Nem Jô, nem Hernanes, nem ninguém. Futebol made in Brasil “sucks”

Créditos da imagem: ESPN Brasil

A ótima temporada de Jô tem gerado pedidos de sua convocação para a seleção brasileira. Já temos são-paulinos mais entusiasmados pedindo chances a Hernanes. Outras sugestões virão. Que Tite não ouça nenhum deles. Nunca um bom desempenho doméstico foi tão irrelevante. Se existem dois exemplos diametralmente opostos, são o futebol jogado pela seleção brasileira e o praticado pelos times brasileiros. A seleção voltou a vencer e convencer. Os campeonatos nacionais, a esta altura, não encantam nem os ufanistas. Seria como defender que a equipe Mercedes contratasse o campeão da Stock Car para correr ao lado de Lewis Hamilton. Vai tomar duas voltas do companheiro.

Exagero? No way. Três anos depois do vexame nacional de 2014, os técnicos até tentaram, entre 2015 e 2016. Mas bem naquelas, porque foi como se houvesse um pacto: “no primeiro turno, a gente agrada os corneteiros; no segundo é chutão & CIA”. Já em 2017 não houve disfarces. Até o suposto “sangue moderno” do calouro Rogério Ceni trocou o pretensioso 3-4-3 por um 4-4-2 com três volantes fantasiado. Não foi o único. Os já estabelecidos deram um tempo na transição de segundos e terceiros volantes para armadores. Resultado prático: quem toma a iniciativa mais perde do que ganha. Nem a partida do líder contra o lanterna, com estádio cheio, tem morto de véspera. Também voltaram os buracos entre defesa, meio-campo e ataque. E, pasmem, houve quem achasse esses defeitos empolgantes. Comentaristas são capazes de considerar “jogaço” uma partida em que as diversas oportunidades surgem de erros mútuos. Como de costume, veem o que querem.

A seleção brasileira seguiu o caminho inverso. O retorno de Dunga foi a fase depressiva de negação: se não deu certo entre 2010 e 2014, voltemos quatro anos no tempo. A aceitação requereu mais vexames e a corda no pescoço nas eliminatórias. Mas, para Tite, foi bom. Ao contrário de 2014, em 2016 havia mais brasileiros se destacando no futebol europeu, em quase todas as posições. Não foi preciso nenhuma inventividade – o que não é seu forte. Bastou sua modernidade conservadora. As lacunas estavam justamente na armação e na “centroavância” (depois de “volância”, tá valendo qualquer neologismo grotesco). Para o meio, Tite recorreu ao passado, trazendo Paulinho e Renato Augusto da China. O comando do ataque é que rendeu, por alguns meses, o único representante doméstico entre os titulares – porém, já acertado com o Manchester City. Alguns daqui seguiram figurando entre os convocados. Nenhum, porém, com perspectivas de titularidade. Ainda bem.

O abismo seria menor se fosse apenas questão tática. Convido os leitores a comparar jogos no país com partidas no exterior. Nem precisa ser na Europa. Vale América do Sul. Até China. Em nenhum destes lugares o jogador consegue andar com a bola, como em nossos campeonatos. Mais que de prancheta ou tela, o problema é de ritmo – o que realça o número de erros técnicos. Temos um jogo devagar e nem sempre, quase nunca. Não é por menos que o Corinthians ainda lidera com folga. A despeito das limitações técnicas, consegue atuar com outra tática e outro ritmo. Foi como conseguiu, sem brilho, a posição privilegiada de só precisar de 50 % dos pontos restantes. Nada, porém, que justifique pedidos na seleção. Ainda mais com um jogador que esteve lá fora e não se destacou. O mesmo vale para Hernanes, um meio-campista muito talentoso, mas que sequer conseguia espaço no futebol chinês. Quem volta ao Brasil está encostado ou em fim de carreira – ou ambos.

