Descanse em paz, Eurico Miranda. E nos deixe em paz

Créditos da imagem: Reprodução Globo Esporte

“Um ícone!”; “Cometeu alguns erros, mas fez tudo pelo que amava!”; “Histórico!”. É o que está sendo dito sobre Eurico Miranda, sobre o qual se criou a fantasia de que fazia tudo “pelo Vasco” não por si mesmo. Poderiam se referir – e assim o fizeram – a diversos outros elementos idolatrados em todas as áreas. Não resistem a um culto à personalidade bem feito. Por “bem feito” não quero dizer que fez bem, e sim que soube suplantar a racionalidade coletiva. Abraham Lincoln dizia ser possível enganar alguns o tempo todo. Só que alguns, entre duzentos milhões, são muitos. E chorosos quando seu enganador se vai.

Desavisados, pois sim, existem e sempre existirão. O incômodo é quando este desaviso é incentivado por quem deveria informar. Pelo menos duas das três assertivas entre aspas, no parágrafo acima, foram escritas em noticiários do óbito de Eurico. Jornalistas se calavam solenemente durante sua ditadura, por interesses nada esportivos. Nos anos 1990, o dirigente ofendeu o locutor Januário de Oliveira, em matéria da revista Placar. Quando este foi convidado a se manifestar, disse que não podia. Motivo: a Bandeirantes precisava do apoio de Eurico para transmitir o campeonato brasileiro. Sim, é por isso que Luciano do Valle, com todo o peso de sua credibilidade, preferia se calar e não raro ser gentil com o Vasco – indiretamente, elogiando os fantoches do caudilho. A ditadura dos interesses econômicos jamais incomodou a “imprensa livre”. Pelo contrário. Nunca faltaram sorrisos.

Os “alguns erros” de Eurico Miranda transformaram um clube grande, com muitos simpatizantes fora do RJ e estrutura ganhadora, neste Vasco apequenado e sem perspectiva que estamos vendo. Não que seus sucessores tenham sido bons, porém a semente da decadência estava plantada e regada por anos pantanosos. Ainda assim, seguiu e segue sendo reverenciado. Sim, mortos como ele também merecem respeito e condolências. E só. Muito menos quando pegaram a paixão de terceiros e dela se serviram em todos os sentidos. Os clubes sempre significam a caudilhos uma única coisa: poder. Poder que garante dividendos financeiros e uma satisfação pessoal doentia, da qual não conseguem mais se desvencilhar. Eurico já estava com a doença ao tempo de mais uma confusa eleição vascaína. Preferiu atrapalhar de novo a se tratar como poderia. Típico.

Além de minimizar as condutas ilícitas, outro recurso de desonestidade intelectual é chamar gente como Eurico de “folclórico”. Como se o uso desta palavra transformasse um senhor inescrupuloso num mero “tio maluco – reaça ou comuna – e divertido”. Suas grosserias são editadas até parecerem tiradas geniais. Não será surpresa se suas constantes ofensas homofóbicas virarem “autênticas” contra o politicamente correto – quando, na verdade, consistiam em falta de argumentos contra justas e raras críticas. Tampouco me espantarei se disserem que, “tirando a parte ética”, é melhor um dirigente como Eurico que estes “engomados de faculdade”. Afinal, outra característica destas figuras é desdenhar do conhecimento. Bom mesmo é ser ignorante para angariar admiradores entre outros ignorantes. Talvez a única maioria que consegue prevalecer.

Não pensem que soltei rojões com seu falecimento. Ver uma pessoa adoentada em público comove a mim, como ser humano. Não celebro doenças como punições, até porque quem faz isso está convidando o destino a fazer o mesmo com entes queridos. Ademais, por tudo o que coloquei, é sabido que sua morte é capaz de promovê-lo muito mais do que tirar sua presença de cena. Não estivessem os meios de comunicação agindo como carpideiras, gastar meia linha com este óbito seria desnecessário. Como as coisas não são como gostaria, aqui estou maltratando meu fígado com essa coluna. Melhor encerrar por aqui, antes que o doente seja eu.

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