O choro de quem mais fez chorar com o VAR

Créditos da imagem: ESPN

VAR pra Porto Alegre, tchau? Menos, menos

Não está sendo fácil implantar o árbitro de vídeo na América do Sul. Além dos erros conceituais (final da Copa do Brasil) e conclusões espantosas (expulsão de Dedé), aparecem situações além do imaginável. É razoável que se questione. Mas é preciso analisar sem mágoas. Determinados lances podem escapar das câmeras usadas pela arbitragem. E outros podem ser percebidos apenas por elas. Ambas as hipóteses, claramente, ocorreram ontem. Um possível gol irregular passou batido e um pênalti que ia saindo de fininho foi pego no pente fino. O placar foi o mais justo possível. Não necessariamente, em termos de infrações, o mais justo. Porém, sempre se soube que algo assim poderia ocorrer.

No gol de empate do River Plate, Borré cabeceou e a bola resvalou em seu braço. O locutor Gustavo Villani percebeu algum desvio, acreditando que fosse em Jael. O replay não sugeriu sequer isso. Apenas minutos depois uma imagem da TV, aproximada e congelada, mostrou o toque no braço. Uma percepção mais rápida só seria possível, a meu ver, se o VAR utilizasse tecnologia em 3D – o que, economicamente, estimo ser inviável. Porém, ainda que houvesse todo este aparato, seria discutível chamar o árbitro para ver o lance. No critério de pênalti, uma bola cabeceada que toca no braço do próprio atleta foi sedimentada como lance normal. Em caso de gol, isso muda? Há quem pense que sim, há quem defenda que não. Ou seja: o lance se torna interpretativo e, por norma, sai do VAR – a não ser que o árbitro seja da primeira corrente e não tenha visto o toque.

Minutos mais tarde, o pênalti que daria a vitória improvável – até então – dos argentinos. A crítica é que nem os jogadores do River Plate perceberam. Isso muito se explica pelo fato de que o jogador, ao iniciar o movimento de chute, estava de costas para Bressan. Não conseguiu ver que onde a bola desviou. Assim, só pediu escanteio. Como o toque e o posicionamento não-natural do braço foram claros (para mim, um bloqueio intencional em momento de pânico), o pelotão do vídeo corretamente chamou o árbitro para constatar a penalidade. Não existem, nas regras do VAR, quaisquer exigências de que só pode ser revisto lance em que um dos times reclama. Nem poderia existir. Ao contrário do que defendem os adeptos do “desafio”, tal medida teria dois possíveis efeitos: 1 – sepultar o vídeo em jogadas capitais; 2 – criar um novo abismo entre clubes ricos e os demais. Explico a seguir.

Pela distância dos lances capitais e pela velocidade do jogo, os treinadores não teriam segurança para pedir desafios – que certamente seriam limitados a um ou dois (mantendo em caso de acerto), para o jogo não paralisar toda hora. Mesmo com auxiliares em posições estratégicas, a convicção seria improvável. Assim, ainda que se mantendo a iniciativa da arbitragem em impedimentos e revisões, diversos pênaltis e lances de expulsão passariam impunes. Inclusive porque, agora, a televisão só os mostra após certo lapso temporal. A alternativa seria clubes montarem suas equipes de VAR paralelas, a fim de informar lances passíveis de desafio. Evidentemente, os maiores teriam imensa vantagem. No lugar de reduzir as queixas, introduziriam até o componente ideológico no esporte. Imaginem a ira dos autoproclamados comentaristas do proletariado.

Vale lembrar que, ano passado, o River Plate foi eliminado porque não teve a aplicação do VAR em lance de mão na bola. A explicação foi que, naqueles confrontos, o sistema só era usado a pedido do árbitro, sem chamamento. Um desastre. Outra: o Grêmio foi beneficiado nos dois jogos da Recopa, com expulsões justas pelo VAR. Era, até ontem, o time brasileiro mais socorrido pela arbitragem de vídeo. Reclamar dela agora, por causa de uma jogada quase imperceptível (no estádio e na tela), é cinismo tecnológico. Mais: Bressan sabia o tempo todo que um gesto daqueles seria visto. Ninguém mandou fazer o que fez. Imortal não é sinônimo de invisível.

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