Saber separar as coisas foi fundamental para a tranquila classificação brasileira. Ao contrário do vizinho, Jorge Sampaoli resolveu dar ouvidos aos histéricos argentinos que, tal como aqui, clamam por “gente da terra” quando as coisa vão mal. Ficaram pior. Mesmo com os locais jogando ao lado de Messi, empataram em casa e tiveram que se salvar ganhando fora. Parecia até campeonato brasileiro. Tite se faz de semi-surdo, mas isso é só o começo de sua provação. Até junho de 2018, a imprensa policarpa pedirá vários nomes que terão “arrebentado” no Paulistão, Cariocão, etc… Em caso de derrota, ainda haverá quem diga que não ganhamos porque Jô, Hernanes ou outra maravilha de última hora ficaram no Brasil. Se for por este motivo, podemos dizer que neste caso sim, um time morreu de véspera…

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22 comentários em: “Nem Jô, nem Hernanes, nem ninguém. Futebol made in Brasil “sucks”

  1. Discordo em muitas partes do texto. Então nossos jogadores só serão avaliados como possíveis convocações caso se destaquem no exterior? Um jogador só é bom se jogar na Europa? O nível do chinesão, do campeonato ucraniano e de outras periferias do mundo da bola é realmente melhor que o nosso? A resposta para todas essas perguntas é não!

    Pachequismo faz tanto mal quanto o gruinguismo. Em todas as copas conquistas pelo Brasil havia no elenco um predomínio de jogadores que jogavam no Brasil.

    1. Quanto mais cedo os jovens bons valores saírem, sem exageros, melhor. Ganso teria sido um excelente armador se tivesse saído antes. Lucas Lima também teria evoluído demais. E antes fosse só “quero ver fazer na Europa”. Hoje até o futebol chinês tem um ritmo melhor. Pior que o nosso, vejo a MLS, que é abaixo de horrorosa.

  2. Hernanes sentou Paulinho na copa. E é melhor que o mesmo, só pq está no Barcelona, está com status, mas.. Hernanes >> Paulinho, e se nn for no lugar dele, haaa.. no lugar do Renato Augusto com certeza, o último é um jogador bem mediano!

    E não, não sou São Paulino.

  3. Não é gringuismo. É simplesmente mostrar como nosso futebol doméstico piorou tanto, em ritmo e tática, que inclusive acostuma mal os atletas. Não ver isso é, a meu ver, cegueira por escolha própria. Minhas colunas são feitas pra que as pessoas não tenham receio de ver o que salta aos olhos. Sou fã de Hernanes, mas nem por isso posso obrigar a realidade a ser como gostaria que fosse. Aliás, estou longe de ser voz isolada nesta crítica.

  4. Falta regularidade aos atletas do Campeonato Brasileiro!
    Infelizmente, o nível por aqui é de segunda divisão mundial! O jogador de alto nível, sai jovem e só volta pra encerrar a carreira!

  5. Gustavo, assim como você, também estou desanimado com o nosso futebol doméstico particularmente este ano. No entanto, penso que você está sendo um pouco radical. Veja, Renato Augusto foi eleito o craque do Brasileirão em 2015 e Gabriel Jesus em 2016 (ambos titularíssimos de Tite). Paulinho, talvez o jogador mais importante da Seleção depois de Neymar, está lá pelo seu desempenho no… Corinthians. Ou seja, não dá para simplesmente desconsiderarmos o que acontece nos nossos gramados. Outro exemplo: na sua opinião, há algum goleiro no mundo atualmente que esteja jogando mais do que o Vanderlei? Para muitos isso soa absurdo, mas não para mim. Valeu, abs.

  6. Discordo mesmo do colunista.

    Vanderlei, Diego Alves, Fábio, Geromel, Arthur, Hernanes, Moisés, Thiago Neves, Lucas Lima, Ramiro, Bruno Henrique, Dudu, Luan e Jô podem sim, dependendo do momento, figurarem na lista de convocação. Digo mais, alguns até DEVERIAM estar.

  7. Muito bem revisado o texto.. SÓ poderia SER DELINEADO COM A CANETA NANQUIM. .UM PSICOGRAFIA DO ALÉM DE José M José Aquino..Roney Nogueira…O LINGUAGEM se ela vim eu vou se ela não vim…manter o STATUS….OS INVESTIMENTOS … Dinheiro não GUENTA 02 GERAÇÕES ..ABRAÇÃO

  8. Eu não tenho opinião formada sobre isso não!!!!! Acho que aqui o nível é muito abaixo mesmo, mas que a questão técnica é diferente, tem muito jogador bom por aqui!!!!!!!!!!!! Acho que é caso a caso mesmo!!!!!!!!!!!!!!

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