Técnico estrangeiro – por que veio e o medo de que funcione

Créditos da imagem: Folha Rondoniense

Num ensaio de “ouviram-do-ipirangada”, o promissor técnico Jair Ventura reclamou da presença de técnicos estrangeiros no país e foi apoiado por Vanderlei Luxemburgo. Depois explicou que não era bem assim, mas era tarde para apagar o incêndio, às vésperas de enfrentar um estreante colombiano. O argumento central de quem o apoia, incluindo jornalistas, é sempre a falta de resultados que tais treinadores tiveram por aqui. Antes de falarmos deste ponto, precisamos ver aquele que o antecedeu: o futebol parado, de posicionamento espalhado, repleto de passes errados e com resultados internacionais cada vez mais pobres, inclusive contra equipes muito mais modestas. Se a impressão já existia em âmbito de Libertadores, ficou pior ainda na medida em que o telespectador começou a acompanhar mais partidas dos campeonatos europeus. Só existe um jeito de não notar: encarnar o Policarpo Quaresma de vez e nem assistir aos jogos.

A primeira reação óbvia é levantar a hipótese de que este atraso enfadonho é culpa dos que dão os treinamentos. E como não eximi-los? Por mais que haja justificativas (calendário, falta de elemento humano, etc…), é evidente que a maioria sequer tentou. Preferiram partir para o caminho mais cômodo: o pragmatismo. No lugar de preparar defensores para atuar adiantados, criaram um 4-4-2 com três volantes que acabou voltando a imperar, ainda que disfarçadamente, em quase todos os times deste Brasileirão. No lugar de treinar posicionamentos triangulares para facilitar a troca de passes (como Renato Gaúcho consegue no Grêmio), bolas esticadas e jogo de pivô. Qualquer trabalho mais elaborado não tarda a ser ridicularizado, como quando os comentaristas não escondem a satisfação ao verem times com mais posse de bola perdendo a partida. Que Guardiola, que nada…

Por isso foi natural que, somando-se este futebol estagnado ao fatídico 7 x 1, mais uma série de insucessos na Libertadores, dirigentes tenham cogitado a vinda de treinadores de fora. Só com a presença deles no país seria possível analisar se estes técnicos são melhores taticamente ou existem outros fatores que explicam seus resultados nos clubes anteriores. É o que permite aprimorar o debate até se perceber que existem tanto os que realmente oferecem inovações quanto os que só trazem outro tipo de pragmatismo, mais voltado para se dar bem na principal competição de futebol (?) do continente – sobre a qual alguns ainda se deleitam em falar que jogar bem é apenas um detalhe para vencer. Esta segunda leva não vai oferecer ao torcedor daqui a sonhada evolução tática. Pelo contrário. Não é de espantar que treinadores como Aguirre e Bauza conseguiram resultados relevantes na competição sul-americana e ruins (especialmente o argentino bicampeão continental) nos campeonatos domésticos.

Como são-paulino, pude testemunhar ambos os tipos. Juan Carlos Osório representou a busca por modernidade. Edgardo Bauza foi, como explicado acima, o pragmático. Um olhar superficial diria que o segundo teve mais sucesso. Vi o inverso. Osório foi a esperança do novo, sabotada por um presidente calhorda e mentiroso. Mesmo as invenções mal-sucedidas (que batizei de “arepadas” em razão de um quitute colombiano – que adoro) eram quase todas compreendidas e executadas, ainda que com placar desfavorável. Quando chegou a um meio-termo na ousadia, viu o time ganhar regularidade. Mas, infelizmente, foi para o México antes que pudéssemos ver, com uma pré-temporada inteira, se poderia transformar um SPFC mais do mesmo em vanguarda vencedora. No seu lugar veio Bauza com seus atalhos: poupar o time duas semanas antes de jogo da Libertadores (o que não conseguiu) e abusar do doping emocional. Muita correria, muita “derrota digna”, nada de bola. Exatamente o que veio a fazer pela seleção argentina, até ser corretamente demitido.

