Sobre a foto de alguns clubes antes da súbita quarentena da bola

Créditos da imagem: Reprodução Lance

Março de 2020 – filmagens paralisadas

Dizem que futebol é momento e a última impressão é a que fica. Mas como fica quando a última impressão acontece antes da metade? É a foto dos clubes brasileiros em 2020. Tivesse a paralisação ocorrido uma semana antes ou depois, muitos “saiba como” dos jornalistas sem pauta poderiam ser bem outros – mais ou menos positivos. Vamos a um slide da imagem atual dos principais:

Jorge Jesus é unanimidade nacional

Flamengo – Jorge Jesus terminou 2019 como unanimidade e segue unanimidade. Mesmo com poucos treinos antes da primeira partida, o time titular atuou regularmente, só empatou um jogo (na altitude) e a dúvida atual é justamente sobre a renovação do português. Ou seja: se colocassem a foto de dezembro do ano passado, as únicas diferenças seriam os contratados que já se destacaram. Contudo, apenas Thiago Maia dá pinta de disputar uma vaga de titular, por enquanto.

Grêmio – a despeito do gol na última partida, Tiago Neves ainda está longe de ficar bem na foto. Diferente de Diego Souza – tal como em tantos inícios de passagens anteriores, normalmente seguidos de jornadas decadentes. Os jogos na Libertadores mostraram o meio-campo recuperando desenvoltura, contando também com um lado direito presente no ataque – sem contar o goleiro que defende, ao contrário de 2019. A perda do primeiro turno do campeonato gaúcho parece superada e os gaúchos seguem entre as três primeiras forças nacionais.

Grenal na Libertadores: papelão histórico

Internacional – Coudet chegou à parada compulsória em ascensão no conceito de colorados e imprensa. Aos poucos o time tenta sair das amarras de 2019, contando com a boa movimentação e a técnica de Boschilla. O ex-tricolor paulista sofreu lesões que interromperam sua evolução no futebol francês e agora tenta recomeçar. O desempenho vermelho no primeiro Grenal da Libertadores foi de alto nível, até a triste palhaçada que ambos protagonizaram. Não foi bacana ver uma rivalidade tão bem jogada ter a briga de maloca como lembrança final.

São Paulo – se os jogos tivessem sido interrompidos após a derrota na estreia da Libertadores, a tropa chapa-branca tradicional teria muito trabalho para levantar a bola de Fernando Diniz. Justiça seja feita, o contestado (especialmente por mim) treinador estava numa roubada sem Antony e Igor Gomes. Com o elenco mais lerdo do futebol brasileiro, o tricolor mais chamava a atenção pelo aproveitamento ridículo em finalizações – como seu Fluminense, ano passado. Ter os garotos de volta deu equilíbrio ao time e, não coincidentemente, aumentou o rendimento de outros – como Daniel Alves na função de armador. Ficou literalmente bem na parada. Restará saber se a continuação da história não será outro ano da marmota.

Corinthians – talvez seja mais fácil prever o fim dos isolamentos que a estabilização do time de Tiago Nunes. Em seu primeiro e último trabalho, Tiago montou um CAP de força e velocidade pelos lados. É basicamente o que falta ao elenco de Itaquera. As contratações, ainda que com nomes de boa técnica, não preencheram a lacuna do cardápio desejado pelo chefe. Resultado: está misturando ingredientes de forma desenfreada e provocando indigestão futebolística nos que jogam – assim como nos que assistem. Por conta disso, ao contrário da estabilidade bombada de Diniz (cujo fracasso no CAP foi revertido pro ele), está sendo alvo de especulações por… Mano Menezes. Falando em decadência prestigiada…

Palmeiras – o Luxemburgo atual é bem diferente do clássico. Depois de anos sem conseguir adaptar sua iniciativa de jogo às mudanças táticas, mudou de lado. Passou para os que esperam. Foi assim que o Palmeiras se comportou em todas as partidas contra times da série A brasileira. Atrai o adversário e busca os espaços em velocidade. Mesmo vencendo, é criticado por repetir a mesma fórmula dos antecessores de Luxemburgo. Quem esperava diferenças deveria ter visto o Vasco jogar ano passado, no lugar de partidas de vinte anos atrás. De novidades, a boa fase de Luiz Adriano e a adaptação ao gramado sintético – contando com Rony, acostumado a jogar assim na Baixada. Ainda com o melhor elenco do estado (e só), seria o provável favorito ao título paulista – se houver um titulo paulista.

Santos – fechando esta relação, temos um interlúdio de boa vontade com Jesualdo. Com Soteldo retornando ao posicionamento internacional pela esquerda, bem como com a equipe voltando a pressionar a saída adversária, surgiu a narrativa de que jogadores impuseram o retorno ao estilo de Sampaoli. Menos, ora pois. O venezuelano (cada vez melhor) tem maior liberdade para circular pelo ataque. A marcação adiantada, quando acontece, não se dá nos moldes alucinantes do argentino. Jesualdo prefere mais bola rodada que as bruscas invertidas do ano passado. Os resultados na Libertadores tranquilizaram o ambiente do time. O mesmo não se pode dizer das falhas de Everson – enquanto Vanderlei está com a luva cheia em Porto Alegre.

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