Sobre a miopia da imprensa que cobre a seleção

Créditos da imagem: Lucas Figueiredo/CBF

Prolixo de lá, toscos de cá

Minha última coluna mencionou a falsa cultura e os neologismos supérfluos de Tite. Faltou falar do outro lado: o fraquíssimo entendimento nos comentários da mídia. Se o vocabulário de Tite é desnecessário, o de muitos críticos é obsoleto. Não apenas o vocabulário, mas as observações. Por preguiça ou pachequismo, boa parte deles só assiste a jogos com times nacionais. Quando assistem a outros jogos, ou é para falar que “endeusam demais”, ou como mero entretenimento. Não prestam atenção em posicionamentos e nem por isso deixam de “ensinar o telespectador” sobre o que eles mesmos não sacam. Isso porque, como adoro lembrar, “brasileiro é muito humilde”.

Não era difícil, pelo que foi o segundo tempo da vitória brasileira sobre a República Tcheca, perceber o que mudou o panorama de um jogo arrastado. Em meio a diversas substituições, Tite acertou justamente na quarta e na quinta. Tirou o estático Richarlison (dado como garantido na Copa América) e enfim promoveu a estreia de David Neres. No meio-campo, também enfim recolocou Arthur e Allan juntos – mesma mudança que já tinha melhorado a equipe em outros amistosos. Com dois meio-campistas que tocam e saem, além de um atacante rápido, técnico e inteligente (faltam uns 3 quilos de massa muscular), foi o chamado “oooooooutro Brasil”. Mas, para os registros jornalísticos, quem mereceu destaque foi exclusivamente Gabriel Jesus – que quase conseguiu perder as duas bolas de bandeja que recebeu. Neres ganhou notas de rodapé e olhe lá.

Além da técnica assombrosa de só prestar atenção em quem faz o gol, vimos a opinião uníssona de que a seleção jogou o “autêntico futebol brasileiro”. Errado. Com esparsas exceções, o autêntico futebol brasileiro é o introduzido por figuras como o comentarista Muricy Ramalho. Chuveiradas a granel, bola parada e uma divisão estúpida entre volantes de contenção e meias-atacantes. Meio-campo, para estes analistas, só se mede pelas assistências. Não entendem o que é rodar a bola até o time ficar bem posicionado para estocar. Este jogo inteligente foi nosso futebol, só que de anos atrás. Tanto tempo que já prescreveu o direito de chamá-lo de brasileiro. É coisa de gringo. Não é à toa que, nos clubes europeus com tal filosofia, só temos dois brasileiros titulares do meio-campo. Justamente Arthur e Allan – ainda um ilustre desconhecido da torcida.

Mas a imprensa impôs Paquetá. Que tem futuro, mas não necessariamente na armação. No Milan, suas melhores partidas ocorrem mais avançado, inclusive aberto (o “externo desequilibrante” de Tite). Não tem a visão global de um meio-campista. Muito porque, no Flamengo, foi adiantado para finalizar mais e dar assistências. Até de centroavante jogou. Uma vez na seleção, fez a mesma coisa. Em vez de ajudar Arthur na organização, mandou-se para o ataque. Quem recuou foi Coutinho, na mesma função em que, no Barcelona, perdeu a vaga para o próprio Arthur – mais adiante, perderia a posição de “extremo desequilibrante” para Dembélé. Nenhuma das incoerências causou estranheza inicial. Pelo contrário. Acharam interessante. Teria dado errado tão somente porque “faltou vontade” e alguns jogadores “não apareceram”. Na próxima, deveriam usar melancias no pescoço para “aparecer”.

Como pérolas finais, tivemos a insistência terminológica de ver meio-campista como segundo volante (dois segundos volantes, na incrível matemática de Muricy) e um gol subtraído de Firmino. Quando estava 2 a 1, o locutor Gustavo Villani, no seu estilo Aqui Agora, sentenciou que Gabriel Jesus finalmente fez um gol num jogo em que o rival passou em branco. Pois é, o gol de empate deve ter sido de um sósia. Está faltando Galvão? É que resolvi assistir aos jogos pelo SporTV. Sempre bom aprender novos modos de me irritar.

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