Sobre os “pernas-de-pau” que a torcida odeia, mas o clube adora

Créditos da imagem: Exportiva do MS

O encosto – ou “quando a torcida tem razão”

Torcedor é capaz de enormes injustiças, sob a eterna desculpa da passionalidade. Nem sempre bons jogadores têm o reconhecimento merecido. Como são-paulino, o caso recente que mais marcou foi o meia Danilo. Mesmo com uma coleção de gols e passes decisivos, deixou o clube sob críticas. Teve que virar ídolo rival para que, enfim, reconhecessem o erro. Corintianos, palmeirenses, santistas, etc… têm o seu rol de grandes equívocos. Mas também existem os grandes acertos que, para desespero geral, são ignorados por treinadores e dirigentes. Estes não apenas seguem dando chances a eles, como acionam a imprensa amiga para empurrar “voltas por cima” que naufragam no jogo seguinte. O motivo é simples: podem ser ótimas pessoas e até dedicados, mas tecnicamente são fracos – ao menos para o seu time.

Começando pelo meu time, o campeão da boa vontade foi o zagueiro Lucão. Limitadíssimo, seja com a bola no pé ou correndo atrás dela, foi considerado revelação sem sequer cinco partidas convincentes. De quebra, algumas das piores atuações foram contra o Corinthians – incluindo um 6 a 1, em Itaquera. Mas continuou sendo sucessivamente “reabilitado” até parar no Estoril, onde tem ajudado o novo clube a perder todas as partidas disputadas. Emblemático como ele, só que ainda mais prestigiado, é o volante Márcio Araújo no Flamengo. A justificativa usual é que o torcedor não entende sua “importância tática”. O que não se entende, pois sim, é por que o clube não procura um volante com a tal importância tática, mas que pratique o esporte para o qual é pago. E o que dizer de Egídio, do Palmeiras? Como exigir compreensão com quem falhou em todas as ocasiões críticas da temporada? Isso não seria profissionalismo nem no São Paulo Madrid.

Se já é difícil para quem suporta o jogador em seu clube, pensem no torcedor do futuro destino. Foi o caso dos catalães, quando o Barcelona estava prestes a contratar o lateral Douglas. Em tese, o titular de um grande clube brasileiro mereceria o benefício da dúvida. Mas, graças à internet, os fãs do Barça viram a curiosa euforia dos são-paulinos. A desconfiança foi imediata. O clube, porém, não voltou atrás. Talvez tenham achado que opinião de torcedor é dispensável. Talvez a negociação tenha se dado por motivos escusos. O certo é que o jogador passou dois anos de férias remuneradas até ser emprestado a um clube – bem – menor. Ninguém mandou não dar ouvidos aos desimportantes. O reverso da fortuna veio neste ano. O SPFC trouxe o zagueiro Aderlan da Espanha, mesmo com torcedores e jornalista tirando sarro de deu futebol. Não é à toa que, até aqui, só entrou improvisado na lateral. Na zaga, até o aposentado em atividade Lugano tem preferência.

Conhecer a opinião negativa da própria torcida sobre um jogador não é proibitivo. Há casos em que o atleta é bom, mas por algum motivo não conseguiu se acertar. Nos anos 70, o Barcelona dispensou Roberto Dinamite porque “não sabia fazer gol”. Tivesse saído de Paris em 1994, antes de se firmar como capitão e camisa 10, Raí tampouco teria deixado lembranças iluminadas na cidade luz. Porém, quando se está falando de futebol, toda informação pode ser relevante. É um esporte em que até a contratação certa pode dar errado, assim como – em proporções bem menores – a errada pode funcionar. Um clube deve agir como os personagens do filme A Grande Escolha, que ilustra as tensões do dia do draft da NFL. Qualquer fumaça de encrenca deve ser analisada antes de bater o martelo. Senão o martelo pode cair na cabeça de quem agiu sob impulso, ou desdenhando da opinião de quem, afinal, acompanha mais de perto os golaços ou caneladas do time.

Em defesa destes réus, o argumento usual é recordar atletas desacreditados que, de tanto persistirem, conquistaram sua importância no clube. No São Paulo, o exemplo clássico é o de Ivan Rocha. O odiado quarto-zagueiro (não só pelo drible constrangedor que tomou de Tupãzinho) viu a chance de se redimir em 1992, quando o lateral-esquerdo Nelsinho foi afastado. E surpreendeu. Um pouco mais longe da área, a probabilidade de pixotadas diminuiu. Na ausência de batedores de falta, assumiu a tarefa e marcou alguns gols. Na decisão por pênaltis da Libertadores, anotou o seu com violência. Seguiu dono da posição até que Telê, inconformado com as vaias insistentes, aprovou que fosse negociado com o futebol espanhol (quando não era tão fácil sair do Brasil). Eis a réplica: não se toma exceção como regra. Se já aconteceu no seu time, repetir-se é como ganhar duas vezes na loteria. Não compensa perder tempo – e dinheiro – acreditando nisso.

Portanto, é melhor Flamengo e Palmeiras deixarem a vida seguir para Márcio Araújo e Egídio. Mesmo que ainda apareça um comentarista desmemoriado dizendo “vão me apedrejar, mas a defesa do Flamengo piorou depois que ele saiu”, ou “ruim com Egídio, pior sem ele”. Podem até ter desempenhos respeitáveis em outros clubes, com ambiente e cobranças diversos – vide o também tricolor Reinaldo na Chapecoense. É como naquele desenho animado. No suntuoso planeta Etérnia, Gorpo era um mágico trapalhão. Na pequena Trola, um mago genial. Se você não mora em Trola, não é ele que vai tirar seu time do perigo. Por mais que o Rei Randor e a lição de moral tentem convencê-lo disso, no fim do episódio…

7 comentários em: “Sobre os “pernas-de-pau” que a torcida odeia, mas o clube adora

  1. É MUITO CURIOSO ISSO.

    PARECE QUE SEMPRE EXISTIU E QUE PARA SEMPRE VAI EXISTIR ISSO NO FUTEBOL.

    SEMPRE TEM UNS CABEÇAS DE BAGRE QUE CONSEGUEM “ENGANAR” POR AÍ…

    LEMBRO DO PARÁ, EX-SANTOS E HOJE NO FLAMENGO, É OUTRO FENÔMENO!

  2. Também não entendo com potências mundiais, que movimentam centenas de milhões de reais a cada ano, podem insistir em casos que já está mais do que claro que a coisa não vai mesmo!

    Uma exceção que me chama a atenção atualmente é o Rodriguinho, do Corinthians. Ele já foi enxotado do clube, até o começo do ano passado era um reserva sem moral, e agora é um jogador bem considerável, tanto que passou até pela Seleção.

    Mas, como você disse, Gustavo Fernandes, é o tipo de exceção que confirma a regra.

  3. O giovanni augusto fez um gol com um chute despretensioso (do tipo que ele vive tentando) no meio de semana e a imprensa já fala em recuperação e volta por cima…

    Esse é um que podia ter saído faz tempo…

  4. E além de cara que é ruim mesmo, tem cara que é bom, mas que já não tem mais condições no clube, tem mais é que seguir a vida!!!!!!! Desapega, kkkkk!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. Em nome da paixão pelo clube quantas injustiças são praticadas contra jogadores. Um fala e centenas o seguem. É o bastante…

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