Sidão e o Tostines

Créditos da imagem: Reprodução R7

Uma preliminar: sou torcedor do Santos e estive no Pacaembu domingo, no jogo de meu time contra o Vasco.

Para quem não acompanhou o caso, o goleiro do Vasco, Sidão, teve mais uma atuação desastrosa na carreira e, ao final da partida em que sua equipe perdeu por 3 a 0, recebeu da repórter da Rede Globo o troféu de “melhor jogador em campo”. Foi escolhido por uma enquete entre telespectadores. Era, óbvio, uma tremenda sacanagem, que humilhou o goleiro em rede nacional e detonou uma série de discussões sobre o limite que deva ou não ser imposto ao peso das redes sociais.

Uma outra preliminar importante: a ideia de sacanear Sidão, já suficientemente constrangido pela sua péssima atuação, parece que partiu dos Desimpedidos, um dos tantos sites engraçadinhos ou coisa assemelhada que emporcalham o que já se chamou de Jornalismo Esportivo.

Há alguns aspectos a analisar na palhaçada contra um ser humano. Sidão é de fato um goleiro muito ruim, que não tem condições de figurar em elenco de qualquer time da Série A. Isso, no entanto, não dá direito a ninguém de humilhá-lo. O Jornalismo (?) esportivo engraçadinho tornou-se padrão, principalmente na TV, a partir de quando o Globo Esporte foi entregue a Tiago Leifert. Depois, a infantilização/imbecilização chegou até aos canais fechados. Em busca da interatividade para bobalhões, o que se vê são horas de brincadeiras bobas em programas sobre futebol. A Fox, por exemplo, tem um programa na hora do almoço que imita com sucesso as traquinagens de crianças da quinta série. Parece que, no tsunami de idiotice que estamos vivendo, é líder de audiência no horário. Comandados por Benjamin Back, que só deixa de ser limítrofe na hora de bajular cartolas, técnicos e jogadores famosos, homens gritam, fazem brincadeiras infantis e interagem com seus iguais telespectadores. No mesmo horário, até a outrora séria ESPN concorre com o nível sexta série.

Reprodução do clássico comercial da Tostines

A noção de entretenimento/infantilização do Esporte encantou um público igualmente idiota. E é essa galera de Desimpedidos, Fox, ESPN etc que não tem a mínima ideia de que uma brincadeira de mau gosto como a feita com Sidão pode ter consequências trágicas para um jogador ou seus familiares. A dúvida que fica meio que repete o antigo comercial dos biscoitos Tostines: é mais fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? No caso de domingo, os imbecis perderam a modéstia pelo incentivo de um pretenso Jornalismo ou o pretenso Jornalismo se adequou aos imbecis?

O Jornalismo esportivo só está repetindo a degringolada de valores que marca o tempo brasileiro atual. Inevitável lembrar de Umberto Eco sobre o mundo a partir das redes sociais: “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Sábio, o italiano. A supervalorização de enquetes sem nenhum valor científico, o modo “sem filtro” com que comunicadores utilizam a interatividade, tudo isso é terreno adubado para a ignorância.

Para finalizar, quem da Rede Globo autorizou a entrega do troféu humilhação para Sidão deveria ganhar um semelhante: o retrato acabado da brutalidade e imbecilidade do Brasil de 2019.

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