Análise: Rogério Ceni e a desconstrução mítica

Créditos da imagem: Portal do SPFC

Rogério Ceni, sem dúvidas, é o maior ídolo da História do São Paulo Futebol Clube. As marcas, a superação, as defesas inesquecíveis, os gols importantes e os títulos conquistados falam por si. Trata-se de uma lenda viva sem similares no futebol brasileiro. Todavia, é possível ser o maior e o pior ídolo ao mesmo tempo. Acredito que nenhum outro abusou – e abusa – tanto do status para fazer valer seus interesses. Ao encerrar a carreira de goleiro e decidir que seria treinador, automaticamente vinculou clube e torcida a um contrato vultoso sem experiência prévia. Mais: ao aceitar o convite sem sequer um ano de estudos (que o credenciam, até aqui, à quarta divisão inglesa), aumentou o risco de ser visto como um estagiário com ganhos e responsabilidades de profissional. Eis que o risco se concretiza.

O primeiro problema de decidir ser técnico é que, no seu caso, as perspectivas iniciais de trabalho são reduzidas. Com seu vínculo único com o São Paulo, o clube se tornou opção inicial única. Nem mesmo o cargo de auxiliar seria adequado, pois a pressão para demitir o técnico, fosse quem fosse, seria enorme assim que maus resultados viessem. Nesta situação de one shot, Rogério precisaria chegar com um preparo teórico acima da média ou, então, mostrar um dom natural intuitivo para escolher jogadores e queimar etapas. Não teve nem uma coisa, nem outra. O período de estudo foi curto e tampouco possui a intuição que tornaria Renato Gaúcho um técnico top, se ao menos se dispusesse a estudar um pouquinho – porque um treinador completo precisa ser teórico e intuitivo.

A primeira lacuna manifestou frutos amargos em escolhas como Cícero, indicação que ainda teve ares de birra infantil, lembrando a divergência com Ney Franco. Mas foi o preparo insuficiente, aliado à pretensão do novato, que gerou um mês de tempo perdido. Rogério já partiu para treinos com três zagueiros, provavelmente influenciado pela fixação doentia, seja de torcedores ou dirigentes tricolores, por esta forma de jogo. O 3-4-3 é aplicado com sucesso por poucos treinadores, todos tarimbados. Não é, definitivamente, a escolha ideal para um iniciante. Muito menos tentando usar Rodrigo Caio como elemento surpresa para variar o esquema entre dois ou três zagueiros durante a partida. Como acontece com muitas genialidades, faltou combinar com os adversários.

A ambição durou um torneio de verão e uma estreia desastrosa no campeonato paulista, contra um Audax que só ganharia mais um jogo no resto da disputa. Nas partidas seguintes, o esquema da vez foi um suposto 4-3-3. Suposto, porque na verdade era o velho 4-4-2 com três volantes e um meia-atacante. Cueva começava pela direita e logo assumia toda a armação. A grande fase do peruano impulsionou resultados positivos, mas o desgaste físico com a múltipla função causou a lesão, seguida por queda física que agora pune a equipe. Também houve uma supervalorização da vitória contra o Santos na Vila, já que o rival perdeu outras em casa e sequer chegou às semifinais. Foi o único momento, até aqui, em que o trabalho de Rogério pareceu ter todos os aspectos de um treinador feito. Um curto momento.

Logo se viu como o São Paulo moderno era cheio de falhas. Primeiro foram os buracos defensivos que geravam dois gols por partida. Depois, como um cobertor curto, foi a vez de o ataque empolgante entediar, mesmo com Lucas Pratto em forma. Como era de se esperar, o desequilíbrio provocou derrotas em mata-matas. Mas ser eliminado pelo Defensa Y Justicia surpreendeu até aos otimistas. Tanto que a tropa midiática pró-Ceni (a mesma dos tempos de jogador) partiu para o ataque, culpando exclusivamente a diretoria pelo elenco ruim – que, como sabemos, ele ajudou a montar. Enquanto isso, as escalações e substituições ficaram cada vez mais confusas, não raro sabotando os poucos acertos. Como se não bastasse, mais uma vez tentou emplacar os mesmos três zagueiros descartados em fevereiro, sendo um deles o desastroso Lucão. Assim quem precisa de adversários?

