Grandes trabalhos demoram para ser destruídos

Créditos da imagem: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Já passou o tempo de não reconhecer o papel de Renato Portaluppi no sucesso atual da equipe do Grêmio. Apresentando um futebol exemplar nessa fase de transição da temporada, entre a preparação prolongada com os exagerados estaduais e os grupos da Libertadores, e o início da disputa do Brasileirão -, a evolução da equipe, que iniciou com Roger em 2015 e sofreu poucas mudanças desde então, é notória. E Renato leva todos os méritos por isso.

Primeiro, o grande treinador não é feito apenas de conhecimentos técnicos. É também forjado em cima da inteligência como indivíduo comum. Precisa saber selecionar valores que devem ser preservados de seus antecessores. Quando chegou ao clube, em setembro de 2016, Renato identificou os pontos a serem corrigidos, mas, principalmente, soube ser astuto para reconhecer todo o trabalho muito bem executado por Roger. Sem neuroses de autoafirmação, não fez cerimônia para preservar a identidade tática da equipe ao perceber que não era esse o problema que estava levando o time a rolar ladeira abaixo no Brasileiro. O Grêmio atual tem a mesma mecânica desenvolvida ao longo de um ano e meio pelo atual treinador do Atlético Mineiro. E há a interferência de Renato nisso, pois, talvez, mais difícil do que acertar a montagem de uma equipe é conter o ímpeto pessoal de trocar a assinatura de um funcionário anterior pela própria nos protocolos de trabalho. O Grêmio não precisava mudar, não mudou, e agora amadureceu e progrediu seu nível de jogo.

Segundo, havia pontos específicos que deveriam ser trabalhados. Renato, novamente, soube detectar os erros com sua própria observação, mas também com humildade, escutando a crítica, e foi para cima nas correções. A equipe deixou de ser confusa em relação a objetivos e tratou de “melhorar os traços do desenho em vez de ficar colorindo”, chegando aos gols com mais assertividade, aprendendo a priorizar ações em campo e obtendo os resultados que queria. Junto a isso, deu atenção às falhas no jogo aéreo e tratou de posicionar o time individualmente, com ensinamentos baseados em experiências empíricas aos zagueiros. O time parou de tomar tantos gols da mesma maneira – pelo alto.

Essa química entre o legado de Roger e o acréscimo da experiência de Renato, somada à preservação de praticamente todas as peças do time que se consagrou no ano passado – apenas Walace saiu – transformou o Grêmio no atual melhor conjunto brasileiro. O time está pronto. Todos os jogadores sabem o que fazer, pois dominam há muito tempo suas funções, e eventuais substitutos não têm trabalho para oferecer o que sabem e manter o nível do coletivo.

Assim, em um sistema com todas as coberturas e seguranças, fica fácil entrar no time e ter bom rendimento, se o jogador tiver qualidade. O veterano Léo Moura parece dez anos mais novo e não apenas vingou no time desde que chegou, como vem sendo um dos destaques. É fácil explicar: o amplo suporte que recebe lhe permite dosar sua movimentação para minimizar os efeitos da idade, liberando toda a energia para contribuir com sua experiência e técnica indiscutível. Arthur e Michel, novatos no grupo, são beneficiados pelo mesmo motivo. É só entrar e mostrar o que sabe, sem medos, pois há um time inteiro ao redor que divide na medida certa todas as responsabilidades.

O Grêmio atual tem qualidade em Luan, tem abnegação em Ramiro e Pedro Rocha, tem decisão em Barrios e tem imposição em Geromel e Kannemann. Junte tudo isso com muita repetição e dois anos de um trabalho bem-feito, dividido em duas etapas – Roger e Renato -, cada uma com seus pontos positivos, e o resultado é o que se vê jogo a jogo nas atuações de um dos favoritos a qualquer título em disputa na temporada.

12 comentários em: “Grandes trabalhos demoram para ser destruídos

  1. Independentemente dos resultados, o que mais impressiona no Grêmio é como vem jogando bem, dá as cartas no jogo e é o senhor da partida! O Renato já fez excelentes trabalhos no Fluminense e antes no próprio Grêmio, mas sempre foi subestimado pela imprensa que é preconceituosa com quem não segue o estilo “professor” que ela tanto gosta…

    1. Renato é fraco. Acerta o time na sorte, não sabe identificar o acerto e desarruma tudo na primeira oportunidade.
      Já se vê um Grêmio com menos qualidade, quando ele mudou os posicionamentos dos dois melhores jogadores do time, pra poder acomodar o fraco Maicon de volta no time titular.
      O Grêmio tem o seu melhor elenco em muitos anos, tem condições de brigar pelos três títulos. Mas, o Renato não é confiável.

