Sobre a batalha brasileira mais esperada da Libertadores

Créditos da imagem: Reprodução Extra

Penúltimo passo

Há 35 anos, fui pela primeira vez a um estádio de futebol. E não foi para ver o São Paulo. Tinha 9 anos, morava no interior e, em férias, fui assistir a Flamengo x Grêmio no Pacaembu. Era jogo desempate pela Libertadores. O regulamento tinha dois triangulares na fase semifinal, com o vencedor de cada um indo à decisão. O Grêmio atuava pelo empate – melhor saldo de gols. O jogo foi 0 a 0. Zagallo bem que tentou levar seu Flamengo a vitória, mas empatar era com ele mesmo. Nas décadas seguintes, o Flamengo não voltou a estar à beira da final. Só agora, contra o mesmo adversário. Incluindo um dos participantes daquele confronto, o ponta-direita Renato – hoje técnico, como todos sabem.

Obviamente, muita coisa se passou. O Grêmio cumulou diversas semifinais e finais, conseguindo mais duas conquistas e se firmando como candidato habitual ao título sul-americano. O Flamengo, mesmo com sua torcida, construiu uma coleção de resultados constrangedores. Para esta temporada, pressionado, não poupou tentativas de mudar o cenário. Incluindo trocar um técnico das antigas, Abel Braga, pelo criativo e inquieto Jorge Jesus. Precisava conseguir, em poucas semanas, a adaptação para o padrão europeu pretendido pelo português. Não foi fácil ajustar posicionamentos e equilibrar o ritmo de jogo. No começo, o time entrava a toda e morria no segundo tempo. A estabilização ocorreu a partir das quartas-de-final, vencidas de modo convincente contra o Internacional. Chegou a vez do rival do colorado e seu aliado: o tempo.

Tivesse a semifinal ocorrido logo após a fase anterior, ouso dizer que o Flamengo seria favorito destacado. Em situação financeira segura, porém bem abaixo da rubro-negra, o tricolor sofre mais para reforçar o elenco. O futebol das temporadas anteriores, com jogo rodado e estocadas com Everton, apareceu em poucas ocasiões. Houve mais dependência dos lampejos de Everton, agora jogador de seleção. Isso se refletiu na classificação dramática contra o Palmeiras e, principalmente, na eliminação da Copa do Brasil – com o Cebolinha ausente. No começo de setembro, o Flamengo estava em pico de desempenho e o Grêmio seguia irregular. Agora o Flamengo segue forte, mas não apenas o futebol gremista cresceu (vide a vitória sobre o Santos na Vila), como Renato ganhou semanas para estudar meios de deixar o time carioca desconfortável em campo.

Fazendo um perfil básico das equipes, temos o seguinte:

Flamengo – jogo mais vertical, com posicionamento adiantado e trocas constantes de posição entre os homens de frente, tornando até impróprio rotular o esquema com números. Gabriel é o que fica mais tempo no comando de ataque e, entre Arrascaeta e Everton Ribeiro, é comum que este feche para ajudar o meio e o uruguaio entre como terceiro homem do ataque. Não há um volante de contenção, com Arão e – principalmente – Gerson buscando rápida transição para os jogadores de frente.

Grêmio – os posicionamentos são relativamente mais estáticos que os do Flamengo, com Everton quebrando a simetria. O posicionamento é menos adiantado que em outros tempos, mas o tricolor gaúcho é um dos poucos times que defendem bem avançando ou recuando. Com Maicon lesionado (provável banco nesta quarta), Renato melhorou a dinâmica de jogo com as entradas constantes de Luan e Tardelli para auxiliar Matheus Henrique, grande revelação da temporada no meio-campo.

Quanto aos pontos fracos:

Flamengo – embora siga atuando com qualidade, parece não estar “in the zone” como há três semanas. O zagueiro Mari é lento e Rodrigo Caio, surpreendendo com sua adaptação e sua qualidade, ainda flerta com pênaltis. O elenco, farto em vários setores, é raso no meio-campo, o que leva Gerson a ser um dos poucos poupados no Brasileirão.

Grêmio – os laterais são limitados e dificultam jogar pelos flancos. Seguem as dificuldades com o comando de ataque, de modo que uma eventual partida infeliz ou lesão de Everton tende a ser mais fatal que uma jornada ruim de Gabriel ou Bruno Henrique pelo Flamengo. O goleiro Paulo Vítor também proporciona fortes emoções.

Quem é o favorito? Como disse, seria o Flamengo se o jogo acontecesse há um mês. Agora o rubro-negro ainda é favorito, mas de leve e mais por conta das maiores dependências individuais gremistas (Everton e Matheus). Com tudo funcionando, porém, temos igualdade entre duas equipes de estilos distintos, agradáveis e potencialmente vencedores. Tem tudo para ser um grande confronto. Só não vale subir no salto verde-amarelo e chamar de final antecipada, tendo Boca ou River do outro lado. Ter senso de realidade – e ridículo – faz bem.

2 comentários em: “Sobre a batalha brasileira mais esperada da Libertadores

  1. MUITO BOA A SUA EXPLICACAO SOBRE O FUTEBOL MAIS VERTICALIZADO DO FLAMENGO E O GREMIO DEFENDER BEM RECUADO OU ADIANTADO

  2. Passado o jogo, as impressões se confirmaram. O que ninguém imaginava é que o Flamengo estaria tão superior assim, pois a sequência de resultados de impacto do Grêmio nas últimas semanas impressionaram tanto que quase todos, incluindo eu, subestimaram o fato de que o único adversário realmente qualificado que o time havia enfrentado fora mesmo o Santos. Flamengo passeou.

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