Voltando no tempo

Créditos da imagem: LANCE!

Ralf está de volta ao Corinthians. Aos 33 anos, depois de passar os os dois últimos atuando no futebol da China, o volante é anunciado como novo reforço do atual campeão paulista e brasileiro.

O retorno do volante desafia a lógica. Não se encaixa na filosofia de contratações definida pelo novo-velho presidente Andrés Sanches: a busca por Paulinhos. Ou seja, jovens desconhecidos, bons de bola, com potencial para rechear o cofre do clube com a venda direta e, depois, com as sucessivas transferências recompensadas pelo sistema de solidariedade da Fifa, que repassa cinco por cento do valor de cada negócio aos clubes que o atleta defendeu entre os 13 e os 23 anos.

O retorno do volante também não estava na lista prioridades do técnico Fábio Carille, que sonha com a chegada de um atacante para o lugar de Jô. O artilheiro pegou o caminho inverso do volante e foi para a Ásia, mais precisamente para o Japão, deixando o time órfão de um camisa “9” eficiente na batalha solitária que o centro-avante corintiano tem que travar todos os jogos para fazer o time balançar as redes adversárias.

Talvez o veterano Ralf tenha sido escolhido para compensar a saída do menino Maycon, de 20 anos, que vai para o Shakhtar, da Ucrânia, por uma grana que não diminui a dificuldade do clube em honrar com o pagamento das enormes dívidas.

Só que Ralf não exerce a mesma função de Maycon, por questões de técnica e de tática. O volante jovem e habilidoso era elemento surpresa nas ações ofensivas. Ralf – assim como Gabriel, Paulo Roberto e o recém contratado Renê Júnior, que não consegue entrar em forma – atua mais recuado, para ajudar a fechar a defesa. Portanto, a lógica também falha nessa ideia de compensação.

A dificuldade de entender a lógica me faz apostar na superstição. O Corinthians dos inúmeros volantes e raros atacantes de ofício, tem sido sistematicamente campeão. Daí a opção por arsenal de volantes; cinco, com a chegada de Ralf.

Lembrando que Mantuan está atuando como reserva do lateral direito Fágner. Todos “cães de guarda”, juramentados. Tipo camisa “5” da gema, estilo Tião, volante do time nos anos 70. De vez em quando, muito de vez em quando, ele subvertia a ordem do “bola pro mato que o jogo é de campeonato” – e surpreendia com algumas pinturas.

Lembro de uma delas, realizada no primeiro jogo do Corinthians vi no estádio. Mil novecentos e setenta e um, Morumbi, clássico contra a academia do Palmeiras, com o goleiro Leão, o zagueiro Luís Pereira, Dudu e Ademir da Guia comandando o meio de campo esmeraldino. Edu, Leivinha, César e Nei, infernizando os zagueiros adversários.

Os palmeirenses deitaram e rolaram no primeiro tempo. Dois a zero ficou barato. Tião nem viu a cor da bola. Com a costumeira raça, o Corinthians empatou de forma fulminante no início do segundo tempo. Na saída do 2 a 2, Leivinha fez o terceiro do Palmeiras. E aí Tião surpreendeu. O limitado camisa “5”, fez a jogada mais espetacular da carreira. Driblou vários adversários, deixou Leão caído e marcou um golaço: 3 a 3. Lance tão sensacional que iluminou a atuação do time até a virada aos 43 minutos do segundo tempo, com o centro-avante Mirandinha marcando o quarto gol: 4 a 3, aos 43, consumando minha estréia vitoriosa no estádio, como testemunha de um inesquecível triunfo no derby.

Recordar os tempos de Tião me fez perceber que tem lógica que só a mística é capaz de explicar. Manter a tradição que embalou as mais importantes conquistas nacionais e internacionais do time, nos últimos tempos, deve ser a lógica que definiu a volta de Ralf ao Corinthians.

A fiel acredita. Sempre acredita. Aposta que o retorno do ídolo tem tudo para dar certo, logicamente.

7 comentários em: “Voltando no tempo

    1. Também gosto bastante do Ralf (homem sério e cumpridor de sua função dentro de campo), mas você o teria contratado mesmo podendo contar com o Gabriel para a mesma posição? E considerando também que o Corinthians hoje é um clube financeiramente inviável?

    2. Gabriel é um jogador que tem histórico de contusões. Ralf é um jogador que tem identidade com o clube. Eu o traria na primeira oportunidade tbm. Agora o Corinthians tem 2 grandes opções para uma posição de extrema importância no time.

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