Cartola vazia

Créditos da imagem: Reprodução UOL

Os três pontinhos do dono de Lisboa

Thiago Alcântara foi espetacular contra o PSG

Um brasileiro brilhou intensamente na final da UCL. Thiago Alcântara, que atua oficialmente como espanhol, poderia ter mudado o nome para Xavi Alcântara após a atuação contra o PSG. Numa noite em que alguns colegas sentiam o nervosismo, sua capacidade técnica foi decisiva para esfriar o plano de jogo adversário. Concretizou, assim, uma definição antiga sobre o ex-companheiro de Barcelona. Há jogadores que ditam o ritmo dos onze de seu time, mas Thiago definiu o de todos os vinte e dois que estavam em campo. Espetacular, certo? Se dependesse dos critérios do Cartola FC, nem tanto. Jornada discreta, e olhe lá.

Jogos de fantasy, aqueles baseados nas performances de jogadores reais, nunca serão totalmente precisos. Mas há imprecisões e imprecisões. Já participei de uma fantasy league de basquete. Os critérios de pontuação expressam boa parte do que se vê numa partida: pontos, rebotes, assistências e turnovers (bolas perdidas). Mais: a proporção entre pontuação geral e minutos jogados é essencial na montagem do time – que segue os moldes da NBA, incluindo drafts. Assim, é quase certo que, entre os atletas, os melhores pontuadores serão efetivamente os principais do mundo real. Isso não acontece no futebol. É muito difícil, num esporte de onze e com funções tão divididas, definir o que cada um fez apenas com meia dúzia de números. Ainda mais quando estes números se referem a situações que, somadas, não refletem 10 % de uma partida de verdade.

Se todo grande time começa com um grande goleiro, toda grande distorção se inicia no gol. No sistema do Cartola, tanto faz se o gol tomado foi indefensável, falha, frango, peru ou avestruz. Estranhamente, há uma pontuação por “defesa difícil”. E o que seria defesa difícil? Para um goleiro bem colocado, tudo parece mais fácil Para o mal colocado, tudo vira lance de goleiro do Fantástico. No ataque, um jogador pode dar três passes açucarados, mas se o gol for perdido de nada contará. Por outro lado, um escanteio convertido com gol vira assistência – e cinco pontos. Mas a cegueira chega ao pico no meio-campo. Prevalece um entendimento raso, que muito tem a ver com a queda de nosso futebol: volante desarma, meia dá assistência. Qualquer coisa além disso, tirando gols, é irrelevante. Não existiu. Um organizador, como Xavi e Thiago, “não é de nada”.

Até aí, pode-se dizer que é apenas um jogo de internet. Mas o que falar se os mundos se misturam? Acontece quando os veículos do grupo informam as pontuações como se fossem fatos jornalísticos. E, principalmente, quando os comentaristas passam a levar a brincadeira a sério. Não me refiro ao uso de estatísticas. Não sendo feito de forma bitolada, ajuda a entender melhor as ações. Só que o Cartola não é estatística. É, quando muito, um décimo de estatística. Uma análise aprofundada de Thiago pode mostrar quantos passes deu, quantos acertou e como se movimentou (com e sem a bola). Forneceria, pois sim, dados sugestivos de sua importância na conquista bávara. Já para efeitos de Cartola, nem a clareada que antecedeu o cruzamento de Kimmich para o gol de Coman contaria, O craque do estádio da Luz se resumiria a três desarmes – e míseros três pontos.

Como disse Rodrigo Mattos, a Globo tem todo o direito de promover seu lucrativo jogo. Mas, ao exercer tal direito por meio da fusão entre jornalismo e entretenimento, emburrece o torcedor e também os aspirantes a boleiros. Ontem constatamos que o melhor meio-campista brasileiro atua pela Espanha. Sorte de Thiago que, além de ser filho de Mazinho (tetracampeão mundial), não tem Cartola nas emissoras europeias. Se tivesse, hoje talvez fosse um volantão (inflando os desarmes) ou um meia-atacante soneca. Seria um jogador muito pior, mas olha só a pontuação…

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