Os presentes que ganhei de Pelé – Parte II

Créditos da imagem: Montagem/No Ângulo

Minha vó Catharina dizia que aniversário não se comemora apenas no dia, mas sim até a véspera do próximo. O que dá aos amigos direito de cumprimentar o aniversariante também dias e dias depois das velinhas apagadas. É quando se prova até melhor a amizade, dizia ela. E se a perguntavam quantos eu tinha, vovó respondia: “o Binga tem dez, entrou nos onze e vai fazer doze”. Pensava longe.

Logo, o amigo vê que, seguindo vó Catharina, posso comemorar os 75 anos do Pelé por muitos dias. Ainda mais sendo para agradecer os presentes que dele ganhei. E são tantos…

Em 1976, fui aos Estados Unidos cobrir os jogos da Seleção Brasileira pelo Bicentenário da Independência americana. Como estava escalado também para cobrir os Jogos Olímpicos de Montreal, Canadá, acharam melhor que eu e o fotógrafo Rodolfo Machado, ficássemos por lá. Entre o final do torneio e o início das Olimpíadas havia 16 dias de diferença. Aí, planejamos algumas reportagens, jeito de aproveitar o intervalo: a) mostrar como começava brotar a semente do soccer por lá, lançada por Pelé e outros craques veteranos; b) quem comandava a Liga e que chances existiam de vingar; c) e, claro, mostrar como estava Pelé, que tinha ido para o Cosmos no ano anterior.

Para a primeira, contei com a inestimável ajuda do Zuza, José F. de Augustinis, brasileiro, palmeirense, que estudava na Universidade da Califórnia. Ele arranjou, com amigos americanos, em dois dias, um torneio com oito times formados por garotos, em Santa Mônica. Foi ótimo. Existiam mais de 60 mil meninos e meninas federados.

Para a segunda, também com a ajuda do Zuza, fui a vários lugares e falei com muitas pessoas.

Para a reportagem com Pelé, eu queria mais. Não apenas falar com ele, mas, antes, vê-lo em ação em alguns jogos. Sem que ele soubesse. Sem a menor influência. Fomos, eu e o Rodolfo, da Cidade do México para Minneapolis, estado de Minnesota, e depois em Nova Iorque. Não deu para me esconder, mas nada mudou no projeto. Durante a coletiva que ele dava na véspera dos jogos, um repórter local indagou se no Brasil estavam acompanhando sua participação no futebol americano,  e Pelé, que de forma esperta, ainda usava Júlio Mazzei como intérprete – o que lhe dava mais tempo para pensar as respostas -, respondeu que sim. E que até tinha um jornalista brasileiro escondido por ali…

Depois da coletiva, descoberto, dei as caras e falei sobre a entrevista com Mazzei, que me alertou ser necessário fazer inscrição e entrar na fila. Era assim que funcionava, e televisões, jornais, rádios, revistas tinham de esperar, às vezes, por semanas. Olhei para Pelé, que se mantinha em silêncio, e disse: “maravilha, vamos ficar um mês por aqui”. Pelé piscou o olho e depois, já sem gringos por perto, após confirmar que era assim mesmo, deu a solução: “vamos treinar amanhã cedo e você será meu convidado para almoçar. Conversaremos durante o almoço, isso não é proibido”.

Foi um almoço demorado, e combinamos continuar o papo em Nova Iorque, durante o treino num campo fora de Manhattan, dois dias depois. No papo inicial, disse a Pelé que seus companheiros, Negreiros e Mifflin, reservas no time, reclamavam não terem a ajuda dele para serem titulares. E ouvi: “aqui ninguém, nem eu, joga só com o nome. Estou com o mesmo peso da Copa de 70 e você vai ver como corro, para jogar e fugir das porradas”.

Pelé e Mazzei ainda me aconselharam a ficar no melhor hotel, na 7a avenida, caro, mas mais seguro. Deram as dicas de como chegarmos ao campo da universidade fora da ilha e irmos de taxi ao estádio na noite do jogo seguinte. Preocupados comigo e com as máquinas que Rodolfo carregava.

Depois do treino, Pelé perguntou se queríamos uma carona no carro do Mazzei, um Malibu branco, bancos vermelhos. Os jogadores eram obrigados a irem juntos para os treinos, mas podiam voltar separados. Aceitamos, claro. E logo que nos acomodamos, Mazzei perguntou: “Rei, vamos pela autopista ou vamos pelo atalho”. Pelé disse que era melhor ir pela autopista. Indaguei qual era a diferença e ele disse que era o pagamento do pedágio – acho que menos de dois dólares…

No almoço, no dia seguinte, restaurante Luso-brasileiro, na 46, comemos o trivial. A conta era baratinha. Eu disse que Vitor Civita, dono da revista, ia pagar, mas Pelé não deixou, explicando, entre risos,  que o patrão dele, o Cosmo, era mais rico. E antes do cafezinho, recomendou ao Mazzei não esquecer de pegar a nota fiscal, para cobrar do Cosmo. Fez o mesmo com o estacionamento.

Até o próximo presente! (risos)

*A continuar.

 

Os presentes que ganhei de Pelé – Parte I

 

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