Mas estes erros chegam a ser detalhes quando comparados às entrevistas. Sua autoindulgência o tornou ávido por estatísticas para desmerecer maus resultados. Copia, ironicamente, os jogadores do Liverpool depois da derrota em 2005. A julgar por tal lógica, o São Paulo deveria enviar a taça do tricampeonato mundial para a Inglaterra, com os dizeres “it was bad” (tradução obviamente grosseira de “foi mal”). Nem mesmo os auxiliares importados conseguem incentivar alguma autocrítica. Auxiliares, aliás, tão verdes quanto ele. Parecem mais ter sido um marketing de modernidade que um efetivo auxílio. Alguém soube de alguma decisão supostamente sugerida ou influenciada por eles? Ou estão todos brincando, em três idiomas, de “filho feio não tem pai”?

Para não dizer que houve apenas pontos negativos, o maior aproveitamento da base é digno de elogios. Escalar Renan também veio a calhar. Contudo, tais acertos se diluem, quando não se anulam, pelos equívocos. Ademais, aproveitar a base e descartar uma dupla de presepeiros é o mínimo que qualquer são-paulino informado faria no lugar do técnico, mas não é nem perto do suficiente. Especialmente quando não se está disposto a admitir o quanto tem a melhorar. É possível que este senso crítico ausente, bem como os demais requisitos, venham com mais alguns meses no cargo? Em primeiro lugar, isso só confirmaria o uso do São Paulo de cobaia para seus projetos individuais. Em segundo lugar, ainda que aconteça, até lá a cobaia pode estar à beira do rebaixamento.

Partindo do princípio de que Rogério não vai ser demitido, nem evoluir em tempo recorde, o que pode ser feito para que a equipe fuja do pior e até almeje vaga em Libertadores? A meu ver, neste ponto ele deu sorte. O Campeonato Brasileiro atual está um retrocesso tático. Quase todos os treinadores parecem ter desistido das tentativas de modernizar seus trabalhos. Lembram o 4-4-2 com três volantes disfarçado que mencionei acima? É o que, com poucas exceções (como Carille, o que explica a liderança corintiana) estão fazendo. O mesmo posicionamento espaçado que imperou entre 2005 e 2010. É possível, em tese, que Rogério consiga pelo menos fazer isso funcionar. Não requer tanta prática ou habilidade, embora tampouco vá resultar em conquistas. Mas é apenas uma possibilidade. Não contem com isso.

10 comentários em: “Análise: Rogério Ceni e a desconstrução mítica

  1. O ROGÉRIO CENI NUNCA ADMITE SUAS FALHAS E, PARTICULARMENTE ENTRE OS BOLEIROS, ESSA CARACTERÍSTICA PEGA MUITO MAL…

    OS CARAS NÃO VÃO CORRER POR ALGUÉM QUE NÃO GOSTAM, QUE JULGAM SER PREPOTENTE…

    SEM FALAR QUE CONCORDO SOBRE O QUE FOI ESCRITO DA NECESSIDADE QUE ELE TINHA DE TER SE PREPARADO MELHOR…

    ENFIM, VAMOS VER O QUE ELE FAZ COM ESSE REMONTADO SÃO PAULO, ATÉ PQ PIOR DO QUE TAVA É DIFÍCIL…

  2. Ele ainda vai calar os críticos!

    O Tricolor com os novos gringos, o Maicosuel (que todo mundo zoa, mas é bom de bola), o Petros (que já deixou o Elias no banco nos tempos de Corinthians), o Cueva emagrecendo e com o Jucilei e o Lucas Pratto, vai dar liga!

    Me cobrem no fim do ano! Pelo menos uma Liberta a gente belisca!

    Abs e parabéns pelo alto nível das colunas postadas!

    1. Concordo quando analisamos o trabalho do treinador. Mas ele é o elo final de uma corrente que começou com JJ III, se repetindo de forma irritante até chegar a Leco. Elefante não sobe em árvore, então RC é treinador porque alguém incompetente o escolheu. E age exatamente como o esperado, com falhas de critério, claudicante, exatamente como mencionado pelo Gustavo.
      Assino embaixo, reiterando que o responsável por isso chama-se Leco, mas o RC aceitou o desafio sem a humildade de reconhecer que era cedo.
      No final, nós pagamos.

  3. Muito bom! Só discordo de quando fala de um retrocesso tático do atual Campeonato Brasileiro. Eu penso que é o contrário, que estamos em evolução nesse sentido, com as equipes estando mais compactadas, sem brucutus no meio, centroavantes participativos etc. E penso que Corinthians e Grêmio têm um nível tático como nunca vi no nosso futebol.

  4. Vaidoso arrogante se acha o máximo pelo que fez no passado
    Para ser um grande treinador não necessariamente é preciso ter sido um bom jogador
    É necessário saber administrar vaidades ter um dialogo frango com quem dirige e principalmente assumir os erros e delegar a equipe os méritos
    Teve a petulância de dizer que seria técnico apenas no Sãopaulo provavelmente sei primeiro e único time

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