Sobre a greve dos jogadores no Figueirense

Créditos da imagem: Reprodução UOL Esporte

A atitude tomada pelos jogadores do Figueirense, negando-se ir a campo na partida contra o Cuiabá, o que provocou derrota por W.O para o time catarinense, no Campeonato Brasileiro da série B, deveria ser manchete em todos os jornais e não apenas nas páginas esportivas

A luta pelo direito de receber salários em dia por um trabalho realizado é mais do que justa, e, mesmo no “país do futebol”, vai além dos alambrados de um campo, de calção, camiseta e chuteiras. Deve ser praticada por todos, em todas as posições, de chinelo ou de sapato, gravata e paletó.

Mas, pena, ficou nas tímidas notícias em páginas esportivas. E ainda bem que – pelo menos não li – a heroica decisão dos trabalhadores – sim, porque são trabalhadores como outros quaisquer – não tenha recebido críticas e até ameaças, feitas por cartolas e aceitas por conta do medo.

Eu sei, embora felizmente não tenha enfrentado tal limite, que muitas vezes é preciso ter paciência, aguardar uns dias de atraso no pagamento, até mesmo lutar ao lado do empreendedor, do patrão, necessário numa sociedade democrática -, mais ainda quando se sabe da multidão de desempregados. Mas para tudo há um limite. Na fábrica, no escritório, no gramado, na redação do jornal.

E foi nesse limite extremo que os jogadores do Figueirense chegaram e assumiram a atitude corajosa de se negarem ir para o gramado. Não me recordo se pela primeira vez no nosso futebol, tão rico e tão mal administrado. Tenho fresco na memória que há poucos meses ou dias, jogadores do Fluminense e do Botafogo se negaram a treinar. “Apenas treinar”, que já era um bom grito de alerta.

Há exatos 50 anos ganhei o cobiçado Prêmio Esso de Informação Esportiva, ao lado do companheiro Michel Laurence, escrevendo uma série de reportagens sob o título “Jogador, um escravo”. De lá para cá muita coisa mudou, e para melhor.

Veio a Lei do Passe, clubes (do Exterior) foram abarrotados por dinheiro de bilionários, tornaram-se empresas, grandes lavanderias etc – o que alcança os nossos. E muitos jogadores ganham agora em um ano o que Pelé, o maior de todos, não ganhou em mais de 20 anos de carreira.

Muita coisa mudou, mas nem tudo. Os sindicatos, que representam os atletas, continuam tão impotentes – ou mais – quanto eram antes dos lutadores Caxambu, Gérsio Passadore, Gilmar dos Santos Neves, Waldir Peres. Os grandes jogadores, de ótimos salários, continuam pensando apenas neles, longe dos sindicatos.

Cartolas rasgam as leis – estas que os jogadores do Figueirense usaram – a toda hora. Alguns recebem salários e, claro, rigorosamente em dia. A sede da CBF, que não tem jogadores sob contrato, mas fatura milhões com eles, é luxo só. E os salários dos que a frequentam superam, em muito, os pagos a presidentes de grandes multinacionais. Sem prestação de contas. A ninguém.

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