Sobre o que o Santos conseguiu apresentar e o gato por lebre do São Paulo

Créditos da imagem: UOL Esporte

Copo meio (muito) cheio e meio (muito) vazio

Vendido como um confronto entre dois conceitos modernos, o Sansão entregou apenas metade. Jorge Sampaoli, com um tempo exíguo de treinos, mas que já seria privilégio numa seleção, promoveu uma explosão no ritmo de jogo santista. Não apenas sacudiu o futebol doméstico arrastado, como cometeu o “sacrilégio” (ironia e sarcasmo, aos maus entendedores) de não recuar com 2 a 0 – coisa que o mesmo SPFC não fez na final da Copinha e quase perdeu um título ganho por isso. Do outro lado, as esperanças em André Jardine sofreram um baque ao perceber o seguinte: tal como outros, ele também espera manobras modernas num carro velho. Quando viu que não dava, mandou o goleiro dar chutão. Era mais fácil no sub-20.

Para atingir o padrão de ontem, não foi só questão de se agitar no banco. O elenco santista não tem maravilhas, mas permite fugir de um desastre antecipado: escalar um time pesado e querer velocidade. É algo admissível num torcedor brincando de prancheta no Twitter. Não num treinador. Trata-se do básico do básico. Tudo o que Jardine não entendeu, a ponto de colocar mais um pesadão – e bota pesado nisso – no segundo tempo, já em desvantagem. Foi o momento em que Sampaoli se deu ao luxo de ser supérfluo. Com Diego Souza e Pablo à frente de Hudson e Jucilei, não era preciso colocar três zagueiros para marcar os centroavantes. Um marca o outro. Mas deu certo, porque o São Paulo ainda fez o favor de mandar os pesadões ocuparem o campo de ataque, criando uma avenida ao contragolpe. Sabem a história de combinar com o adversário? O tricolor topou a combinação.

Outra bagagem de Sampaoli, que também não teve tempo (e talvez coragem, pois envolvia trombar com Mascherano) na seleção, é entender o quão impraticável é controlar o jogo no campo de ataque com a formação “consagrada” (mais ironia e sarcasmo) em nossos times: primeiro volante, segundo volante e meia-atacante centralizado. Em nenhum momento o Santos caiu nesta auto-armadilha. Já o São Paulo a adotou de forma oficialíssima, sem sequer a chance de os jogadores corrigirem isso com movimentação. Nunca com Jucilei e Hudson. Liziero ainda teria sido capaz de avançar para não deixar Nenê encaixotado. Quando o capitão tricolor faz isso, é certeza de bola perdida e contragolpe. Sim, deu certo contra Mirassol e Novorizontino. Ainda assim, naquelas. Não era difícil prever que o futebol espaçado e estático teria grandes problemas contra times melhores. Jardine não previu.

Evidentemente, ao se depararem com o futebol santista deste domingo, os treinadores pensarão em meios de dificultá-lo ou aproveitar brechas. O próprio São Paulo teve suas chances quando o placar estava empatado. Os contra-ataques, porém, pararam nos erros de Helinho e Nenê. O garoto, como já comentei em outras colunas, chegou ao time profissional tão franzino como era no começo de 2018. Quem também ainda sofre fisicamente é Liziero, outro que jogava demais e se fortalecia de menos em Cotia. Já Nenê quer fazer com 37 o que nem era seu forte com 25, tentando arrancadas contra zagueiros nascidos uma década depois. Neste ponto, a derrota foi uma benção para o São Paulo. Se o Santos perdesse todas as chances e o tricolor achasse o gol na tal “bola bandida”, a mesma imprensa estaria bradando a “vitória da eficiência” são-paulina. Perder ajuda a abrir os olhos. E a visão não é nada boa.

Saudado como muito bem sucedido na janela de contratações, o São Paulo constata que as lacunas seguem no Morumbi. Bruno Peres continua titular. Liziero continua sentindo a perna quando substitui a marcha lenta de Hudson ou Jucilei. Helinho continua verde. Nenê e Diego Souza não ficarão mais jovens. Será Hernanes o suficiente para dar um upgrade em tudo? Os comentaristas acham que sim, mas esquecem que o Profeta não escapou das críticas em 2009, primeiro ano da decadência. Ele é excelente, mas não é dois. Já penava para fazer tudo ao mesmo tempo com 23 anos. Está com 33. A maior dúvida está no banco. André Jardine foi um excelente treinador sub-20. Talvez – ou provavelmente – ainda seja só isso. Futebol juvenil é outro ritmo e com mais espaços. Periga ser um Écio Páscoa, engenhoso técnico da base lusa nos anos 1990, cujas engenhocas nunca vingaram com os marmanjos.

Já o Santos, com todas as suas dificuldades (que deixaram seu treinador assumidamente insatisfeito), tem motivos para acreditar em surpresas. Não sou fã de falar “seria muito bom para se fulano ou beltrano forem bem sucedidos”, mas este caso é exceção. Seria importante ver um técnico, independentemente da nacionalidade, combatendo e vencendo os vícios do futebol brasileiro. Vícios estes que já tomaram conta até das categorias de base, como podemos ver na seleção sub-20 queimando talentos no Chile. O futebol praticado no Brasil está muito mal. Falta alguém mostrar que pode ficar melhor, mesmo sem fortunas europeias. Ou então o jeito vai ser mesmo entrar pra “geração playstation”.

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