Não mexam com a “centroavância”

Créditos da imagem: REUTERS / David Klein

E lá vamos nós! A lesão de Gabriel Jesus esquentou as discussões sobre o ataque para a Copa de 2018. Entre as sugestões, ressurge a ideia de jogar sem centroavante. Normal. Muitos brasileiros têm um problema pessoal com a realidade. Não importa o que a prática mostre. O “ainda acho” prevalece, somado à mania de achar que exceções dão em árvores. São pouquíssimos os times que conseguiram jogar sem centroavante. A maioria destes pouquíssimos apenas não tinha centroavante de ofício, mas quem entrou fazia o papel – como Tostão confirma sobre 1970. Esta coluna vai procurar explicar um caso de exceção efetiva e também por que, na maioria constrangedora dos casos, jogar sem o nove requer um elemento indispensável: combinar com o adversário.

Antes de mais nada, há que se deixar claro que Gabriel Jesus é centroavante, sim. É verdade que começou a carreira pelo lado. Mas, como até relógio quebrado acerta duas por dia, Cuca deu uma dentro ao deslocá-lo para o comando do ataque. O que confunde as pessoas é que os times brasileiros não formam mais centroavantes leves e rápidos, como eram Romário, Careca, Reinaldo e até Ronaldo – antes de romper com a balança. Jogador com esse biotipo virou segundo atacante. No centro do ataque, a preferência caiu sobre atletas altos e pesados, para que fizessem o pivô ou ficassem parados esperando a bola – o clássico “centroavante de roça” ou “banheirista”. O futebol brasileiro se diferenciava por formar centroavantes diferentes deste padrão limitado. Gabriel Jesus no setor é uma tentativa de retomar esta diferenciação. Jogando na posição original, chega a ser medíocre, como nas tentativas de Guardiola para que atue ao lado de Agüero – outro centroavante fora dos padrões.

O segundo passo é mostrar a exceção brasileira. Em 1992, o São Paulo começaria a temporada com Macedo como centroavante, tal como no ano anterior. Só que este foi para a desastrosa seleção pré-olímpica e, enquanto isso, o recém-contratado meia Palhinha foi usado com a camisa 9. Foi o início do 4-5-1 mais único dos grandes times brasileiros. O SPFC jogou apenas com Müller de atacante, semi-aberto pela esquerda. Não havia centroavante, mesmo. Apenas em determinadas situações Raí fazia o pivô de tabelas. O repertório do camisa 10 era a razão do sucesso. Telê quis aproveitar ao máximo sua presença de área. Com sua saída, após tentativas com o – então – jovem centroavante Guilherme, Telê retomou a tática com Leonardo no lugar de Raí. A máquina ainda teve forças, mas sem o mesmo poder. Venceu o Milan, porém passou a ser superada pelo Palmeiras de Evair. Como disse em coluna anterior, o craque adequou o esquema. Sem ele, foi-se o esquema.

Vale destacar que isso aconteceu há vinte e seis anos. Em termos recentes, a exceção notória (e ainda mais gloriosa) foi o Barcelona de Guardiola, com Messi de falso 9. Já comentei sobre isso antes, mas o fato é que nem o argentino joga mais assim. Por quê? Porque os outros técnicos foram achando soluções contrárias, até que Barcelona e Guardiola, cada qual já no seu canto, capitularam. O Barça trouxe Suárez. O treinador até tentou seguir com o conceito no Bayern, a tempo de influenciar a seleção alemã na Copa. Mas logo o clube da Bavária voltou a ter Mandzukic (depois Lewandowski) com a verdadeira nove e a Alemanha avançou no Brasil com Klose na frente. A ideia frustrada era fazer com que a zaga rival combatesse o centroavante postiço longe da área, abrindo espaço para infiltrações. Mas eis que os zagueiros pensaram: “e se ficarmos aqui mesmo, ora pois?”. Os infiltrados bateram com a cara na porta. Volta aqui, centroavante amigo!

Não entenderam? Vou dar um exemplo pouco memorável da seleção brasileira. No primeiro turno das eliminatórias, Dunga decidiu jogar sem centroavante contra o Uruguai. Em vez de Ricardo Oliveira (único nove disponível), optou por Lucas Lima e Coutinho pelos lados. Neymar seria o mais adiantado, pelo centro do ataque. Quando abrisse para buscar o jogo na esquerda, seria acompanhado pelo marcador e abriria um corredor para os companheiros. Por quase meia hora, foi um espetáculo. Os uruguaios caíram e a seleção abriu 2 a 0. Aí resolveram romper o “combinado” e o baile mudou de lado. A partir do momento em que deixaram de ir atrás de Neymar, o Brasil não criou mais nada, levou o empate e o Uruguai não virou por muito pouco. Ricardo Oliveira entrou, mas a bagunça já estava formada. Não por acaso, foi a última vez em que se pensou em jogar desta forma. Também não por acaso, melhor treinado e com centroavante, o Brasil enfiou 4 a 1 no segundo turno.

Como podem ver, não é coincidência que ninguém mais esteja atuando com falso 9. O futebol é fértil em soluções de grande efeito, porém datadas. O sonho parreirístico do 4-6-0 não vai ser o esquema do futuro. O centroavante sobrevive. Quem não precisa sobreviver (ou ao menos deve evoluir, como alguns poucos) é o camisa 9 que menos alegra e mais assola nosso futebol doméstico. Quem faz parede é pedreiro. Lugar de banheira é (também ora pois) no banheiro

6 comentários em: “Não mexam com a “centroavância”

  1. Excelente, como sempre! É isso como aqui esquecem de Romários e Dodôs, e acham que centroavantes sempre precisam ser “grandões como zagueiros (ops, nem vou falar de Gamarra e Cannavaro)”.

    Um caso que me chamou bastante a atenção nesse sentido foi o do atacante Luciano, no Corinthians. Como ele é veloz e baixo, pronto, estava decretado que ele era ponta, sendo que era sempre uma decepção por lá. E por mais que sempre mostrasse facilidade para finalizar e tomar decisões rápidas na área, demorou um ano e meio para que alguém (Tite) enfim o colocasse na centroavância, e ele tivesse sucesso até se lesionar…

  2. Uma coisa que já notei é que gostam de criar uma associação entre meia alto e centroavante, como se fossem parecidos, tipo Alan Kardec, Danilo, Raí, Fernandão, bem na base do não custa tentar, kkkkkkkk

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