Neymar não é Mané, mas deve ser a alegria do seu povo

Créditos da imagem: Portal Terra

Mané pega a bola na ponta direita, passa por dois marcadores, invade a área, passa por mais um marcador. Cruzar ou chutar? Mané prefere voltar e refazer o lance. Dribla todo mundo de novo como ninguém nunca mais fez. Dessa vez, ele passa para o companheiro, que perde o gol.

Sei lá se essa cena existiu, mas há quem garanta que era exatamente assim que Mané fazia. Mané, para quem ousa não saber, era o apelido do “Alegria do Povo”, que também era apelidado como Garrincha.

“Alegria do Povo” porque jogava muito futebol, divertia e fazia espetáculo. Tudo junto.

Mané sofria. Apanhava muito dentro de campo, isso quando algum daqueles zagueiros que pareciam sargentos de milícia o achava. Era genial, mas havia quem não gostasse de Mané, quem quisesse quebrar suas pernas, arrancar seus pés e, provavelmente, fraturar seu nariz. Ou alguém acha que os laterais-esquerdos davam passagem e aplaudiam Mané? Mas Mané não parava e assim se fez. Alegrando o povo, a si mesmo e aos seus torcedores.

Neymar não é Mané porque ninguém mais é Garrincha. Mas por que o tratamento diferente? Porque Neymar é abusado. O seu visual é abusado, o seu jeito de ser no Instagram é abusado, como é abusado para o mundo de frustrados que vivemos um jovem de 23 anos jogar tanto quanto joga, tão cedo, desde cedo. O abuso de Neymar é ser bom e saber que é bom, num planeta onde isso significa ser alvo. Neymar não é Mané porque não tem a simplicidade roceira de Garrincha.

Quando parou próximo da linha de fundo e se viu cercado entre o fim do campo e o beque sem recurso, Neymar lembrou do parça Falcão, do ídolo Ronaldinho Gaúcho ou mesmo incorporou Garrincha: puxou a lambreta/carretilha. Neymar arriscou, o drible saiu errado, a bola ia pra linha de fundo e o zagueiro fez a falta. Tudo como deve ser.

Mas alguém se achou no direito de ir cobrar Neymar. Veio uma sucessão de frases, a maioria vinda daqueles  para quem duas embaixadinhas é impossível: “ganhando é mole”e “contra o Bilbao até eu”.

Não, gente ignorante, nem ganhando o jogo é fácil de se driblar. É que estamos desacostumados, mas é muito difícil driblar, seja ganhando ou perdendo. Perder se tornou vergonha, então perdendo, nem pensar em arriscar. Mas até vencendo, hoje, quase não vemos mais o recurso mais intuitivo do esporte. E se alguém consegue torná-lo “fácil” deve-se ao seu talento. Pois para Garrincha, todos eram João. Para Neymar, quase todos são Bilbao.

Neymar deve ser a alegria do seu povo, da sua torcida, somente a eles o craque deve dar satisfação. E não me parece que a torcida que viu Maradona, Romário, Ronaldinho, Ronaldo e Rivaldo vá se irritar com um drible a favor. Se fosse no meu time, aplaudiria de pé aos gritos. Se fosse contra, mandaria quebrar as duas pernas e ainda dar uma móca. Porque o drible é do futebol e as reações também.

Pareceu deboche, e foi. Afinal, no futebol de hoje em dia, inventar um drible, arriscar algo diferente, tirar uma jogada da cartola, ou seja, alegrar seu povo, é até deboche no meio de tanta mediocridade onde se sobressai a  força física e tática.  Ali, com Neymar já no chão, o elemento mais forte é o zagueiro gritando. Mas com a bola no pé, quem fala mais alto é quem tem o talento. Então, o gigante é Neymar.

Para alguns, o que resta é mesmo espernear e bancar o valentão. Cada mané com seus recursos.

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