapaz de Mogi das Cruzes não tem a obrigação de ser como os outros querem. Ele nunca falhou miseravelmente em um momento crucial para suas equipes. Jamais lesionou outro jogador. Não se envolveu em agressões físicas ou pancadarias. Não falta a treinos. Considerando coisas extracampo que já aconteceram a outros craques famosos, jamais se envolveu em acidentes de carro (menos ainda que deixassem vítimas), doping, drogas, alcoolismo, paternidade não reconhecida, escândalos de traição ou serviços sexuais, fotos com traficantes/armas etc. para ser assim moralmente condenado.

De problema real na carreira, teve apenas um inaceitável episódio de insubordinação com seu então treinador, Dorival Júnior, que rendeu a famosa (e agora requentada) declaração de Renê Simões de que “estamos criando um monstro”, quando tinha apenas 18 anos, e que logo gerou um pedido público de perdão ao técnico e aos companheiros. Outros dois incidentes muito superestimados: a expulsão pós-jogo com suspensão na Copa América de 2015 e a suposta disputa com seu companheiro Cavani. De resto, só elogios de colegas e treinadores, incluindo o reconhecimento de Gabriel Jesus à sua liderança na campanha da medalha de ouro olímpica.

Visto como egoísta e alguém que se coloca acima do time, Neymar sempre tece os maiores elogios a Messi (com quem nunca sequer tentou disputar protagonismo no Barcelona) e Cristiano Ronaldo. Jamais se diz superior a nenhum jogador e se coloca como fã e admirador de craques do passado como Zico, Ronaldinho e Ronaldo.

Enquanto isso, Cristiano Ronaldo se auto-proclama o melhor jogador da história e não recebe as mesmas críticas que “o arrogante Neymar”. Na partida contra o Irã, o luso cavou pênalti, desperdiçou a cobrança e deixou uma mão no adversário que poderia dar margem para expulsão. Ah, se fosse o Neymar…

Na torcida de Argentina x Nigéria, Maradona apresentou um comportamento estranho e comemorou o segundo gol argentino mostrando o dedo médio. Ah, se fosse o Neymar que fizesse isso assistindo um jogo…

Na final da Copa América Centenário, Messi desperdiçou uma cobrança na decisão por pênaltis e foi um dos responsáveis diretos por mais um fracasso dos hermanos. Deixou o vestiário dizendo que abandonaria a seleção. 45 dias depois, retornou. Mas só o que se via eram pessoas se compadecendo da dor de Messi, e nenhuma suposição de que seria “mimado”, ou  teria “criado um factoide para fugir da responsabilidade”…

Mas aqui se discute se o choro de Neymar após o apito final da partida contra a Costa Rica era verdadeiro ou falso. Desconsidera-se o drama de quem disputava uma ótima Copa do Mundo em casa, sofreu uma entrada violentíssima e deixou a “competição dos sonhos” de cadeira de rodas (para, de lambuja, ver os companheiros levarem o 7 a 1). Perto da Copa seguinte, nova contusão, o que exigiu uma recuperação acelerada para poder disputá-la mesmo sem ritmo de jogo, o que certamente tem a ver com suas más atuações nas primeiras partidas. Em 1966, desolado por ser tirado de sua segunda Copa seguida por contusão, Pelé abandonou a Seleção, à qual só voltou dois anos depois. Em 1998, com todos os holofotes em cima, Ronaldo Fenômeno sofreu uma convulsão antes da final da Copa contra a França. É desse nível de carga de pressão e responsabilidade que estamos tratando, mas tem jornalista que prefere brincar de analisar se o choro foi real ou não.

Neymar é conflitivo e se importa com o que o rodeia. Por isso bate boca com torcedor depois de conquistar o título olímpico e chora em desabafo após marcar o gol contra a Costa Rica. Diferentemente, por exemplo, de Ronaldinho Gaúcho, que por anos era criticado justamente por uma postura blasé de quem parecia não sentir muito as derrotas ou cobranças externas.

Desprestigiado pelo “fracasso” de ainda não ter superado Messi e Cristiano Ronaldo, Neymar é “o cara” da Seleção desde 2010, com 18 anos de idade. Agora, aos 26, já beira os 400 gols na carreira. De Champions League às Olimpíadas, passando por Mundial de Clubes, Libertadores, Campeonato Espanhol e Copa das Confederações, possui praticamente todos os títulos que um futebolista pode desejar (falta, basicamente, a Copa do Mundo). Detentor de marcas inéditas como ser o único campeão e artilheiro de Champions e de Libertadores, além de ter marcado gols nas finais das duas, e de ser o único jogador a marcar gols em todas as partidas das quartas, semi e final de uma edição da Champions League, já é o quarto maior goleador da história da Seleção Brasileira e tem tudo para se tornar o maior (superando até Pelé).

