A Copa das mídias sociais esconde o importante e promove o irrelevante

Créditos da imagem: Rodrigo Paiva/Getty Images for amfAR

Acompanhando os programas intermináveis de comentários sobre futebol, na noite de domingo (24/6), ouvi duas opiniões totalmente divergentes de jornalistas. Um, em determinado canal, afirmou que a qualidade das coberturas esportivas deu um salto nos últimos 20 anos. Em um concorrente, outro profissional, meu ex-colega de Folha de S.Paulo, disse que há pouco mais de duas décadas a imprensa tinha um apuro maior na escolha de fatos realmente relevantes em grandes eventos como a Copa.

Sem ser saudosista, estou com a segunda opinião. Hoje, por exemplo, os grandes assuntos, fora as partidas do dia, foram a declaração da mulher de Douglas Costa sobre um suposto excesso de ritmo de treinamentos na seleção, o pai de Neymar pedindo que os “parças” de seu filho evitem ataques pelas redes sociais ao Galvão Bueno e outros jornalistas, ou a reação da seleção sueca em defesa do jogador que cometeu a falta infantil que gerou o gol da Alemanha, no último minuto do jogo, e se tornou vítima de acusações racistas nas mídias sociais. Fora os textos do tipo “fulano fez não sei-o-quê e virou meme”.

Antigamente, não tínhamos os espaços generosos que a internet proporciona a repórteres e editores. Nem se conseguia enviar equipes tão numerosas para as Copas. O trabalho de edição era voltado à escolha dos principais assuntos. Não havia espaço para dizer se fulano deu escapada da concentração, se a Bruna Marquezine foi a Sochi e jantou com Neymar e outras coisas do tipo. Quando havia, não passavam de pequenas notinhas.

A declaração da mulher de Douglas Costa, por exemplo, não seria notícia por si só. Poderia até virar uma pauta. Seria considerada um indício para perguntas ao próprio jogador e à Comissão Técnica e elaboração de reportagem ouvindo profissionais renomados da área, como médicos, fisiologistas, preparadores físicos etc. Seria dado um quadro completo com diferentes visões.

Hoje, não se consegue falar com o jogador nem com a comissão. As equipes se fecharam à imprensa e só dão declarações em coletivas com apenas um único jogador ou integrante da comissão técnica. As assessorias de imprensa cuidam para que qualquer possibilidade de polêmica seja devidamente cercada.

Achar hoje que o jornalismo esportivo deu um “grande salto de qualidade” nos últimos 20 anos é de uma presunção nada profissional e algo desrespeitoso em relação às antigas gerações. Sempre existiram na imprensa esportiva os excelentes, os bons, os mais fracos e os que se acham melhores do que tudo que foi feito antes. Esses últimos são os piores.

Há 60 anos, certamente, as condições de trabalho eram precaríssimas e os jornalistas gastavam tempo precioso para resolver como transmitir suas reportagens para as redações. O alto nível tecnológico e científico visto hoje em dia era um sonho distante naquela época. O teste de Cooper, idealizado para a verificação do nível de condicionamento físico, só foi criado em 1968. Carlos Alberto Parreira, preparador físico da seleção de 1970, atribui ao uso desta técnica boa parte da conquista do tricampeonato. Era uma grande novidade.

Hoje, na Copa das Mídias Sociais e das infinitas horas de TV e rádio, o negócio é preencher espaços. É manter as homes sempre atualizadas e ocupar as lacunas enormes dos programas de debates. Nota-se claramente que há muito tempo e espaço para se falar e pouco a se dizer.

Se são protegidos das perguntas dos jornalistas, os jogadores e técnicos têm acesso a todas as baboseiras que são ditas nas mídias sociais. Eles e seus patrocinadores dão muito mais importância à comunicação direta nos facebooks, instagrans, whatsapps etc. Esse tipo de mídia acaba gerando mais desgastes aos envolvidos nas disputas e tira espaço do que é realmente relevante.

No final, o que deveria importar é o bom trabalho de times e da mídia. Se Neymar decidir usar uma peruca ruiva e fizer muitos gols, as perucas esgotarão na loja. Basta ver que, em 2002, o cabelo de Cascão do Fenômeno virou moda entre a molecada. Se ele tivesse fracassado, seria bombardeado. Mas em 2002 não havia as mídias sociais para tornar o secundário e pueril mais importante do que os fatos que realmente influem na competição e nas novidades táticas e científicas que as Copas trazem a cada quatro anos.

