Sobre a leveza de Renato Gaúcho

Créditos da imagem: ESPN Brasil

Um dia, o técnico Gentil Cardoso disse: “deem-me Ademir de Menezes que lhes darei o campeonato”. O Fluminense deu e ganhou o título carioca. Gentil era dentista de profissão, negro e gordo.

Diziam que o jogador brasileiro, talvez pela maioria ser da raça negra, tremia nas decisões. Diziam que Vicente Feola, ex-alfaiate, gordo, branco, dormia no banco durante os jogos. Feola e um time com muitos negros ganharam a Copa de 58 na loira Suécia. Feola não dormia e não tinha passado como jogador.

Um dos apelidos “internos” do Luís Alonso, vitorioso técnico do Santos, era Leiteiro, pela atividade que antes havia exercido. E “Homem do Braço de Ouro”, porque algumas vezes que o Santos foi jogar no Peru, ele esteve ausente no momento da partida. Tinha ido comprar pulseiras de ouro em outras cidades.

Gentil, Feola e Lula eram gordos e não jogaram bola. Gentil usavas belas tiradas para orientar o time: “meu filho, a bola é de couro, o couro vem da vaca, a vaca se alimenta de grama. Rola a bola, meu filho…”. Maldosos chamavam Feola e Lula de “distribuidores de camisas”. Não era assim, mas eles não atrapalhavam quem sabia jogar.

Osvaldo Brandão foi um lateral de poucas qualidades. Não fez cursos no exterior, não riscava esquemas na lousa e ganhou títulos pelo Palmeiras, São Paulo, Corinthians e times uruguaios e argentinos. Estilo “paizão”, liberava para os craques, que resolviam os jogos, e apertava para os cabeças de bagre, aos quais negava, até, o direito de ter carrão. Místico, ninguém duvida que ele sonhou com Basílio marcando o gol do título do Corinthians em 1977. Brandão era gaúcho, como Felipão, também lateral de poucas qualidades e estilo paizão. Paizão durão, vencedor onde e enquanto aceitam seu estilo.

Zagallo foi um jogador tático. Pelo menos por aqui, o primeiro a entender – e aceitar o que Feola pedia – que é preciso saber defender para bem atacar. Como técnico, na Copa de 1970, dizia que Tostão e Pelé não podiam jogar juntos. E arrepiou os cabelos quando os jogadores propuseram a ele escalar Rivelino e não Paulo César Caju. Onde já se viu, três meias, camisas dez num mesmo time? E ouviu que os três, craques, se ajeitariam no campo. E se ajeitaram.

Coutinho e Parreira não jogaram bola, não eram paizão, mas eram estudiosos do futebol, e impunham respeito.

Coutinho seria um gênio na profissão. Um José Mourinho, um Guardiola, porque, além de estudioso, sabia e podia se comunicar em outras línguas. Luxemburgo, estudioso (mas sem cultura), sem quem bem o aconselhasse, deu tiro no pé quando quis responder jornalistas espanhóis falando (péssimo) “portunhol”. Virou galhofa. E aí…

Guardiola foi um jogador mediano, mas obediente. Escutava e guardava o que ouvia dos técnicos – entre eles Pepe, ex-ponta do Santos, quando trabalhou no Mundo Árabe. E, como Mourinho, sabe que não basta saber montar um time – é preciso ter grandes jogadores, que executem o que pensam e propõem. Cobram caro para poderem se impor. Que outro técnico não tentaria escalar Agüero e Gabriel Jesus juntos? O hermano curtiu banco até descobrir que só tinha vaga para um. Hoje é a vez do brasileiro. E insiste para que Gabriel aprenda inglês – o que o fará jogar melhor, por entender os companheiros, a torcida, a vida.

Aimoré Moreira dizia que não dava para passar mais que três orientações para os jogadores. Na quarta eles jogariam tudo para o alto. Hoje mudou. Filmam adversários, sabem o tamanho das chuteiras que calçam, fazem gráficos, fecham treinos… Tudo é válido e melhora, mas não basta. Tite faz isso, mas não abre mão de ser, também, paizão. Fala “difícil” com a imprensa, mas troca em miúdos com os jogadores. Vai mesmo é no idioma do boleiro.

Renato Gaúcho não foi leiteiro, não foi alfaiate, não comprou quilos de pulseiras de ouro nas viagens, nunca foi um jogador tático – ao contrário, era explosão, decisivo -, foi craque e não pé-duro. E parece ser sincero quando diz – em outras palavras – que sabe tudo da profissão e não precisa queimar as pestanas. Tem dois trunfos que substituem quase tudo o que os citados foram ou são: não se desespera por dinheiro, não entra em depressão se tiver que voltar ao futevôlei. E conhece, por as ter vivido, todas as manhas dos jogadores. Podem tentar, mas não o enganam. Dá liberdade numa cidade onde não tem muito para onde fugir. E não passa mais do que três recomendações.

Não é o estilo que leva vida longa num mesmo clube. E não parece morrer por isso.

15 comentários em: “Sobre a leveza de Renato Gaúcho

  1. Eu sou fã do Renato e a imprensa nacional tá tendo que engolir ele!!!!!!! E tem mais, se ganhar a Liberta, sem dúvidas vai ser o técnico do ano, ele tá fazendo milagre com esse Grêmio!!!!!!!!

  2. LEVE PORQUE É RICO E TAMBÉM PORQUE SABE QUE MANJA DO ASSUNTO, APESAR DE AINDA SOFRER MUITO PRECONCEITO POR SER “BOLEIRO”.

  3. Que texto!!!! Como sempre, perfeito, mas no início assustei, quando você disse que Gentil queria Ademir, para ter um título, imaginei que Renato diria ” me deem Cícero que lhes darei a Libertadores”. Mas sou fã do Renato técnico e pessoa.

  4. Eu sou fã do Renato! Fez o time mais moderno do Brasil e é totalmente sem afetação (no sentido de querer transformar futebol em “ciência” ou em ser “professor”) e não reza pela cartilha dos “inteligentinhos”: seria muito mais fácil ele começar a falar o que sabe que a imprensa em geral quer ouvir, mas não, ele paga o preço de ser autêntico, ou seja, é um exemplo importantíssimo!

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