Lucas Pratto no River Plate: a controvérsia sobre seu futebol não acabou

Créditos da imagem: Folha

Pratto cala a boca… de quem?

Quando um jogador deixa um clube para logo disputar uma decisão de Libertadores, é reflexo instantâneo cogitar que não teve o devido valor onde estava, no melhor (?) estilo “craque injustiçado”. Porém, se o tema deste clichê for Lucas Pratto, recomenda-se que contenham dedos e língua. O atleta segue o mesmo. O custo segue alto. A diferença é que o River Plate ou já sabia, ou logo aprendeu que não está diante de uma nova versão de Mário Kempes. É apenas Pratto. Um “apenas” que, bem utilizado num time em que não é “el hombre”, pode fazer sua parte num título. Sem, contudo, carregar ninguém nas costas avantajadas.

Em 2017, o Atlético Mineiro não poderia ter feito outra coisa que não fosse aceitar a generosa proposta são-paulina. Havia contratado Fred, com a perspectiva de que fizesse os gols que, na maior parte do tempo, eram desperdiçados pelo argentino. Quem deveria ter cogitado outra coisa foi o São Paulo, que terminara 2016 com risco de rebaixamento e decidiu jogar todas as reservas num único jogador. Pior: sendo aplaudido pela torcida, inclusive parte dos mais críticos, por estar mostrando “ambição”. Todos os -muitos- argumentos contrários foram relativizados ou mesmo desprezados, numa espécie de transe imediatista. Como se tivessem começado a acompanhar futebol duas semanas antes, acreditaram que o futebol de Pratto, então cotado para a seleção (treinada por Bauza, aquele das derrotas dignas), compensaria a fraqueza do elenco. Vivendo e desaprendendo.

Assim como no Atlético, o início de Pratto foi animador. Por dois meses, até este que vos escreve proferiu que, pelo desempenho, a crítica não era se Pratto valia o que custou, e sim que o SPFC não tinha caixa para custear o que valia. Mas, como ensinava Luxemburgo em 2007 (sou seu crítico, mas não incondicional), muitos jogadores costumam render acima do normal em suas primeiras semanas. É o que chamo de superconcentração. A mesma que, no caso do técnico, fez com que Kleber Pereira parecesse um goleador classe A em seu início santista. Ou que, por alguns jogos, fez o horroroso João Filipe ser chamado de Blackenbauer no São Paulo de 2011. No mesmo tricolor, o fraco Chavez arrebentou nas primeiras jornadas de 2016, para depois despencar. Com Pratto, esta queda de produção já ocorrera antes. Não foi diferente no Morumbi.

Com o atleta voltando a seu nível normal, foi possível ver que não se tratava de uma nulidade, mas tampouco seria um fora-de-série – mesmo para os progressivamente medíocres padrões nacionais. Deu sua cota de esforço na luta contra o rebaixamento, mas sem convencer sobre ser diferenciado. As perspectivas de negociações futuras também haviam desabado com a mudança de técnico da seleção argentina e a falta de exposição tricolor em Libertadores. Neste contexto, foi um presente de Natal atrasado quando o River Plate, com reforço financeiro, ofereceu praticamente o mesmo que fora pago pelo SPFC aos mineiros. Até uma diretoria comandada por Leco (já com Raí na gerência) sabia não haver o que hesitar. Obrigado por tudo e seja feliz em Buenos Aires! E assim está sendo. Não, contudo, com ares de herói incontroverso. Pelo contrário.

Não sei se o clube argentino o contratou com o pensamento de atleticanos e são-paulinos. Se pensou igual, logo teve que se colocar perante a realidade. No primeiro semestre (complemento de temporada no calendário local), foram 8 gols em 23 jogos, sendo 2 na primeira fase da Libertadores. Números decentes, mas nada impressionantes. Na atual temporada, são 2 gols em 16 partidas. Sim, o primeiro gol de empate contra o Boca foi apenas seu segundo desde agosto. Continua pecando nas finalizações e não deve ser fácil, para um jogador de seu físico, acompanhar a velocidade dos companheiros. Mas Pratto também segue dedicado, tentando ser útil de todas as formas. O rival na posição, Scocco, é mais goleador, só que tampouco vem numa fase brilhante e, no popular, resume-se a um banheirista. O urso leva a melhor em nome do coletivo.

Como a bonança econômica dos clubes argentinos está longe de ser uma fartura europeia, não acredito que a diretoria do River Plate esteja satisfeita. Mesmo que não esperassem um craque protagonista, presume-se que ao menos contavam com mais de 10 gols em quase um ano. Se aparecer um interessado em pagar valor similar ao que despenderam, devem agir como o tricolor paulista e negociá-lo. Para fazer o que ele faz, ainda que com afinco, há quem realize por menos. Claro que um eventual gol do título continental pode mudar parâmetros. O aproveitamento comum se tornaria “crescimento nas decisões”. Mas haverá os jogos seguintes e, com eles, a sensação de que deveriam ter contido o entusiasmo. As bocas caladas logo abrirão de novo.

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