Muralha: a falta de autocrítica e o azar dos incompetentes

Créditos da imagem: André Durão / GloboEsporte.com

Antes de mais nada, é preciso que eu alerte o leitor: acompanho o Flamengo, por baixo, há 17 anos e já vi goleiros tecnicamente piores que o criticado e humilhado Alex Muralha, tema deste texto. Diego, por exemplo, sagrou-se campeão da Copa do Brasil em 2006, foi dono de atuações esporádicas incríveis, mas a carreira medíocre fala por si, e ousaria a cravar que, mesmo encerrada, não foi melhor do que a do moicano goleiro rubro-negro, que até Seleção pegou – sabe-se lá como. Isso sem falar de Robson, Marcelo Carné e Getúlio Vargas, que sequer puderam aparecer na Globo alguma vez e cujos currículos não ultrapassam uma linha relevante. Paulo Victor e Marcelo Lomba até seriam titulares atualmente e qualquer rubro-negro os trocariam pelo moicano arqueiro, mas ambos não chegam a deixar saudades em quem viu Bruno, Júlio César e até mesmo Diego Alves, recém-chegado, mas com credenciais de tirar o chapéu.

Dito isto, faço uma indagação a você, leitor: será Alex Muralha tão ruim assim? Deixo para você responder. Mas a pergunta crítica é: Muralha, você está preparado para ser goleiro do Flamengo?

Em qualquer atividade, você precisa saber o que está fazendo para fazer bem. Necessita estar tranquilo fora do trabalho, sem problemas amorosos ou familiares, limpo de tudo que atinge uma pessoa normal. Se não imune, porque todos somos atingidos por essas celeumas, precisamos ao menos saber deixar a tormenta de lado das 9h às 18h, de segunda à sexta.

O que acontece é que Muralha não está preparado para trabalhar. Se fosse escrever um texto, não saberia diferenciar “mais” de “mas” e escreveria “concerteza” junto. Se fosse vender um carro, cortaria um zero do contrato e passaria uma Hillux por 10 mil reais. Se advogado, perderia o prazo da contestação, e, se médico, erraria o braço gangrenado a ser operado.

Muralha, como qualquer criança cega vê, não está preparado para ser goleiro do Flamengo, e, verdade seja dita, jamais estará novamente, ainda que algum dia tenha parecido estar.

O goleiro foi afastado quando sua performance era ruim, mas não era nem sombra da atual. Foi contestado por ser um “goleiro fora do padrão” de um clube grande, de alto investimento e que conta com jogadores do nível de Réver, Diego e Guerrero. Simplesmente, não era compatível ter Muralha no gol do Flamengo, ainda que o reserva fosse Thiago, um júnior sem qualquer serviço prestado.

Depois disso, entretanto, a confiança de Muralha desabou e seu nível técnico caiu drasticamente. Se teve boa participação no Figueirense e chegou desbancando Paulo Victor no Flamengo (indo parar até na Seleção), esse goleiro não mais existiu depois da barração e da – registra-se – perseguição exagerada de um veículo de comunicação do Rio em particular: o Jornal Extra.

Ocorre que, perseguições à parte, também faltou ao próprio arqueiro um mínimo de autocrítica. Veja, caso eu erre uma vírgula aqui, o editor do “No Ângulo” vai corrigir. Se eu errar duas, ele vai me perguntar se está tudo bem, já que não costumo errar. Se eu errar três, o mínimo que poderei fazer é não mandar mais os textos, envergonhado que estarei, e me aprimorar de alguma forma – lendo mais, escrevendo mais, pedindo pra alguém me ajudar…

Isso acontece em um site, na padaria, no escritório, na obra e no consultório.

No Flamengo e com Muralha, não aconteceu. Erro do próprio goleiro, que insiste em não se ajudar e, claro, dos bem remunerados diretores rubro-negros, que estão lá para garantir o sucesso da equipe, e não a carreira de um jogador.

É notório que, além da falta de autocrítica, inteligência e capacidade, acompanha Muralha também o azar. Afinal, o arqueiro poderia terminar o ano na reserva eterna de Diego Alves, sagrar-se campeão da Sul-Americana mesmo sem entrar em campo e com chances reais de recuperar a carreira em algum clube médio do país, com as capas do Extra ficando no passado.

Mas, já diria o poeta, a sorte só acompanha os competentes. E Muralha esteve, na última semana, fadado não só a colocar a cabeça na guilhotina, como a puxar a alavanca e se degolar, após a improvável lesão de Diego Alves.

Com a falta de autocrítica e sorte do goleiro, aliada à inoperância da cúpula rubro-negra em detectar uma falta de competência – se não técnica, ao menos psicológica – e deter o perigo enquanto era tempo, a equação para o barco rubro-negro afundar em águas sul-americanas está feita.

O jogo mais importante do ano corre riscos maiores do que já aconteceria normalmente, já que hoje o Rubro-Negro é um time sem padrão de jogo e irregular. Não há mais tempo para testes ou chances. Muralha colocou, com a ajuda do Flamengo, sua carreira em risco. Com ela, levou também a chance de o clube salvar a temporada. Afinal, desafio você, leitor, a lembrar um time campeão de qualquer mata-mata com um goleiro do nível do moicano com cara de choro que atua debaixo das traves rubro-negras.

Se insistir no erro, como vem insistindo há meses, o final da noite de quinta-feira será como o 7 de setembro em Belo Horizonte, com mais uma decepção na conta do goleiro, ainda que não o único culpado. Caso opte por um juvenil como Gabriel ou um escanteado e sem ritmo César, o risco de naufrágio na terra da Shakira também será grande.

Eis a sinuca de bico em que a diretoria do Flamengo e o goleiro colocaram uma nação de 30 ou 40 milhões de pessoas por falta de competência, autocrítica e de sorte.

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5 comentários em: “Muralha: a falta de autocrítica e o azar dos incompetentes

  1. Se eu fosse o Muralha, eu pediria uma coletiva e bateria no peito falando que eu seria o cara na decisão lá da Colômbia…

    Afinal, o que mais de ruim pode acontecer? Mais queimado do que ele já está, acho bem difícil que fique…

  2. O QUE ESSE JORNAL EXTRA FEZ COM O MURALHA FOI UMA COVARDIA, PASSARAM E MUITO DO LIMITE!

    QUANTO AO JOGO, CONFESSO QUE NÃO SEI QUEM EU ESCALARIA…

  3. Excelente, Caio Bellandi! No final das contas, acaba sendo uma história triste! O Muralha teve uma ascensão meteórica, eu achei bizarro quando o vi, de repente, na Seleção. Não o conhecia tão bem para poder dizer se era certa errada a convocação, mas achei estranho ele merecer a oportunidade em vez de outros goleiros muito mais consagrados. E em apenas um ano, acaba ficando queimado como não sei se já vi ocorrer antes…

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