Cinco razões para que as melhores seleções sejam inferiores aos melhores clubes – no mínimo

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Há coisas que catapultam aos olhos, mas falta coragem de cravar. Sou fã de tênis e fiquei impressionando como levou quase dez anos para que, enfim, admitissem que o estilo de saque e voleio estava superado – por força do equipamento que permitiu melhores e mais constantes devoluções no pé. No futebol, talvez o grande tabu seja reconhecer que a Copa do Mundo não é mais – e não voltará a ser – o evento com o melhor futebol mundial. Por outro motivo que só não vê quem não quer: as seleções não têm como atingir o nível dos melhores clubes. Esta coluna traz uma lista com as principais – e óbvias – causas. Vejamos:

1 – clubes podem ter melhores jogadores que as seleções – por mais brilhante que seja a geração de um país, será inferior à somatória dos demais. A atual campeã, França, tem nomes de gala como Mbappé, Griezmann, Pogbá, Kanté e Coman. Mas um clube bilionário pode contratar todos estes e outros. Em 2018, o campeão mundial de clubes era o Real Madrid, com Cristiano Ronaldo, Benzemá (fora de sua seleção), Bale, Casemiro, Marcelo e Kross. Graças às regras atuais para estrangeiros, os clubes podem formar seleções internacionais, não raro sem nenhum jogador com a nacionalidade da equipe.

2 – clubes podem treinar (muito) mais – enquanto um time tem pré-temporada e dezenas de semanas para se aprimorar, uma seleção só se reúne para datas FIFA e a três semanas antes das Copas continentais e da Copa do Mundo. Nas datas FIFA, o que os jogadores conseguem memorizar logo é esquecido com a volta aos clubes. Nestes curtos períodos, ainda se perde tempo com as viagens e, antes das Copas, com os exames prévios e a necessidade de dosar esforços para duas partidas por semana – com quatro podendo chegar a 120 minutos.

3 – clubes se “vingam” do “vírus FIFA” – durante as temporadas clubísticas, o terror de técnicos e torcedores é o estado em que os atletas chegam de suas inúmeras seleções. A alta probabilidade é de ao menos um desfalque em partida importante. Quando a temporada acaba e chegam as competições entre seleções, vem o reverso da fortuna. Como as Copas costumam ser em junho e os principais nomes atuam na Europa, apresentam-se altamente desgastados. Não bastasse o risco de lesões que limita treinamentos (ver item acima), os melhores atletas simplesmente não conseguirão produzir o melhor de suas individualidades – o que já seria difícil com o desentrosamento.

4 – atraso tático – com períodos exíguos para treinar jogadores de várias equipes, seria insano pensar em linhas defensivas muito adiantadas, agressividade na frente e constantes movimentações. Para se conseguir isso sem dar avenidas aos adversários, é preciso treinar muito e estar com as pernas em dia. O jeito é preparar as equipes de forma “conservadora”, não raro recorrendo a pragmatismos. Fica muito difícil abrigar, a contento, os melhores selecionados de cada país. Com poucos dias para ajustes complexos, alguns acabam sendo reservas ou tendo que se adaptar a funções bem diferentes do que fazem nos clubes.

5 – clubes jogam temporadas anuais, não de quatro anos – entre a ressaca pós-Copa e a edição seguinte, acontece muita coisa. Uns atletas envelhecem, uns evoluem e outros involuem. Até a chamada “boa dor de cabeça” (mais de dois nomes para uma posição) é uma enxaqueca dos demônios. Quando a maioria acredita ter encontrado o time ideal, um jogador se machuca, outro entra em má fase e, afinal, cada imprensa do mundo tem seus Casagrandes exigindo chances ao destaque de uma única partida. São mudanças e contratempos em quantidade quatro vezes superior ao que se passa num clube – mesmo que seja um Barcelona em ebulição.

Pode haver, eventualmente, uma atenuação destas diferenças. A próxima Copa começará em novembro de 2022, o que significa que os atletas chegarão inteiros. Isso deve fazer com que jogadores atuem melhor em todas as fases. Porém, as outras diferenças seguirão as mesmas. Vai melhorar (se é que o calor não anulará esta benesse), mas longe de chegar ao nível que apresentam os clubes. A Copa do Mundo segue valendo pela tradição e pelo entusiasmo popular. É assim mesmo que deve ser. Só não se pode enganar as pessoas. É o maior torneio, mas seus dias de melhor torneio ficaram para os grandes museus do futebol.

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