Razões para Tite aceitar treinar a Seleção

Créditos da imagem: O Globo

Faz muito tempo, depois de um jogo em que precisava vencer e virou para cima do Cruzeiro, o vestiário do São Paulo estava fervendo. Chico de Assis, repórter da rádio Bandeirantes, foi ao canto onde sempre ficava e disse para que eu fosse segurar meu irmão, que estava perto de brigar com um cartola.

Fui e coloquei-me ao lado do cartola, que exigia dele elogios ao time na reportagem que escreveria sobre o jogo. Chico encostou em mim e repetiu para que eu segurasse meu irmão. Falei: “Chico, fique tranquilo, não vai sair sopapos, mas se sair, vou segurar o cartola e não meu irmão. Se alguém tiver que levar tapas, que seja ele”.

Gosto de futebol, sou torcedor quando não estou trabalhando, mas nem de longe consigo engolir essa de cartola gastar os tubos, endividando o clube, com a desculpa de que age com o coração e não com a razão – como faz em seus negócios particulares. E muito menos aceitar que torcedor se julgue dono do time, ameace agredir jogadores, dê cascudos em seus ídolos…

Pior ainda, quando o faz com camuflado consentimento dos cartolas. Há, até, quem considere as prensas salutares, por fazerem jogadores correr mais, evitar “chinelinhos”.

Jogo no outro time! Lugar de torcedor é na arquibancada, aplaudindo ou vaiando, e só. Se é preciso dar bronca – e muitas vezes é – que o cartola cumpra seu dever.

Dar bronca acontece em quase todos os times, mas são os “mânus” que mais agem dessa forma. Sempre com cartolas passando as mãos em suas cabeças, tirando-os de enrascadas, favorecendo-os com ingressos, viagens custeadas, abrindo as portas para que, sob a desculpa de dialogar com os jogadores, constrangê-los, ameaçá-los.

Sócrates, Vladimir, Marcelinho, Edílson…. são tantos. Os bem mais antigos recordarão que o goleiro Heitor precisou deixar o Parque São Jorge no camburão da polícia, depois de uma derrota – tarde de quarta-feira – para o Noroeste. E os de agora têm fresco na memória, que o presidente levou – tem aí uns 15 dias – chamados “representantes da torcida” para conversar com a equipe, no Recife.

Sabem que os mesmos “donos do time” invadiram o CT numa manhã de sábado, encurralando o técnico Tite, Paolo Guerrero e outros. E que agorinha mesmo, voltaram a exigir – não quero usar a palavra ameaçar – resultados positivos do time. O que fez Tite gritar que lá não tinha moleques etc.

É só por isso que Tite decidiu aceitar dirigir a Seleção? Claro que não, mas é também – ainda que ele jure de pés juntos o contrário.

Evidente que é sonho de (quase) todos os técnicos chegar ao topo. Pela biografia, pelas honrarias, pela grana alta. Sim, grana alta. Ninguém vai dirigir a Seleção – pelo menos por aqui – por amor à amarelinha.

Seria uma babaquice, ainda mais sabendo como o futebol brasileiro – nem quero falar do mundial, da Fifa – é administrado. E por quem. Quem são os cartolas, quanto e de que forma embolsam milhares de reais. Sim, sim, ele, Tite, e qualquer outro poderia ir trabalhar até de graça, pensando na torcida sofrida etc. E seria outra bobagem.

Futebol é profissão. É negócio. Cada vez mais negócio e menos limpo. Disputando vaga no mundial aqui pela América do Sul – 4 e mais uma em doze seleções – a brasileira vai se classificar. E Tite terá dois anos de sossego, junto com o filho. É muito mais tranquilo enfrentar eventuais vaias da torcida nacional, do que a fúria dos “mânus”.

Aliás, é pensando nisso que alguns técnicos estão agradecendo a lembrança e o convite para preencher a vaga deixada por Tite.

Leia também:

Se Tite assumir, enfrentará os dilemas e a solidão de um técnico de Seleção (por Luis Carlos Quartarollo)

6 comentários em: “Razões para Tite aceitar treinar a Seleção

  1. De vez em quanto os jogadores merecem uma esfrega . De certa forma os manus fazem eles correrem ao menos para justificarem seus altos salários. Vai deixar barato? rss

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