    2. Sempre que eu vejo o Grêmio do Renato, vejo uma postura muito diferente da do Grêmio do Roger. A relação com a bola me parece outra, a equipe parece agredir naturalmente, sempre bem postada, as infiltrações são mais agressivas.

      Tenho a impressão que o Renato revolucionou a equipe, que não é uma mera evolução do Grêmio do Roger. Qual é a sua impressão sobre isso, Gui C. de Azevedo?

    3. Gabriel Rostey, o Grêmio campeão em 2016 tinha trabalho do Roger.
      O Renato chegou e corrigiu basicamente dois pontos fundamentais: o posicionamento defensivo na bola aérea, e ano objetividade do time com a bola nos pés.
      Mas a base do trabalho era toda do Roger.
      Porém, o Grêmio de 2017, que é ainda melhor, não tem nada do trabalho do Roger. O Renato, em alguns pontos até por necessidade, alterou totalmente a forma daquele time jogar.
      O que me deixa ainda com o pé atrás em relação ao Renato, é a escalação dos amigos.
      De certa forma, ele me lembra um pouco o Dunga na primeira passagem pela seleção… Faz um excelente trabalho, montou um time que joga muito futebol. Mas, na hora do vamos ver, por gratidão leva Doni, Julio Baptista e Grafite, mas não leva Victor, Ganso e Neymar… E é mais ou menos o que o Renato faz ainda. Tem feito com o Maicon, faz em menor grau com o Fernandinho, e acredito que ainda fará com Marcelo Oliveira e Douglas.
      Tirando o Fernandinho, os outros três tiveram enorme importância no título do ano passado, mas se machucaram e foram substituídos por jogadores MUITO melhores e que fizeram o time jogar muito mais.
      Mas, o Renato insiste nos amigos. E isso pode tirar todas as possibilidades de conquistas no ano.
      Vou ter mais confiança, se ele passar a rever as situações desses jogadores.

    1. Basta você acompanhar um punhado de partidas do Grêmio pra saber que não é oba boa. O time titular do grêmio está ganhando a 9 jogos seguidos entre Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão. É uma marca impressionante pra qualquer padrão. Não fosse o Corinthians, já seria a melhor campanha da história da era de pontos corridos. Longe de ser pouca coisa.

  2. O segredo do Grêmio é o GuardiRoger ficar passando instruções pro Renato por ponto eletrônico.

    Esse time é do Renato, Espinosa e equipe. Parem de Roger isso, Roger aquilo.

  3. Eu mudaria o título do texto para “Grandes trabalhos demoram para serem CONSTRUÍDOS” porém, para serem destruídos bastam poucos jogos, o Grêmio do Renato está sob este risco. Temos 4 jogadores para 3 posições no meio, Michel, Arthur, Ramiro e Maicon e na frente a mesma coisa, porém temos 5 para 3, Luan, Barrios, P. Rocha, Miller e Everton. Em nenhum dos setores cabem “acomodações” e esta escolha cabe ao Renato, assim como gerir os egos feridos após a decisão tomada. Nas primeiras amostras o Renato não parece estar disposto a entrar neste vespeiro de colocar bons jogadores, em especial o Maicon, no banco. Está correndo grande risco de destruir este grande trabalho construído por ele mo Grêmio, uma pena para gremistas e para o próprio Renato, que está com a faca e o queijo na mão para deixar sua marca na história do Grêmio, agora como treinador, como o mais vencedor da história superando o grande mestre Luis Felipe Scolari. Só cabe ao Renato decidir qual será o desfecho.

    1. É verdade, Leonardo. Eu percebo que me expressei mal no título. Dá a entender que dou todos os méritos do sucesso do time ao Roger. E o texto deixa claro que não era essa a idéia. Pelo contrário. Sigo o entendimento de que o Renato tem méritos – e muito! – nesse momento. Principalmente por não ter jogado todo o trabalho do Roger no lixo, como muito profissional inseguro faz.

      Um abraço!

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