Sobre o dilema tricolor: aguentar Cuca até o fim do ano ou buscar qualquer um?

Créditos da imagem: Ricardo Moreira

Dieta indigesta – sanduíche de marmota do Mestre cuca

Não para surpresa deste colunista, Cuca segue a encarnação futebolística da “propaganda honesta” do Subway. Pode colocar qualquer ingrediente e o gosto do futebol praticado será o mesmo. Mudanças de ingredientes não faltaram. Tanto por conta própria quanto por sugestões das redes sociais (assim como na lanchonete, o cliente pode escolher o que colocar no sanduba), o desempenho do São Paulo atingiu o padrão de seu criador. Trombadas, bolas na área e desespero. Mas o que os leitores diriam se o colunista dissesse que, pasme-se, foi a escolha certa? Questão de objetivo. O do São Paulo, em março, não poderia ser outro além de ficar na primeira divisão. Exagero? Só para os desmemoriados.

Quando Cuca foi contratado, o tricolor não estava apenas frustrado pela queda na Pré-Libertadores. Seu aproveitamento era o pior entre todos os times que jogariam a Série A. O cenário mais provável era passar meses lutando para não cair. Neste contexto, de emergência total, fazia sentido trazer um treinador que fizesse qualquer catado jogar a mesma coisa. No caso de um time moribundo, perdendo jogo atrás de jogo, esta “mesma coisa” bastaria para evitar o drama. Como está evitando, mesmo. Sob tal ótica, sua vinda foi uma medida das mais felizes. O problema é que trocaram a ótica. Pressionados por um título e iludidos com o “melhor futebol do ano” na fase final do Paulistão (duas vitórias contra o Ituano, três empates e uma derrota), Raí & CIA decidiram transformar a lanchonete mediana em restaurante campeão. Com o mesmo sanduicheiro como Chef.

Cuca e clientela foram ouvidos. Para agradar o primeiro, trouxeram Tchê Tchê. Já o torcedor se deliciou com Pato. Aos trancos, barrancos e outros trancos, o São Paulo chegou à nona rodada mais perto do topo que do abismo. Foi a deixa para quintuplicar a aposta. Daniel Alves e Juanfran foram contratados para euforia quase geral – não incluindo o departamento financeiro. A criatividade do professor Twitter explodiu de vez, com ambos os laterais-direitos sendo sugeridos em todas as posições, menos as verdadeiras. Tanto por vocação própria quanto por falta de personalidade, Cuca deu espaço a quase todos os palpites. Chegou até a usar ambos e Igor Vinícius ao mesmo tempo. Resultado: o São Paulo segue rigorosamente na mesma faixa de pontuação de antes. Nem pior, nem melhor. Só mudou a frustração de quem, por razões nada inteligentes, acreditou em título.

Nem com Cuca, nem com outro treinador a conquista do Brasileirão seria viável. Não apenas porque o Flamengo é melhor. O elenco do São Paulo segue com embalagem enganosa. A começar pelos que, inicialmente, seriam os grandes reforços. Hernanes voltou da China em frangalhos. Pablo, além das lesões, já não tinha números e desempenho que justificassem a empolgação manifestada. Depois veio a leva de garotos que empolgou por duas semanas, mas muito pela superconcentração de estreantes. Corro o risco de ser queimado por inquisidores pró-Cotia, mas todos eles (mesmo os promissores) têm sérias lacunas. Antony, por exemplo, é um atacante que pouco entra na área e chuta mal. A base são-paulina forma mais títulos que profissionais consistentes. Ao contrário da gremista, com menos troféus e jogadores mais prontos entregues a Renato.

No caso dos badalados de agosto, a preocupação chega aos cofres do clube e aos bolsos dos atletas. As contas não batem. Ao contrário do esperado, a janela europeia não rendeu o que era preciso para reforçar o caixa. Como postei na época, é farsesco separar aspectos esportivos e econômicos neste caso. São mundos que fatalmente se chocarão. Pela matemática básica, já estão se chocando. Não é estimativa. É fato. Questão de tempo para a trupe chapa-branca não segurar mais os vazamentos sobre atrasos. Mesmo sem colidir com o mundo financeiro, a órbita do mundo esportivo de Daniel e Juanfran passa pelas dificuldades também previsíveis. Não se consegue mudar da lateral para o meio-campo aos 36 anos. Não se consegue atuar facilmente num time brasileiro, sem nunca ter atuado por um, aos 34 anos. Otimismo até ajuda por algum tempo. Só algum tempo.

Tudo isso para chegar a uma conclusão desagradável como são-paulino. Com ou sem Cuca, o time não vai melhorar nesta temporada. Mesmo porque faltam pouco mais de 2 meses, a despeito de ainda haver 17 partidas a disputar. Poucos dias para treinar. Com Cuca e seus sanduíches, o São Paulo tanto pode chegar em quarto como em décimo-segundo. Com outro técnico, também. O que isso significa? Que, salvo uma oportunidade realmente boa, o mais sensato pode ser encerrar mais um ano da marmota sem novo técnico. Isso para não correr o risco de arrumar outra bomba para estragar 2020 – e, por tabela, 2021. O maior obstáculo a tal opção é o estômago do são-paulino. Talvez só jejuando pra aguentar.

Um comentário em: “Sobre o dilema tricolor: aguentar Cuca até o fim do ano ou buscar qualquer um?

  1. Depois da administração assombrosa de Juvenal Juvêncio, o SPFC virou um clube que, mesmo estando com água pela metade, o copo estará sempre meio vazio.
    Não há técnico que resolva. Parece não haver jogadores que resolvam.
    Infelizmente, parece que a única solução é mudar a razão social do outrora grande clube.

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