Antônio Wilson Honório, o Coutinho

Créditos da imagem: Reprodução Correio24horas

Alguém disse, narrando ou conversando -curto a dúvida porque é tão difícil afirmar quanto era marcá-lo-, que Canhoteiro, maior ponta esquerda que os apreciadores do futebol-arte viram jogar, “fazia de um quadrado do tamanho de um lenço, um latifúndio”.

Canhoteiro jogava junto à lateral do campo, cercado por um único marcador, nem sempre íntimo da bola, que Osmar Santos chama de “gorduchinha”. Não era fácil, bem ao contrário, mas era, garantido, menos difícil do que enfrentar, nos mesmos tempos, Antônio Wilson Honório. Ou simplesmente Coutinho, talvez para justificar, sem explicar, seus três nomes próprios.

Coutinho, a alma gêmea de Pelé, fazia igual, ou melhor, ouso dizer, não “lá no canto do campo”, mas dentro da área. Lugar precioso, guardado por leões. Não um, nem dois, mas três, quatro, às vezes mais, porque se revezavam.

Não lá longe, mas ali, de pertinho, zona mortal – e não morta. Ouvindo os gritos dos desesperados goleiros, e as ameaças dos enfurecidos zagueiros. E ele, gordinho, redondo, roliço como a bola -talvez por isso a intimidade suspeita entre eles-, calmo, irritantemente calmo, quase displicente, sorrindo, debochado.

Numa tarde quente de domingo, fiz companhia a um médico, senhor de respeito, camisa de manga comprida, colarinho fechado, a um jogo do Santos contra o Botafogo, em Ribeirão Preto. Do pequeno estádio da Vila Tibério, saíam torcedores pelo “ladrão”. Lugar, só em pé, no alambrado, atrás do gol.

E foi ali que vi doutor Renato, são-paulino de fé, perder a “compostura” e subir pelo alambrado como um guri. Coutinho recebeu dentro da pequena área, chutou o chão na direção do canto esquerdo, viu a poeira roxa subir e o goleiro cair, antes de, sorrindo, tocar, levemente, do outro lado. Quando “voltou da lua”, doutor Renato perguntou-me: “você viu?”. “Sim, vi”, respondi. E tenho visto tantos…

Contaram 368 gols oficiais – a quase totalidade com a camisa alva do Santos. Mas ele, por muitos anos, garantiu que foram mais. Dizia terem roubado alguns, creditados a Pelé. Chegou a curtir certa mágoa, porque o chamavam de “parceiro do rei”. Por uns tempos, cobriu o punho direito com esparadrapo, para que os locutores, lá de cima, não creditassem para Pelé -que não precisava- alguns de seus lances geniais.

Era fácil distinguir um do outro, além do número nove nas costas dele, e do 10 de Pelé. Existiam outros detalhes que nem todos notavam: Pelé era volúpia, força aliada a classe. Coutinho era a classe aliada a classe. Talvez nunca tenha dado um pique de 30 metros, nem procurado a bola. Sabia que ela chegava obediente. E, em retribuição, talvez jamais tenha “batido na cara da bola”. Não, ele a tocava com carinho, como se tocasse uma rosa.

E se disserem que algum de seus chutes alcançou velocidade superior a 10 quilômetros por hora, diga: “é mentira”.

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