Por que a premiação para o campeão é o mais cruel mecanismo estimulador de desigualdade no futebol

Créditos da imagem: Pedro Martins

Em um primeiro momento, muita gente viu com bons olhos a premiação avassaladora ao campeão da Copa do Brasil (que em 2017 saiu com R$ 13,3 milhões e em 2018 sairá com R$ 68,7 milhões)

Parecia positiva por dois motivos principais: representava uma maior repartição com os clubes do dinheiro obtido pela deletéria CBF, e aumentaria o interesse dos clubes pela competição que, às vezes, era preterida por equipes envolvidas na disputa da Libertadores ou do Brasileirão.

Atualmente já são feitas ressalvas quanto à desproporcional quantia oferecida ao campeão em função de alguns times priorizarem a Copa do Brasil e escalarem reservas no Campeonato Brasileiro -que esportivamente sempre foi nosso maior torneio.

Mas o efeito pode ser ainda muito pior do que esse.

Conceitualmente, premiar financeiramente as equipes mais bem-sucedidas é o pior instrumento possível para matar a competitividade entre os clubes e consolidar desigualdades.

Antes de mais nada, os clubes existem para praticar um esporte. Logo, conquistar títulos, melhorar a classificação, obter o privilégio de se credenciar a determinada competição ou simplesmente superar o adversário é a gênese de tudo aquilo que acontece depois. Nada pode sequer sugerir que “dar dinheiro” faria com que um clube passasse a desejar uma taça ou uma vitória mais do que antes. Senão é o dinheiro suplantando a glória esportiva. Eu entenderia apenas se clubes fossem empresas com ações na bolsa de valores, e isso representasse mais dividendos para seus acionistas, mas como não são…

Mas fora essa questão de essência do esporte, que realmente é subjetiva, há uma série de desdobramentos práticos que elenco a seguir:

–  No futebol, nem sempre o mais rico vence. Mas e quando o mais rico é também o mais forte, como acontece, por exemplo, com o Real Madrid dos últimos anos? Bem, aí vivemos uma situação meio inescapável. Afinal, como fazer para se manter competitivo contra a equipe que já se mostrou mais forte do que a sua (afinal, foi campeã) e que ainda ganhará um dinheiro relevante a mais do que você? Nessa situação, além de ser quase impossível enfraquecê-la (provavelmente ela só perderá algum jogador se ele sair por razões pessoais), é muito difícil de evitar que ela te enfraqueça, contratando seus principais jogadores, se assim desejar;

–  Premiações altas para os campeões estimulam dirigentes irresponsáveis a investirem além das possibilidades, a fim de aumentarem as chances de conquistarem um título e, por tabela, a premiação que “resolverá os problemas financeiros”. Ou seja, torna-se uma espécie de aposta redobrada, que faz com que o faturamento de um clube possa variar muito além do previsto em função do trabalho de gestão do dia-a-dia. O trabalho sustentável perde espaço para um “tudo ou nada”;

– Erros de arbitragem ou “o imponderável” podem fazer com que títulos sejam conquistados injustamente por um em relação ao outro. Se não bastasse o título, o vencedor também abocanha uma boa grana e ainda pode se reforçar mais ainda em relação ao derrotado, tudo em função de um lance? Ok, a taça é só uma, só pode haver um vencedor, mas com o dinheiro não é assim;

–  Os times que disputam títulos aparecem mais na mídia, assim dando mais retorno aos patrocinadores. Quanto um clube está em fase vitoriosa, tem crescimento no número de sócios-torcedores e atrai mais público aos estádios, praticamente sempre com aumento no valor do ingresso em função da maior importância da partida. Os jogadores campeões se valorizam, de modo que, em caso de negociação, o clube receberá mais do que receberia antes do título. Ou seja, o título e o desempenho esportivo já são determinantes para uma melhora na condição de aproveitamento do potencial de arrecadação de um clube;

– Qual é o sentido de uma entidade que organiza um campeonato premiar o seu campeão ao final? Não seria melhor que ela dividisse o dinheiro de premiação entre os participantes, antes do início da disputa, a fim de permitir que pudessem qualificar mais suas equipes e assim elevar o nível da competição?

–  Ligas americanas, como a NBA, fazem inclusive o contrário: dão mais estímulos às equipes de pior desempenho, assim oferecendo condições para que elas possam competir melhor contra equipes que já se mostraram superiores na edição anterior e que, justamente por isso, não precisam de mais estímulos ainda.

Não entendo o porquê de a desigual divisão dos direitos de TV (à qual também sou contrário) receba tantas críticas, enquanto a premiação ao campeão não. Suponho que seja porque há a ideia de que a premiação por desempenho esportivo é meritocrática, enquanto a dos direitos de transmissão não. Ok, tem sentido, embora o mérito esportivo já seja reconhecido com taças e vagas a campeonatos mais importantes. Mas e se usarmos a racionalidade econômica? Por esse prisma, é “meritocrático” que o clube que dá mais retorno para a TV receba mais do que o que dá menos. Vejo que há mais justificativa prática para a divisão desigual da verba de TV do que de premiações.

De todo modo, não tenho dúvidas de que a consequência da premiação ao campeão é pior do que a da verba de TV. Afinal, um clube por receber muito dinheiro e não estar bem esportivamente. Um exemplo é o Manchester United. E, pensando nacionalmente, até o Flamengo cabe nisso. Mas quando já se é superior esportivamente, e ainda se pode contar com mais dinheiro, fica muito complicado.

Para finalizar, um exemplo prático: Flamengo e Palmeiras já vêm se mostrando financeiramente muito mais fortes do que os outros clubes brasileiros, o que se manifesta nos elencos fartos e nas poucas perdas (normalmente envolvendo altos valores). Pois são bem consideráveis as chances de que façam a final da Copa do Brasil e decidam, diretamente, qual contará com “apenas” mais R$ 20 milhões (vice) ou R$ 50 milhões (campeão) do que os demais, cada vez mais pobres e desmanchados.

Isso parece saudável?

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