Daniel Alves, São Paulo e os dois mundos de Constanza

Créditos da imagem: Rubens Chiri / saopaulofc.net

Um dos grandes episódios de Seinfeld tinha o personagem George desesperado. Motivo: sua noiva começou a ficar amiga de Elaine. Na cabeça de George, havia dois mundos: o do George independente e o do George comprometido. O primeiro era o dos amigos, sem interferência da parceira. O segundo era o contrário. Uma eventual colisão seria fatal, matando o George independente. Alguns episódios depois, quem morreria era a própria noiva. Mas isso é outra história. O que interessa para o esporte? É que se trata de divisão similar à que o são-paulino faz sobre Daniel Alves no tricolor. Uma separação planetária que, como a memória do futebol mostra, logo se mistura e gera a explosão temida por George Costanza.

O tricolor sabe que, financeiramente, a vinda de Daniel supera a insanidade. Seria “apenas” loucura se o elenco já não tivesse vários elefantes brancos – jogadores que custam, cada um, mais de 6 dígitos anuais e mal convencem como titulares. Nenhum torcedor atento acredita mais nas balelas de “plano de marketing”, “venda de camisas” e outras justificativas pega-trouxa. Sendo assim, resta apelar aos dois mundos (ou duas esferas, se preferirem). Se o mundo econômico não merece elogios, fiam-se no esportivo. Impõem a si mesmos uma esdrúxula proibição: “depois de tanta tralha contratada, como posso reclamar?”. É a mesma coisa que falaram sobre outras vindas festejadas e caríssimas. Nem precisa de túnel do tempo. Basta lembrar Lucas Pratto. E que, sem dinheiro para contratar mais, o time quase caiu. No lugar de “upgrade”, um mergulho para o fundo do poço.

O caso de Pratto está longe de ser a exceção. Antes dele vieram outros. Depois também. Chega a parecer uma técnica de gestão. Você contrata diversos atletas fracos para que, quando arregaçar o cofre do clube atrás de um renomado, receba um “bola dentro, parabéns!!!”. Falta apenas combinar com os resultados. Dava para aprender isso desde os tempos de Ricardinho. Sem dinheiro até para uma multa baixa (descuido corintiano), o São Paulo passou a ter dificuldades financeiras só saneadas com as vendas de Kaká e Luís Fabiano – o que explica os valores relativamente pequenos. Antes disso, em meio a atrasos disfarçados, os jogadores elegiam como símbolo da crise o próprio Ricardinho. São clássicos os relatos extra-oficiais sobre o “toca pro trezentinhos”. O meia, antes solução do meio-campo, pediu para trocar de ares. Para “alegria” de quem investiu, já que saiu de graça.

Este é o ponto do choque: da descompensação financeira vem a queda esportiva. É um processo sem exceções. Nem adianta citar Ronaldo no Corinthians. Funcionou porque o atleta aceitou algo sem precedentes: só passaria a receber quando sua presença trouxesse os anunciantes necessários. Foi assim que os mundos não trombaram, já que no começo só existiu a esfera esportiva. Não só ninguém deixou de receber, como o clube pôde contratar. Era um negócio possível por três razões: 1 – o momento econômico favorável; 2 – a estrutura de apoio ao Corinthians, com grande espaço na maior emissora do país; 3 – um jogador que representava, para o futebol mundial, muito mais que Daniel Alves. Capaz de passar incólume por constrangimentos monstruosos. Um fenômeno de futebol e também de marketing. Na falta de um destes fatores, seria um fenomenal desastre.

Acredito que muitos leitores são-paulinos sequer chegaram a esta parte do texto. Por mim, tudo bem. Quem acompanha as colunas sabe que abomino o “pode ser uma boa”, especialmente quando implica ignorar obviedades. É evidente que, como tricolor, vou sorrir quando ele fizer seus lances de qualidade. Mas não tende a ir além disso. Ainda mais conhecendo a probabilidade de, com o passar do tempo, ficarmos sabendo de valores acima dos anunciados, fora comissões sem sentido para pessoas mais sem sentido. Não peço perdão por não fazer o jogo do contente. Daniel não precisa de boa sorte. Já o SPFC precisará de muita sorte para que seus mundos sigam separados – a menos a tempo de ganhar alguma coisa.

2 comentários em: “Daniel Alves, São Paulo e os dois mundos de Constanza

  1. As comparações são generalistas e deixam de levar em consideração diversos critérios que as tornam bastante diferentes dentro da abordagem que o texto propõe (os mundos esportivo e financeiro). A reflexão ficou “incompleta”.

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