Quando o problema está em quem manda

Créditos da imagem: torcedores.com

Na última semana fiz uma enquete em minha conta no Twitter. Depois de algumas mensagens dizendo que finanças em dia era bobagem, que torcedor quer título e não se importa com a saúde financeira de seu clube, resolvi consultar as bases e ver se essa era a realidade ou apenas traço na pesquisa.

Pois bem, a pergunta foi “Torcedor, você aceitaria que seu time ficasse 5 anos em reestruturação financeira, sem chance alguma de títulos, para depois voltar forte e competitivo?”. Para esta pergunta havia 3 possibilidades de respostas, que transcrevo abaixo já com o resultado da pesquisa (não precisa se surpreender com o resultado. Eu já fiz isso).

Sim – 71%
Não – 8%
Sim, mas menos tempo – 21%

Não é uma pesquisa científica, e foi respondida por 887 internautas. Mas a despeito de suas deficiências técnicas, a enquete aponta uma direção que talvez nem os clubes conheçam: os torcedores querem seus clubes saudáveis financeiramente, mesmo que para isso precisem amargar anos na fila.

Se bem que, sendo bem honesto com a maioria dos torcedores, pensando em campeonatos de valores realmente representativos (Brasileiro, Libertadores, Copa do Brasil), são poucos os clubes cujos torcedores gritaram “É Campeão” nos últimos anos. Na verdade, nos últimos 5 anos – período indicado na enquete – tivemos 3 campeões Brasileiro que foram Cruzeiro, Palmeiras e Corinthians, enquanto a Copa do Brasil teve 5 campeões diferentes* (Flamengo, Atlético MG, Palmeiras, Grêmio e Cruzeiro), e a Libertadores só teve o Grêmio campeão. Só tivemos 6 campeões em 15 campeonatos possíveis. Ou seja, já há muitos torcedores que estão em silêncio faz algum tempo, e nem por isso os clubes fizeram sua lição de casa no período.

O que não significa que esses campeões fizeram. Exceto por Grêmio, Flamengo e Palmeiras, os outros 3 andam cambaleantes, mais para lá que para cá, e os títulos apenas encobrem suas realidades, ao mesmo tempo em que são reflexo de um futebol ainda em ajuste, onde mesmo sem fazer o certo fora de campo, dentro de campo o time “dá liga” e alcança resultados.

Mas o torcedor quer mais do que isso. O torcedor espera que essa gangorra que faz do time campeão num ano e postulante à Série B no seguinte pare com o clube no alto. É essa gangorra que traz a falsa sensação de competitividade, mas que é apenas uma imprevisibilidade vinda da nossa desorganização (tenho insistido nesse ponto para apagar velhos mitos). E para isso é necessário, fundamental, que o clube tenha uma condição financeira estável. Com isso pode pagar salários em dia, pode planejar – palavra usualmente fora do vocabulário dos dirigentes – e se estruturar para disputar o que for possível. Mas com consistência, de maneira que o melhor trabalho dentro de campo seja o vencedor, e não um trabalho feito de maneira artificial, sem pagamentos regulares, com atrasos de impostos e aquisições. Aliás, isto tem nome e é Dopping Financeiro.

Ainda existe uma parcela que topa o ajuste mas espera menos tempo. Natural, pois ninguém quer ficar anos na fila. Mas o que muitos respondentes não perceberam é que já estão na fila, sem o resultado ideal no final. E existem também os que já passaram pelo purgatório e ainda não viram o pote de ouro no final do arco-íris. Estes acreditam que nem sempre vale a pena o sacrifício, sem perceber que muitas vezes a bonança ainda está por vir. Mas paciência é uma virtude a ser trabalhada.

Claro que a enquete tem por trás algumas premissas, como por exemplo a exigência de que tudo seja feito por pessoas competentes, com transparência e governança, para que seja duradoura. Porque não adianta passar 5 anos se reorganizando para depois chegar um gastão e jogar tudo fora. E é justamente isso que os torcedores cobram, mostrando que dirigente amador com perfil antiquado está com os dias contados.

Basta agora que aqueles que tomam as decisões resolvam agir, e que façam os políticos que mandam nos clubes amadores entenderem que só assim o futebol brasileiro será melhor. Ou então esperem que os netos e bisnetos optem por Juventus, Real Madrid, Barcelona e ignorem que um dia já houve Fluminense, Vasco, Santos, Cruzeiro…

*Em breve uma coluna abordando a realidade de cada clube no futuro.

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