Estas experiências mostram que, ao contrário da dedução fácil de dois anos atrás, não é questão de “trazer qualquer estrangeiro, que dá certo”. Assim como se faz com atletas, é preciso observar bem para distinguir se estão vencendo lá por virtudes táticas ou expedientes diversos. O Flamengo contratou Reinaldo Rueda (após tentar o brasileiro Roger, que recusou) acreditando ser da primeira estirpe. O Atlético Nacional de 2016 praticou um futebol de excelente qualidade, com trocas de passes, velocidade e pressão constante para ser pouco atacado. Tal trabalho justifica a escolha num momento em que os melhores do ano (Fábio Carille, Renato Gaúcho e o próprio Jair Ventura) estão firmes em seus clubes. Poderiam ir atrás de Luxemburgo, mas devem estar calejados o suficiente pra não acreditarem outra vez num início promissor seguido de crises gratuitas e queda de desempenho. Curioso, ou não, que tenha sido exatamente este técnico que se ergueu para apoiar o libelo de Jair.

Contudo, Rueda chegará com pouco tempo para mudanças profundas e muita antipatia por parte da imprensa. Logo virão matérias do tipo “aproveitamento de Rueda é inferior ao de Zé Ricardo”, caso não vença pelo menos dois dos próximos três jogos. Se o Flamengo quiser que funcione, precisará atender a dois requisitos: 1 – cumprir o que prometeu ao treinador em termos de elenco; 2 – independentemente dos resultados iniciais, dar a ele ao menos a pré-temporada e os primeiros meses de 2018. Até lá, ao menos os alicerces deverão estar firmados e será possível concluir se o técnico escolhido é mesmo o imaginado. Parece simples, mas não faltarão patrulhas e desonestidade intelectual para impedir uma chance completa de sucesso. Não são apenas os treinadores nacionais que temem mudanças. Muitos comentaristas também, porque igualmente terão que estudar. É bem mais fácil ligar o piloto automático e falar do produto “da terra”.

Leia também: Osorio, se é por falta de adeus…

6 comentários em: “Técnico estrangeiro – por que veio e o medo de que funcione

  1. Gustavo Fernandes e Cesar Grafietti, quis o destino que voltássemos a debater – ainda que indiretamente – sobre o Osorio. Aliás, bendita discussão, que nos possibilitou essa aproximação, não é mesmo?! 😉 Enfim, discordância pontual à parte, penso que na essência concordamos que o nosso futebol precisa evoluir. E como acontece em muitas áreas, o profissional bom, arrojado e inovador, independentemente de sua nacionalidade, merece sempre ser visto com bons olhos. Simples assim. Por isso tudo, faço questão de dar as boas-vindas ao Rueda. Sem vilanizar o Jair Ventura, que também é ótimo e obviamente deu uma escorregada. Abraços e obrigado pela presença constante dos amigos neste No Ângulo.

  2. Assino embaixo, Gustavo Fernandes! Acho que o Reinaldo Rueda foi um achado do Flamengo! Algum leitor comentou aqui e concordo totalmente: a diretoria rubro-negra já mostrou que dá tempo para os técnicos, e fazendo isso com o Rueda no ano que vem, aposto que tem tudo para ser um sucesso e finalmente acabar com tanta resistência a estrangeiros.

    PS: não engulo o Osorio. Ok, tem seus méritos, tentava fazer o time jogar bola e era ousado, mas trazia muuuita instabilidade para a equipe e tem resultados fracos em toda a carreira. Confio muito mais no Rueda…

    1. Outros técnicos ousados e muito elogiados, como Bielsa, também não têm tantas conquistas proporcionalmente ao tempo de carreira. Mas Osório moldou a filosofia deste Atlético Nacional. A meu ver, ia encontrando a mão no SPFC ao ser menos heterodoxo. Mas só saberíamos o sucesso ou insucesso de seu trabalho se tivesse ficado mais tempo, com pré-temporada. De todo modo, a menção a Osório se deu porque, engolindo o colombiano ou não, considero-o um técnico que se sobressai pela virtude tática e não pelo pragmatismo, ao contrário de outros treinadores estrangeiros que vieram. Trocar um pragmático nacional por um pragmático sul-americano é, pois sim, um erro de gestão. Por isso é preciso observar bem antes de contratar. Não é simplesmente achar que é melhor porque veio de fora e não está contaminado pela mesmice dos daqui. Mesmo currículo pode enganar bastante, vide Bauza. Pra mim, a fase de se contentar com “derrota digna” foi e será o momento mais deprimente do SPFC. Nem uma série B superaria isso. Sem exageros.

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