Fantasia, realidade e bastidores da história de Éder Jofre

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

A Rede Globo vai exibir a partir de hoje, em quatro capítulos, a minissérie contando a vida do pugilista Éder Jofre, sob o título “10 Segundos Para Vencer”. Vi o filme na noite de apresentação, numa das salas do Shopping Iguatemi JK, a convite do Marcel Jofre, filho do Éder, e torço para que o final na televisão seja diferente do apresentado no cinema: quando mostram Kid Jofre, pai e técnico do Éder, sofrendo infarto no finzinho do combate contra José Legrá, em Brasília, momento em que o boxer brasileiro ganhava seu segundo título mundial (este dos penas, o primeiro dos galos).

Eu estava lá, cobrindo a luta para a revista em que trabalhava, após longa e dura luta para que a direção abrisse páginas para ela, contornando os problemas de prazos industriais – afinal, era a disputa de um título mundial em um esporte importante em que temos pouquíssimos campeões. A luta foi no dia 5 de maio de 1973 e Kid faleceu em São Paulo, em 1975. Sei que filmes não precisam seguir fielmente os fatos reais, permitindo uma dose de fantasia, mas acharia melhor se tivessem encerrado com o que de fato aconteceu.

Durante longo tempo os promotores e autoridades tentaram convencer Éder a presentear o presidente Médici com o par de luvas que havia usado para vencer José Legrá por pontos, numa luta muito difícil, na qual chegou a sofrer uma queda, segurando-se nas cordas, mas tocando com o joelho no tablado, no finzinho do terceiro assalto, sendo salvo pelo gongo. Tinha tempo para que o árbitro abrisse a contagem de 10 segundos? Legrá e seus empresários achavam que sim – a fotografia eu trouxe para casa. Foram muitos os minutos gastos por Abraham Katznelson e Marcos Lázaro, promotores da luta, para que Éder, finalmente, aceitasse homenagear o Presidente da República com uma das luvas. Não as duas. A outra, bateu pé, colocaria no túmulo de sua mãe – que, costumava dizer, brincando, recebeu seus primeiros cruzados, quando ainda estava em sua barriga.

A revista tinha de cumprir cotas, entregar a cada dia determinados números de páginas. Para domingo, último dia do fechamento e da luta, restavam pouquíssimas. O diretor não tinha como mudar as regras da gráfica. E eu, por todos os motivos – gostar de boxe, acompanhar a carreira do Éder, ter escrito uma série de dez depoimentos com ele ensinando boxe e ilustrando as páginas com os desenhos que aprendeu com mestre Aldemir Martins – lutava para que ele desse um jeito. O que aconteceu com um desafio. O diretor disse:”se você for capaz de escrever e entregar até sexta-feira, pode escolher o número de páginas”. E eu o surpreendi pedindo quatro páginas. Que preenchi com os pés nas costas. Deu e sobrou.

Conhecia tudo e fui bater um papo com Éder. O título foi neutro. Servia perfeitamente para o dia seguinte da luta. “Agora vou descansar”. O texto, quase todo na primeira pessoa, era uma reflexão sobre a vida até ali e sobre o que poderia acontecer depois. Assim: “Quando meu filho Marcel nasceu, não cabia mais ninguém nos corredores e salas da maternidade. Vi muita gente subindo em cadeiras, mesas, onde era impossível subir. Demorei quase uma hora para chegar ao berçário. Jornalistas, fotógrafos, televisão. Muita gente famosa. Nunca vi tantos amigos juntos, pensei”.

“Quando minha filha Andréa nasceu, foi tudo diferente. Não tinha ninguém nos corredores, repórteres, fotógrafos, as pessoas famosas que antes me paravam na rua e faziam questão que eu aparecesse em suas festas. Na maternidade, só eu, um e outro parente, e meu amigo Osvaldo Ferro, que convidei para padrinho da Andrea. Nunca vi tantos amigos ausentes, pensei”.

Quando Marcel nasceu, Éder era campeão mundial dos galos. Quando Andrea nasceu, Éder havia perdido o título para o japonês Masahiko Harada.

“Agora não sei o que vou fazer. Continuo ou paro? Só sei que vou sumir”.
Éder divagava sobre a infância pobre, mas feliz. A casa sem luz elétrica e sem água. A rua cheia de barro e mato, onde pegavam cobras, matavam e enterravam. Nadar nas lagoas formadas às margens do rio Tietê.

Depois de perder o título para Harada, Éder parou de lutar. Tinha boa condição financeira, curtia a casa e a piscina do Clube Esperia. Não voltou por causa de dinheiro, embora tivesse tomado uns tombos em negócios e com falsos amigos.

“Voltei ao boxe porque um dia o Marcel, inocentemente, me perguntou como eu ganhava a vida, por que não saía para trabalhar como outras pessoas. Não respondi a ele. Fui treinar”.

A revista vinha promovendo a luta. O José Campos tinha escrito uma reportagem onde o Éder dizia: “Estou tinindo”. E eu uma outra, estilo provocação. No título, dizia Legrá: “Vou matá-lo”. E resposta do Éder: “Só quero ver”.

A relação do Éder com os empresários não estava pacifica. Escrevi dias antes uma reportagem em que criticava Katznelson e Marcos Lázaro. O título era: “O boxe de uma luta só”. Na linha fina: “Promover grandes lutas é fácil. Difícil é fazer lutadores”. E no texto: “Os promotores da luta Éder x Legrá vão ganhar quase dois milhões de cruzeiros, quase o dobro do que vão gastar. Ótimo para todos que estão ligados a ela. Ruim para o boxe, que continua esperando quem o promova por amor”. Ia longe…

E na véspera da luta, sábado, 4 de maio, quando fui pedir minha credencial no guichê do ginásio, Marcos Lázaro disse: “para vocês não tem credencial”. Respondi: “Tudo bem. Por favor, duas cadeiras de pista”. Ele resmungou e me deu credenciais – na arquibancada, meio da torcida.

No final da luta, quando a porta do vestiário foi aberta, fui abraçar Éder e ele se afastando, me disse: “Por favor, hoje não. Tô todo moído, Hoje nem a Cidinha vai me abraçar”.

Uns dias depois, foi à revista e me presenteou com um dos pares de luvas que usava nos treinos para a luta. Com direito a dedicatória para meu filho. A relíquia desapareceu na mudança de casa…

Imagem: Folhapress

Obs: Além das quatro páginas fechadas e impressas com antecedência, a direção se convenceu de deixar duas para domingo. Vieram três telefotos e um texto de umas 20 linhas. Título da cobertura: “A volta do Éder, o pena de ouro”. E ele na capa da revista, braços erguidos, pouco antes de Rogério dos Amortecedores conseguir que vestisse a camisa do São Paulo, seu time do coração.

4 comentários em: “Fantasia, realidade e bastidores da história de Éder Jofre

Deixe sua opinião e colabore na discussão