Sobre Dener e os exageros do saudosismo

Créditos da imagem: Reprodução / Na Furquilha

Imprimam-se os fatos – o Dener da vida real

Grande parte dos leitores do site não viu Dener jogar. Afinal, faz 25 anos que ele faleceu. Os fãs de rock poderiam comparar o acidente ao desastre aéreo que matou Buddy Holly – bem como o protagonista de La Bamba, Ritchie Vallens. Os vídeos no Youtube mostram os gols espetaculares. Mas o que foi realmente Dener? O que poderia ter sido se não morresse? É verdade que merecia ter ido à Copa de 1994? Por que ainda estava preso à Portuguesa? Tentarei, com memória e pesquisa, falar de tudo isso neste texto. Sem contornos mitológicos. Querem lenda? Procurem livros de cavalaria medieval.

Dener já estreara – esporadicamente – entre os profissionais no ano de 1989, mas surgiu para o público no começo de 1991, com o título da Lusa na Copinha. Só então teve a primeira temporada completa. Logou chegou à Seleção, porém mais porque o perdido técnico Falcão convocou meio mundo do futebol doméstico – os da Europa estavam “de castigo”. Não foi mais chamado, mas fechou 1991 com o gol que o faria entrar para a História. Sim, aquele contra a Internacional de Limeira, no Canindé. No ano seguinte, participou do primeiro vexame pré-olímpico brasileiro. Seu melhor momento na temporada foi no empate em 2 a 2, no Canindé, contra o SPFC de Telê Santana. Este havia declarado que Dener ainda não era craque. Para aquele jogo, serviu de motivação. Nem por isso Telê estava errado. Eram repentes – não constantes – de craque.

No começo de 1993, Dener ainda era uma promessa. Jogar na Lusa era um dos entraves a sua evolução. O problema era conseguir sair. Dener foi vítima daquilo que a Lei Pelé encerraria anos depois – o passe. A Portuguesa não aceitava negociá-lo. No máximo, empréstimos. Foi num deles, por três meses, que conquistou seu primeiro título. O Grêmio, encantado com seu futebol desde a surra tomada na Copinha (4 a 0), trouxe seu talento para vencer o Campeonato Gaúcho. Contudo, não conseguiu contratá-lo em definitivo. De volta ao Canindé, fez seu segundo gol antológico, agora contra o Santos de Pelé – o que, obviamente, fez aludirem ao Rei. Só que, novamente, perdeu holofotes. A atenção recaía sobre o SPFC e o recém-fortalecido Palmeiras. Dener, embora com admiradores como Armando Nogueira, era segundo escalão – num tempo em que o primeiro escalão só tinha feras.

O cenário ameaçou se modificar na temporada seguinte. Foi emprestado outra vez, agora para o Vasco da Gama. Algumas boas atuações e a proximidade da Copa fomentaram, como de costume, uma avalanche de sugestões. A mais “memorável” foi uma coluna de Matinas Suzuki sugerindo um time com cinco atacantes. Dener era um deles. Mesmo assim, corria muito por fora. Sobravam concorrentes. Um deles, com 17 anos (Dener já estava com 23), era o artilheiro do Brasileirão de 1993 – um certo Ronaldo. Muita gente teria que se contundir ou estar em péssima fase para que o então vascaíno fosse lembrado, ao menos, para um amistoso. Antes que houvesse chance de isso ocorrer, o destino resolveu tirar o próprio Dener de campo – e da vida. Foi-se o jogador. Veio o mito que, a esta altura das lembranças, dizem ser mais que Neymar. Menos. Muito, muito menos.

Com três temporadas completas, Dener participou de dois amistosos do Brasil. Neymar já havia jogado até Copa América. Tempos diferentes? Menos diferentes que a distância brutal entre o que um e outro obtiveram. Se o confronto com o ex-santista é descompensado, tampouco se pode dizer que levaria vantagem sobre outros casos precoces. Comparar com Ronaldo, reitera-se, é piada. Ronaldinho, Kaká, Diego e Robinho também são quatro exemplos bem mais relevantes até os 23 anos. Os contemporâneos Edmundo e Edílson (que tiveram melhor sorte ao pararem no Palmeiras, com o então ótimo Luxemburgo), idem. Pode-se discutir se Dener tinha potencial maior que quase todos – ou todos – eles. Mas ele partiu sem que este potencial se concretizasse. Quando finalmente se livrasse das amarras lusas, poderia driblar o tempo perdido e ir muito longe. Pena que não houve tempo.

Assim, podemos encerrar respondendo às perguntas iniciais:

  • Dener foi uma revelação com um futuro promissor, com todos os recursos técnicos e velocidade, além de um talento expresso em lances que só jogadores da mais alta estirpe seriam capazes de concretizar, porém muito distante da maturidade aos 23 anos.

  • se não morresse, poderia ter sido um dos melhores ou até o melhor jogador de seu tempo, assim como poderia seguir estacionado em problemas clubísticos e pessoais, ou mesmo ficado no meio termo como tantos outros “novos Pelés”.

  • não merecia ter ido à Copa de 1994, porque havia melhores entre os selecionados e também entre os preteridos.

  • na próxima vez que ligarem o piloto automático para repetir o que desavisados ou sonsos resmungam contra a Lei Pelé, lembrem o quanto a falta dela atrapalhou gente como ele.

  • se não quiserem aceitar o que esta coluna diz e resolverem insistir na lenda, pelo menos guardem pro décimo chope em diante.

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