O atleta profissional de fato

Créditos da imagem: Michell Santana / Arquivo Pessoal

Um dos temas mais relevantes da economia e política brasileira da atualidade é a reforma da Previdência Social. E podem ficar tranquilos, pois não vou abordá-lo aqui. Deixo isso para especialistas e gente bem mais preparada que eu falar. Cada macaco no seu galho.

Mas esse tema trouxe novamente um assunto que envolve os atletas de futebol, muitos ditos profissionais. Em matéria do UOL de 22/Fevereiro fala-se sobre a dificuldade que os atletas de futebol terão de se aposentar com as novas regras. E daí voltamos a um debate que já passou da hora de existir, que é a quantidade de clubes e atletas profissionais no Brasil. Para variar, no Brasil se discute o supérfluo e deixa-se o essencial de lado. Talvez porque dê trabalho, talvez porque não dê capital político, ou simplesmente porque adoramos enfeitar o pavão, enquanto as galinhas que nos alimentam morrem de frio.

A CBF faz com certa recorrência um relatório que é uma espécie de raio-x do futebol brasileiro, em termos de contratos e transferências. O mais recente tem dados de 2017, e trago alguns deles para ilustrar o tema. No ano de 2017 havia 722 clubes profissionais de futebol no Brasil, com 24.841 atletas. Mas desses, 41% (8.938) tiveram naquele ano contrato assinado pelo ano todo, ou seja, 12 meses. Os demais tiveram contratos por tempo menor, geralmente 6 meses.

No mesmo relatório, mas de 2015, a entidade apurou que do total de atletas profissionais de futebol no Brasil, 82% ganhavam menos de R$ 1.000,00 mensais, enquanto outros 14% ganhavam entre R$ 1.000 e R$ 5.000 mensais. A renda domiciliar média brasileira é da ordem de R$ 1.268 mensais (fonte IBGE, dado de 2017). Ou seja, certamente pouco menos de 90% dos atletas brasileiros de futebol recebia em 2015 menos que a média nacional de renda, e esse cenário não deve ter se alterado desde então.

Daí temos a seguinte situação: o atleta reclama que não conseguirá se aposentar com a nova regra da Previdência, desde que seja aprovada, pois o tempo de carreira é de cerca de 20 anos e a demanda para aposentar será de pelo menos 35 anos de contribuição. Ora, esse atleta que já ganha perto de 1 salário mínimo e que não chega a ter 1 ano completo de contribuição já não deveria ter acesso a aposentaria que não pela idade. Com contrato médio da ordem de 6 meses anuais, depois de atuar 20 anos, o atleta terá contribuído por pouco mais de 10 anos.

Esse atleta não é profissional, e tratá-lo como amador muda tudo na sua vida e na vida da gestão dos clubes. Não é possível fazer futebol profissional com clubes que atuam por poucos meses no ano e que são incapazes de gerar receita e atrair público. Um atleta que joga 6 meses por ano faz como para se sustentar nos outros 6 meses? Qual a formação que tem para seguir a vida quando esse período de ilusão acabar?

Nesse sentido, o equívoco complementar é acreditar que haja 722 clubes profissionais de fato no Brasil. Não existem. Fiz um levantamento de público nos estádios ao longo deste início de campeonatos estaduais, a partir de informações disponibilizadas pelo Globoesporte.com. Vamos primeiro detalhar o Campeonato Paulista, principal regional do país em termos de divulgação e receitas. Para se ter uma ideia, exceto os 4 grandes, Guarani e Ponte Preta, os demais clubes do Paulistão recebem R$ 3,3 milhões de cota de TV, para jogar 4 meses. E vamos ver o público nas primeiras rodadas:

Aqui temos os dados reais de Público Médio e Ticket Médio depois de 4 rodadas como mandante, o que significa 8 rodadas. Note que exceto pelo Novorizontino, cujo Ticket Médio deve estar impactado por algum jogo contra grande, nenhum time consegue alcançar receita total de bilheteria acima de R$ 1 milhão nas projeções. E sendo menos conservador, podemos dizer que alguns chegarão a este valor, considerando jogos contra grandes ainda não realizados.

Mas falamos de R$ 1 milhão daqui, R$ 3,3 milhões da TV, alguma coisa de Patrocínio e premiação, e para 4 meses um clube do Paulistão receberá quanto? R$ 5 milhões brutos? A maioria nem isso, como vemos os casos de Mirassol, São Caetano, entre outros.

Como se faz futebol profissional com essas receitas? E como se diz que os Campeonatos Estaduais são relevantes com este perfil de público nos estádios? Mas vamos a outros estados, com informação um pouco mais resumida:

Utilizo 5 estaduais como exemplo. Aqui temos a média geral depois de cerca de 8 rodadas; na sequência, a média sem os 2 maiores clubes (em presença de público); a receita total potencial baseada no Ticket Médio; e por fim a média de público dos 2 maiores clubes de cada campeonato.

Note que no segundo campeonato em relevância (Campeonato Carioca), por estar num estado populoso, o campeonato gera pouco mais de 2 mil pagantes por jogo, e nessa conta estão Botafogo e Fluminense. Os demais apresentam menos de 2 mil e há clubes que arrecadaram menos de R$ 5 mil (total!) com bilheteria. Considerando que em Pernambuco a cota total de TV é da ordem de R$ 4 milhões, como considerar uma equipe desses campeonatos como profissional?

Chegamos então ao ponto central do artigo: o futebol para ser profissional precisa ser estruturado. Os clubes precisam ter receitas recorrentes e capazes de bancar salários ao longo do ano todo. E os atletas precisam ser profissionais, e isso significa ser capaz de se sustentar com a atividade que se propõem a fazem.

Existe um problema de origem que é a ideia de que todo atleta de futebol ganha fortunas no Brasil e um dia jogará na Europa ganhando milhões. Isso é para poucos. Incentivar essa postura é um erro social. Alguém pode retrucar perguntado qual a potencial profissão desse atleta se não “jogasse” futebol. Não sei, mas possivelmente alguma profissão que lhe permitisse estar inserido num sistema onde pudesse contribuir e ter longevidade de carreira, e não chegasse ao final da vida profissional com 35 anos e se perguntasse “O que vou fazer agora?”.

E sobre a questão da Previdência, no lugar de reclamar e se dizer afetado, os atletas já deveriam ter se organizado e proposto um regime especial de aposentadoria, que abarcasse também atletas de outros esportes. Os atletas poderiam lutar por direitos especiais em função da atividade. Mas também precisam oferecer algo em troca. Adequar a profissionalização de atletas e clubes é um caminho para termos apenas clubes estruturados e atletas que sejam corretamente remunerados. Do contrário teremos apenas histórias tristes para contar a cada eliminação de Copa do Brasil ou fim de campeonato estadual com 200 pessoas nas arquibancadas.

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