Carille x Imprensa

O técnico Fabio Carille, do Corinthians, afirmou que “grande parte da imprensa mente”. Tratando-se de um profissional do esporte, que trata diariamente com jornalistas que atuam nesta área, quero crer que se referisse apenas aos jornalistas esportivos, assim chamados. Um jeito meu de amenizar as coisas. Carille não mente ao fazer tal afirmação, mas exagera e comete grave engano.

Se não existem santos na terra, desde o início da era cristã, por que jornalistas seriam mais puros do que os apóstolos que seguiram Jesus? Se Tomé, que não é o Roberto, mostrou-se incrédulo e só acreditou quando viu e tocou no corpo Mestre ressuscitado, se Pedro o negou três vezes antes que o galo cantasse novamente e se, até um deles, Judas, O vendeu por 30 moedas, por que jornalista seria (a única) classe pura na Terra?

Não, não há homem santo. Somos todos pecadores e alguns, bem pouquinhos, graças a uma vida inteira dedicada a fazer o bem, conseguem ser reconhecidos santos. Reconhecidos pela vida que levaram e não por assim terem nascido.

Religiosos são pecadores e cansamos de ler e ouvir sobre os pecados mortais que alguns cometem, como pedofilia, apropriação indébita etc. Médicos fazem juramento e prometem salvar vidas – pelo menos prolongá-las – mas muitos as destroem antes mesmo do nascimento. Praticam abortos e, safados ao extremo, cobram caro pelo crime. Quem nunca ouviu falar de advogados que surrupiam os bens de seus clientes? E por aí vai…

Por acaso não somos inundados por notícias, verdadeiras, de políticos corruptos – felizmente alguns, por aqui, já sendo engaiolados, mas ainda faltando muitos? E de administradores safados que subornam políticos e não políticos? E de funcionários que cobram dos patrões horas extras que não cumpriram? E das empregadas que surrupiam pequenas coisas das casas onde trabalham? Quer mais?

Em 1980, na Rússia ainda comunista, fechada, ouvi sobre empregados nas fábricas (do governo), que roubaram peça por peça, às vezes demorando meses e até anos, até conseguirem montar uma em suas casas. Até em países como a China, onde há pena de morte para safados, há ladrões e mentirosos.

Não, Carille não mentiu, mas na certa exagerou, e muito, ao dizer que “grande parte da imprensa mente”. E, mais ainda, cometeu grave engano ao deixar em aberto. Se ele conhece jornalista mentiroso devia, e ainda há tempo, portanto deve nominá-los. Dizer que “fulano, flulano e cricrano são mentirosos. Disseram tais coisas que não são verdadeiras”. Assim como jornalistas devem fazer quando acusam alguém de algo errado.

Afirmar sem dar nomes aos bois é como jogar farofa no ventilador, não tem o menor valor para quem leva a vida com seriedade. Ao contrário, vale como atirar bumerangue e acabar atingido por ele na volta. Ou aponta o dedo ou recolhe a mão, Carille. Tome uma dessas atitudes, para o bem dos que não mentem – a grande maioria -, e do seu próprio, um técnico competente, jovem e que pode ter uma longa carreira sem máculas.

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