21 comentários em: “A Copa das mídias sociais esconde o importante e promove o irrelevante

  1. Uma coisa é certa , Neymar é o alvo preferido da imprensa desportiva no Brasil e no mundo. Muito de fala sobre seus cabelos festas namoradas atitudes etc . Mas pouco se fala sobre o que ele faz em campo. Admito que sou critico desse garoto , as vezes o acho muito individualista , desrespeitoso como no caso de Dorival Júnior e recentemente com seu capitão e parceiro Thiago Silva. Mas entendo também sua ansiedade sua expectativa em ser campeão mundial. Este garoto precisa estar cercado de pessoas do bem , que lhe mostre um caminho a ser percorrido . É sim uma celebridade e acho que as vezes exagera , mas quem convive com ele diz ser um menino do bem . Logicamente quem o rodeia vai bajular Neymar , sem confronta lo , pois vivem a suas custas. Mas ele precisa de uma reflexão, esta milionário e badalado tem quase tudo o que quer. Mas pra ser eleito o melhor jogador do mundo , precisa fazer parte de uma equipe. Dizem que ele é uma liderança técnica, porém ao meu ver uma liderança imposta . E um líder de verdade necessita ser aceito.Simples assim.

    1. Neymar colhe o que planta.
      Ele não é garoto, já tem 26 anos e está na segunda Copa.
      Maior erro da carreira foi sair do Barcelona, lá ele foi enquadrado e mostrou seu melhor futebol no ano de 2015.Preferiu ser dono do PSG do que evoluir futebolisticamente.

    2. Antônio Moreira Foi em busca de um novo desafio, tenho filho da idade dele. Por isso o chamo de garoto. Alguns amadurecem mais cedo outros não, jamais julgarei alguém. Critico Neymar pelo que faz em campo , fora dele o problema quem tem que resolver é quem o cerca. Dentro de campo se não há ninguém para enquadra lo a culpa é de quem o dirige .

    3. Não acredito que campo de futebol é uma bolha em que todo o Extra fica de fora, não há como deixar sua personalidade no “mundo externo”, o homem Neymar leva para campo todo esse paparico que ele possui desde os 13 anos de idade, no caso dele, não há como dissociar uma coisa da outra.
      Não estou julgando, não sou magistrado, mas faço a crítica em cima daquilo que eu acompanho, se ele não quer crítica, que largue o futebol e vá fazer outra coisa da vida.

    4. Antônio Moreira Sempre critiquei Neymar no seu egocentrismo em campo. O que ele faz fora dele não é problema meu. Simples assim vc tem sua opinião e eu a minha

    5. Antônio Moreira Não estou discutindo , apenas argumentando rsrs. Disse que respeito a maneira que pensa sobre ele fora de campo , apenas não concordo. Erraram com Neymar quando desautotrizaram Dorival Júnior. Foi o que eu disse não concordei com essa atitude dele , passaram sim a mão na cabeça dele. Deveriam te lo enquadrado naquela época. Sou critico dele em campo somente isso. Rsrs.

    6. O que me incomoda no caso dele, claro, ele não é o único jogador que faz isso, é que ele ainda não conseguiu separar esses dois lados da vida dele.

    7. Antônio Moreira Vi uma entrevista de Rivelino Pelé levava dura e Vampeta disse que Ronaldo Fenómeno era enquadrado. Outros tempos de jogadores com personalidade .Essa seleção é o que temos pra hoje rsrs. Boa noite

  2. Os jornalistas, por mais que se esforcem, não vão conseguir transformar esta Copa (chatíssima),em uma Atração indispensável (a não ser que as coisas mudem muito nas próximas fases). ESTA COPA ESTÁ MAIS CHATA QUE O “ADENOR”.

  3. Se foce um pouco mais umilde mais ele é o pai dele parece que tem um rei na barriga nunca será o melhor do mundo veia o Cristiano Ronaldo veja como é umilde é um jogador compreto sem ser egoísta o coltinho está jogando muito melhor que está mala do Neimar

  4. Tem uma entrevista dada pelo Renê Simões, depois de um jogo contra o Santos Na qual define perfeitamente quem era aquele menino e se não lhe fosse cortada as asas no que poderia se tornar…Ele (Renê Simões) tinha razão!

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