Vitrines ignoradas – mais uma ilusão perdida na América do Sul

Créditos da imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Como Cesar Grafietti já ressaltou, a janela de transferências europeias concentrará seus grandes volumes financeiros entre jogadores que já atuam no continente. Pouco dinheiro está sendo gasto com quem joga na América do Sul. Pode aumentar um pouco caso Everton feche com algum clube. Ainda assim, não será pelo valor sonhado. Não é novidade. Há tempos o desempenho em competições sul-americanas, incluindo Libertadores e Copa América, não atrai os olhos mais abonados da Europa. Arrebentou na “Liberta”, na “Sula” ou na Copa América? Acham legal… e só. Manterão o talão de cheques – ou o app – fechados.

Exagero? Invenção? Pois lembremos os três últimos campeões continentais. O Atlético Nacional foi a sensação de 2016, sendo até comparado ao estilo europeu. Seu elenco se desmanchou, mas para outros lugares. Guerra e Borja, decisivos na conquista, vieram para o Palmeiras. O goleiro Armani voltou para seu país. Berrío veio para o Flamengo. A exceção foi Marlos Moreno, mas o Manchester City o contratara ainda na primeira fase – e nem o aproveitou por lá, repassando-o seguidamente (inclusive ao rubro-negro). Com o Grêmio de 2017, não foi tão diferente. Teve Arthur negociado com o Barcelona, é verdade. Mas Luan, eleito o Rei da América, segue por aqui. O River Plate teve o luxo acidental de ser campeão jogando em Madri (“Devolvedores da América”). Nem assim Real, Barça ou qualquer outro se ouriçaram. Mesmo com a vitrine na porta de suas casas.

Melhor exposição não teve a Copa América. Em especial para dois jogadores. Daniel Alves chegou em grande estilo ao São Paulo, mas o Morumbi era seu plano B. A intenção era seguir na Europa com um contrato de dois anos. Os pretendentes só ofereceram um. Ser eleito o melhor da competição não alterou o cenário. Por sua vez, Everton foi a sensação do Brasil. Conseguiu tomar a posição de David Neres e, muito mais importante, suprir a ausência de Neymar. Pachecões da imprensa vibraram com notícia de ter sido chamado de “Little Onion” na Inglaterra. Pois a janela inglesa já fechou e nada de proposta. Dirigentes tricolores se declararam intrigados. Considerando as teias de aranha no lugar de sondagens por Luan, nem deveriam ter se espantado. Não será desta vez que Maurício de Souza conquistará – de carona com o ainda gremista – o mercado britânico.

O principal motivo do desinteresse é o nível das duas competições. Não é que os europeus considerem seus destaques fracos. Talvez longe disso. Fracos, pois sim, são os parâmetros onde mostraram seu futebol. Houvesse uma carestia de valores individuais entre os que atuam na própria Europa, provavelmente arriscariam mais milhões no Novo Mundo. Mas, definitivamente, não é o caso. Mesmo porque já vemos europeus de nascença fazendo o que “só moleque sul-americano sabe fazer” – para desgosto de quem ainda sustenta esta pérola xenófoba. Isso reduz a gama de autênticos diferenciados, que são buscados ainda na origem. Olheiros se espalham para ver os jogadores de base e indicar apostas precoces. Seja pelos clubes revendedores (como Ajax e Porto), seja pelos destinatários finais – mais barato comprar a joia da mineradora que de quem a lapida.

Algum desavisado pode ver um lado bom neste panorama, porque manteria os melhores sul-americanos em seus times. Errado. Outras portas seguem abertas. Na Ásia, na América do Norte e também na periferia europeia. Esta última traz a esperança de usar a própria Champions League como vitrine. Mas até esta expectativa é fantasiosa. A grande maioria estanca por lá – até se naturalizando, como o ex-SPFC Marlos. Ou então é emprestada ao Brasil, pensando em atrair novos olhares de fora. Ninguém repara, mas seguirão tentando. A ilusão não é a última que morre, mas seu enterro leva anos…

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