Sobre o flerte santista com tempos nada memoráveis

Créditos da imagem: Terceiro Tempo

Santos – o fantasma dos Natais de um mau passado

Os leitores devem saber que sou são-paulino. Todavia, tal como muitos santistas, vi a fase sombria do clube da Vila. Não tenho como deixar de observar preocupantes semelhanças com o que se avizinha. Especialmente duas: incompetência generalizada e coitadismo. Sim, coitadismo. Entre 1984 e 2002, os santistas não raro usavam seu valor histórico para obter determinadas tolerâncias, no melhor estilo “vocês têm que entender e pronto!”. Não foram poucas as vezes em que os grandes da capital tinham que se submeter aos buracos da Vila Belmiro, sem que a imprensa fizesse qualquer ressalva. Já a recíproca não era verdadeira: jogo no Morumbi (inclusive contra Palmeiras e Corinthians) com público meio a meio. E todos tinham que entender…

Naturalmente, essa vitimização não levou o Santos a nada além de se aproximar da Portuguesa como o “clube da peninha”. Tempos em que empurravam ao santista que Marcelo Passos, Maurício Copertino, Ranielli e até Edinho seriam nomes relevantes. Sim, houve o vice-campeonato brasileiro de 1995. Que logo deu lugar a novos desgostos até que, finalmente, o clube reencontrasse na base as origens vencedoras. Nisso se passaram quase vinte anos. Após a geração de Diego e Robinho, o Peixe encontrou um Norte e conseguiu mais que resultados. Retomou o respeito, sem exigir compreensão gratuita. Não que estivesse livre de fanfarrões e mecenas temerários, mas o futebol se sustentava. Pois tudo isso não só ameaça ir pelo ralo em tempo recorde, como dá pinta de que será novamente substituído pela receita do fracasso – incluindo a indulgência dos jornalistas.

A contratação de Carlos Sánchez já era discutível desde o começo. Não que se trate de um mau jogador. Não é, contudo, o tipo de meio-campista com visão de jogo que se espera. Fosse isso, a seleção uruguaia não teria passado a Copa refém de ligações diretas. Mais grave que o cabimento técnico foi o que todos estão vendo: o episódio da Libertadores. Sendo que foi preciso o técnico Cuca quebrar todos os protocolos de hierarquia, porque se dependesse dos blogueiros, repórteres e comentaristas o clube seria 100 % vítima. Não foi. A pressa para colocar Sánchez na competição fez com que dispensassem um trâmite que o River Plate não dispensou – e por isso está protegido. Não houve consulta formal à Conmebol sobre pendências do atleta. Seria o suficiente para ter o manto da boa fé. Qualquer gestor da parte jurídica deveria saber disso. O do Santos não soube – ou não quis saber.

Houve ainda a patética decisão de contratar o advogado Mário Bittencourt, tratado como um “milagreiro” por causa do caso Heverton, que rebaixou a Lusa. Oras, um chimpanzé teria conseguido a mesma sentença, tal a trapalhada daquele incidente. Sim, muito se falou em “falta de senso de Justiça” e até mesmo uma suposta infração ao Estatuto do Torcedor. Coitadismo ao cubo. Logo até o “promotor da conspiração” teve que tirar a melancia do pescoço. Simplesmente ocorreu uma barbeiragem que, a despeito de inúmeras decisões escabrosas da nossa Justiça Desportiva, rebaixaria todos os cariocas juntos se tivessem feito o mesmo. Da mesma maneira como, com todas as suas marmeladas, a Conmebol não teria o que fazer além de reconhecer – e punir – o desastre santista. A escolha do advogado deixava isso mais claro. Sem argumentos, tiveram que apelar ao factoide.

O torcedor santista, porém, foi ao estádio acreditando mesmo ter sido garfado. Era o que garantia a diretoria. Mais: era o que asseguravam, mesmo durante a confusão, os jornalistas. Horas antes, na hora do almoço, um comentarista da Band FM não se conformava com a hipótese de se falar em culpa santista. Quem ousasse destacar um erro do clube era patrulhado até complementar que, “como a Conmebol também fez besteira”, tinha que ficar por isso mesmo. Esta covardia desinformadora foi a raiz da falsa “ira santa” no Pacaembu. Pessoas comuns correm o risco de perder benefícios penais, por conta da ilusão. Tudo para descobrirem, na volta para casa, que o Santos “não observou o beabá” na inscrição de Sánchez – que, aliás, esteve em campo no único absurdo jurídico de tudo isso, graças a uma aberração (aí, sim), da entidade sulamericana. O torcedor justiceiro virou trouxa.

Antes fosse só este caso. Paralelamente, a diretoria enrolou o clube em outras encrencas. Como repassar, anos após a vedação da FIFA, direitos federativos de atletas a pessoas físicas. Somando-se multas, contratações ruins e outros prejuízos, há o risco de se comprometer todo o dinheiro a ser recebido por Rodrygo. Pior: com o aumento de medalhões, tem-se menos espaço para a garotada. Este ponto mudaria a postura dos agentes de jovens. Sem a certeza da antiga prioridade no Santos, poderão destinar seus melhores clientes a outros clubes. Se isso ocorrer, desabará toda a estrutura do futebol. Perdendo sua maior fonte financeira (e técnica), será um pulo para o retorno nada triunfal de Copertino & Cia. Tristes Passos (com o perdão do trocadilho).

2 comentários em: “Sobre o flerte santista com tempos nada memoráveis

  1. Contratações ruins da diretoria atual? Informação falha pra encher linguiça no argumento de que a diretoria é ruim.
    De resto está correto.

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