POR FAVOR, PAREM DE TORCER POR FERNANDO DINIZ!

Créditos da imagem: Reprodução Globo Esporte

A primeira vez que ouvi falar em Fernando Diniz como técnico foi antes de um jogo entre SPFC e Audax, pelo Paulistão de 2014. A matéria comentava sua ordem absoluta contra chutões. De fato, não davam sequer um passe longo. No primeiro tempo, desconcertaram o tricolor de Muricy Ramalho. No segundo, levaram de 4 a 0. Questão de lógica. Se você sabe que seu adversário não chutará a bola pra frente, é só adiantar todo mundo e fazer a festa. Qualquer mula, como diria Danilo Mironga, perceberia isso. Diniz não percebeu. Péssima primeira impressão. Menos pelo resultado que pela proibição digna de seita fanática. Há algo muito, muito errado com quem dá esse tipo de ordem.

Em 2016, Diniz já permitia que seus seguidores rifassem a bola de vez em quando. O Audax surpreendeu e chegou à final do campeonato paulista. Com direito a goleada sobre o SPFC de Edgardo Bauza – o das “derrotas dignas”. Embora técnicos inexpressivos tivessem essa marca no currículo, ao menos se podia pensar em levá-lo a sério. Na série B do Brasileirão, Diniz e parte do elenco foram emprestados ao Oeste. O time quase caiu. No Paulistão de 2017, o Audax goleou de novo o São Paulo na estreia. E não ganhou mais. Foi rebaixado e o técnico voltou a chamar a atenção negativamente, com histerias públicas que fariam o “porra, c…” de Luxemburgo parecer candura. Soou o alarme de novo. Fernando Diniz indicava que, para cada defeito superado, não tardava a surgir outro. Ainda assim, já se ouvia declarações como “eu torço por ele! O futebol brasileiro precisa de suas ideias!”.

No ano seguinte, o Athlético Paranaense (então sem H) deu ouvidos a esta torcida. Contratou-o e deu-lhe o que queria. Foram meses quase sem jogar, apenas treinando. Nas poucas partidas do primeiro semestre, atuações exageradamente emocionantes. Mas, adivinhem, pintou o São Paulo. O CAP eliminou o tricolor na Copa do Brasil e Diniz foi às alturas. Os especialistas novamente ignoraram o que este colunista apontou: era um time mais amestrado que treinado. O posicionamento para a saída de bola, com defensores na bandeira de escanteio, era suicida. Se houvesse qualquer desvio do adversário não teria impedimento. A troca de passes no meio-campo era decorada pelo outro time em quinze minutos. Na medida em que a vantagem física passava, derrotas se acumulavam. Incluindo a primeira vitória do SPFC na história da Arena da Baixada.

Foi demitido, mas defensores encontraram subsídios numa declaração meramente protocolar do substituto Thiago Nunes. Disseram que a reação no campeonato brasileiro e o título da Sul-americana comprovavam os méritos de Diniz. Era questão de ver os jogos e constatar as diferenças gritantes. Tanto que, depois, Nunes confirmaria que seu trabalho em Curitiba não pegou nada do antecessor. A lenda bastou para que o Fluminense acreditasse. Desta vez não teve SPFC, mas eliminou o Flamengo na Taça Guanabara. E só. Depois, derrotas e mais derrotas. Oportunidades eram criadas, mas os adversários precisavam de poucas – e escancaradas – chances para ganhar. De fato, não havia mais o jogo circense do CAP. Porém, as lacunas na recomposição eram amadoras. Como escrevi na época, o livro de Diniz passara da página 10, mas ainda estava longe de acabar.

A esta altura, o trabalho de Jorge Sampaoli já fazia sucesso no Santos e Jorge Jesus assombrava no Flamengo. A compreensível ojeriza aos medalhões nacionais enfim o colocou no Morumbi. Com direito ao aval de Daniel Alves – que, sabe-se lá como, teria acompanhado seus times. Aos trancos e barrancos, conseguiu vaga direta na Libertadores graças ao Flamengo campeão do torneio. O início de 2020 parecia uma repetição do Fluminense. O time que mais finalizava – e mais errava. Atrás, a outrora elogiada defesa são-paulina virou tapete vermelho. Mas a trágica pandemia o ajudou. Tivesse o futebol parado uma semana antes, a última lembrança seria a virada sofrida no Peru. Acabou dando tempo para uma rara boa vitória contra a LDU e uma virada contra o Santos. Como de costume no Fogão do Jardim Leonor, duas vitórias e “o campeão voltou”.

De forma insólita, o prestígio de Fernando Diniz só cresceu, justamente quando sua equipe não jogava. Parecia que os dois resultados tinham sido contra Liverpool e Real Madrid completos. Em meio à patrulha positiva, poucos se atreviam a observar que a melhora só ocorreu quando Antony e Igor Gomes voltaram da seleção sub-20 – sendo que o primeiro não jogaria mais pelo tricolor. No lugar desta ponderação, decretou-se o favoritismo. Na ESPN, chegou-se a perguntar se o São Paulo era “favoritaço” ao título paulista. Contra o Bragantino, o comentarista Alexandre Lozetti elogiava o recuo simultâneo de Tchê Tchê e Daniel Alves para a saída de bola. Precisou perder para perceberem que a genialidade era uma estupidez. Com os dois voltando, quem receberia a bola no meio?

Na inacreditável eliminação para o que sobrou do Mirassol, tivemos dois momentos interessantes. Primeiro, PVC observou que o SPFC saía jogando com muita gente no seu próprio campo. Isso tira o sentido da estratégia, pois a bola chega ao ataque com apenas dois ou três posicionados, tendo que esperar o resto. Quando o São Paulo empatou, o repórter disse que Daniel Alves (aquele que recomendou Diniz) mostrou isso ao treinador. A resposta foi que o jogo seria outro após o empate. Não foi. Mais adiante, ao ouvir de PVC que o SPFC merecia o terceiro gol, foi a vez de Lozetti acordar do encantamento e, tal como a criança na fábula do rei nu, falar o que saltava aos olhos. Minutos depois, veio o terceiro gol. Só que do Mirassol. Em seguida, tal como contra o Bragantino, Diniz enfiou meio mundo em campo e, sem surpresas, matou o que restava de esperanças.

Cena de “História do Mundo Parte 1”, de Mel Brooks

Passado o choque, certamente teremos comentários de que “ainda torcem pelo sucesso de Diniz!”. Ora, vão lamber sabão! Estão lá para comentar, não torcer. Suas ideias para executar conceitos modernos se desmoralizam em campo. Até o que funciona é questão de tempo para ser desmascarado. Afinal, os adversários só se preocupam em anular ações de um time que está ganhando. Do contrário, a natureza cuida. Portanto, quem quiser a evolução do futebol brasileiro precisa escolher melhor seu Homo Sapiens. Diniz está mais para os homens das cavernas de “História do Mundo Parte 1”, de Mel Brooks. Não adianta torcer. Só rir – se for torcedor do outro time.

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