Sobre a derrocada precoce da Alemanha

Créditos da imagem: FIFA

Aprendendo a sair de cena – ou se arrependendo por não sair

A eliminação inesperada – e constrangedora – da seleção alemã ilustrou a grande dificuldade que envolve remontar uma equipe campeã. É um desafio refazer um time quase perfeito sem os que saem. Mas é ainda mais complicado lidar com os que ficam, quando estes não conseguem mais jogar como antes. No lugar de dar suporte aos novatos, deixam a tarefa destes mais inglória. Entretanto, é difícil dizer não a veteranos que seguem se dispondo ao combate. O técnico não resiste. Conseguem correr e mascar chiclete ao mesmo tempo? Estão dentro. E a seleção paga a conta da persistência.

O futebol brasileiro sabe o que é isso. Em 1966, Vicente Feola hesitou tanto para se desfazer do elenco bicampeão mundial (já veterano em 1962) que levou mais de quarenta atletas às vésperas da Copa da Inglaterra. Até Garrincha, sem joelhos, apareceu. A estreia enganou, mas o conflito de gerações terminou em choro, com derrotas para Hungria e Portugal. Em 1970, tendo apenas Pelé do time dourado (ainda com 29 anos), a seleção voltou a vencer. Mas o tempo fez esquecer a lição. Quarenta anos depois de 1966, os laterais Cafu e Roberto Carlos andavam em campo. Cicinho e Gilberto, titulares no título da Copa das Confederações, tiveram boas atuações contra o Japão, na terceira rodada da primeira fase. Parreira preferiu voltar com os campeões. Cafu quebrou o recorde de partidas em Copas. E o Brasil quebrou a cara nas quartas-de-final.

Mesmo os europeus, supostamente mais calculistas, custam a desapegar. Isso teve a ver com a derrocada precoce de outra campeã. Em 2014, o meio-campista Xavi vinha de duas temporadas abaixo de seu melhor futebol. Vicente Del Bosque se recusou a abrir mão do cérebro das conquistas de uma Copa do Mundo e duas Eurocopas. O preço não tardou a ser faturado. Joachim Low e sua seleção venceram a competição em que os espanhóis deram vexame. Pena, para eles, que também não captaram a mensagem. Já não seria fácil suprir a aposentadoria de Lahm e Schweinsteiger, ícones de uma geração que levou três Copas para triunfar. Menos fácil ainda, para o torcedor alemão, foi conviver com o decadente futebol de outros idolos. Curiosamente, os dois participantes do gol do título não foram. Mas Özil e Müller estavam lá. Mais ou menos…

Özil já não repetiu o desempenho de 2010, que o levou ao Real Madrid, no Brasil. Inclusive, perdeu um gol feito que transformaria o 7 a 1 em 8 a 0 – foi logo antes do gol de honra. No Arsenal, manteve relação de amor e ódio (este último ganhando) com a torcida. Müller, que poderia alcançar o compatriota Klose em seu recorde de gols, sentiu queda técnica e também os efeitos das mudanças táticas. Não é atacante de lado. Não é centroavante. Não é armador. Não apresenta mais velocidade e técnica para jogar entre as linhas adversárias. Todos estes “nãos” estavam visíveis em duas temporadas seguidas. Nem por isso deixou de ser escalado na estreia e no segundo jogo. Ficou no banco na fatídica partida com os coreanos, mas entrou com a esperança de que sua vontade superaria a crise. Não superou. Deixa a Rússia com os mesmos gols que tinha antes. Atrás, inclusive, do Müller de 1970/1974.

Nem se pode dizer que Low deixou de ir atrás de novas caras. Havia jogadores da Copa das Confederações (quando os medalhões ficaram de férias) entre os selecionados. Incluindo o atacante aberto Draxler, eleito o melhor da competição. Assim como os três artilheiros – Werner, Goretzka e Stindl. Draxler (reserva de Neymar no PSG) e Werner estrearam contra o México. Mas a base seguiu veterana, incluindo o goleiro Neuer – após duas cirurgias que decretaram o fim de sua temporada no Bayern antes de 2018 chegar. A zaga Boateng e Hummels, titular do gigante bávaro, também carimbou os passaportes. Todos foram irreconhecíveis. Coube a Neuer protagonizar o último momento constrangedor, perdendo a disputa de bola para o contragolpe coreano. No lugar da recompensa pelo sacrifício da recuperação, castigo. Futebol tem dessas.

Registre-se que não é a primeira vez que a Alemanha tem reveses na transição. Com a seleção de 1990, a persistência também não foi bem sucedida. Duas eliminações em quartas-de-final, mas com futebol medíocre disfarçado por vitórias sem futuro. Talvez um tombo tão desconcertante ajude a não repetir a teimosia pós-Itália. Tampouco é o caso de jogar todo o planejamento pelo ralo. Porém, tanto os já ex-campeões quanto outros têm nova chance de aprender o óbvio: sem condições físicas e técnicas, experiência não ganha nada além de… experiência.

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12 comentários em: “Sobre a derrocada precoce da Alemanha

  1. Como sempre, excelente. Por isso que a qualidade que eu mais prezo em um treinador é PERSONALIDADE, pois não é fácil, depois de detectados alguns problemas, partir para o confronto e praticar alterações que, olhando de fora, podem parecer equivocadas ou prematuras. Já pensou o Low perdendo uma Copa sem escalar Neuer, Hummels, Ozil ou Muller? Complicado!

    1. Telê barrou Oscar e Falcão dos titulares de 1986. Mesmo perdendo a Copa, não recebeu críticas por esta decisão específica. Até porque Julio César e Elzo foram muito bem.

  2. a alemanha esteve irreconhecível

    mto estranho

    e o pior é que o treinador comedor de caca renovou até 2022

  3. O que acredito que aconteceu , é que a Alemanha estava de salto alto. Menosprezou a Coreia entrou achando que poderia resolver o jogo , quando quisesse. A bola pune futebol é totalmente diferente de outros esportes. E os alemães pagaram um alto preço pela displicência.

    1. Djalma Eliezer Silva que bom que é a sua opinião. Seria estranho você postar a opinião de outra pessoa, ora pois. E respeitar a opinião alheia é comentá-la, em vez de simplesmente chegar comentando “foi salto alto”. Isso não é respeito. É aproveitar espaço alheio pra expor o que acha sem sequer se preocupar em comentar o que está escrito no texto. Uma falta de educação tão corrente que você e outros nem percebem. Eu li a sua e a respeitei justamente ao questionar por que seria salto alto, se na verdade jogaram mal as três partidas – incluindo a que ganharam. Isso é debater. Debate não é dizer que é a sua opinião e pronto. Não é o que este site quer promover.

    2. Gustavo Fernandes Não preciso de promoção, prefiro debater a seleção brasileira. Sou crítico do nosso futebol , ai sim debato e mostro os conceitos que acredito ser produtivo.

    3. Djalma Eliezer Silva Alguém te mandou intimação pra falar da Alemanha? Se resolveu falar, aceite a réplica sem dizer coisas do tipo “é a minha opinião e não se meta”. Não aja com um desrespeito que não combina com você. Abs

    4. Gustavo Fernandes O amigo entrou no meu comentário e quer me dizer o que fazer. Eu ao menos não me escondo atrás de uma caricatura. Se situe e para de vencer a minha paciência. Boa tarde

  4. Este elenco já deu,agora é formar uma outra equipe que realmente vem a defender a camisa,o que se apresentou não merecem se quer a serem mencionados,a Alemanha tom cedo não se levantará deste nocaute técnico

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