Mas apesar de tanta efetividade, Neymar representa nosso típico jogo de cintura e malandragem em um momento no qual nossa sociedade anseia de modo quase moralista por trabalho sério, método e conhecimento. Pós 7 a 1, parece que o desejo do brasileiro ao se ver no espelho é o da frieza e excelência técnica de um Toni Kroos. Até por isso, Neymar passou a ser símbolo de alienação ou do péssimo estado de coisas no país, usado como contraponto negativo a modelos de seriedade (“os professores deveriam ser valorizados como o Neymar”) ou injustiças (como, em tempos de busca pela igualdade de gêneros, a comparação que era feita durante os Jogos Olímpicos Rio 2016 entre o salário do Neymar e o da Marta, em um momento no qual ilusoriamente a Seleção feminina parecia muito melhor do que a masculina).

O mesmo brasileiro que idolatrava Romário -que publicamente desdenhava de treinamentos e cobrava privilégios- e Ronaldo -que fumava e tinha uma forma física inaceitável para a profissão- hoje trata Neymar como um irresponsável sem compromisso. O namorado de Bruna Marquezine poderia driblar isso facilmente se cedesse às patrulhas e optasse por usar um cabelo mais discreto ou abdicasse de badalações (nas férias) de pop star com Justin Bieber e Lewis Hamilton.

Mas é justamente aí que entra a personalidade de alguém que se banca e nunca decepcionou nos momentos decisivos. E é por isso que eu aposto que, assim como nas Olimpíadas, vem aí a reviravolta de quem, ao final, vai fazer muita gente ter que engoli-lo. Ou, como na letra de Caetano:

“Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi”

36 comentários em: “Neymar é o reflexo rejeitado de um povo que passou a odiar o que vê no espelho

  1. Texto soberbo e, para mim, definitivo sobre esse momento vivido pelo Neymar durante a Copa da Rússia. Aliás, como bem disse o amigo Emerson Gonçalves, mais do que exagerada, essa perseguição está além de qualquer limite de civilidade. Que tudo dê certo para a nossa Seleção no jogo de hoje! Pra cima deles, Neymar! 😉

  2. Incrível como as pessoas sentam no próprio rabo e apontam o dedo para julgar.
    Qualquer torcedor do mundo gostariam de ter um Neymar em sua seleção, mas aqui….

  3. Neymar continua sendo um bosta por conta de textos assim.
    É muita gente para puxar o saco e poucas para puxar a orelha.
    Ele não saiu do Barcelona para ter novos desafios, ele queria um lugar para ser mimado novamente.

    1. Ele foi pra ganhar mais dinheiro mesmo.
      Primeiro lugar em todas as coisas esta o dinheiro na frente.
      E isso é bom pra ele. E sobre ele ser gênio. Sim ele é! Porque vc nao escolhe outro esporte pra apreciar?
      Deixa o futebol e suas estrelas em paz.

    2. Você lê um texto desse tamanho sobre o Neymar. Vem comentar sobre ele. E ainda responde os comentários dos que defendem o Neymar… Ele incomoda vc mesmo né?

  4. Império Romano: política do pão e circo. Brasil século XXI : há quem não consiga viver sem a tal pão e circo. Mas nisso, há propósitos e consequências.

  5. O Jogador, há poucos meses, teve dois dedos do pé fraturados e sofreu uma cirurgia complicada, incluindo tendões e músculos preciosos para um jogador de futebol, podendo vir a ser o encerramento precoce da carreira promissora dele. É evidente que estava inseguro e nervoso no primeiro jogo, provavelmente duvidando de si mesmo.
    É perfeitamente compreensível que, após um jogo em que jogou notoriamente melhor, finalmente fazendo um gol, ele tenha desabado de alívio.
    Ele é um homem jovem de talento indiscutível e, longe de fugir da raia, se pôs em risco para jogar a Copa do Mundo.
    Merece admiração, respeito e não essas criticas e memes absurdamente maldosos.
    Esses caras, jornalistas ou achistas, fariam melhor se prestassem mais atenção nos juízes da segunda turma do STF, que está soltando bandido e escancarando a porta para criminosos de alta periculosidade serem soltos tbm.

Deixe sua opinião e colabore na discussão